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Um sonho que durou três dias
Publicado por Urariano Mota em 27/02/2006 às 12h45
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Evocação lírica e livre de carnavais a partir de uma composição dos Irmãos Valença.

Um sonho que durou três dias

Urariano Mota


Assim como na música “Valores do Passado”, cuja letra evoca os nomes de blocos do carnaval do Recife, com versos inteiros somente de nomes de blocos

“Bloco das Flores, Andaluzas,
Cartomantes
Camponeses, Apois Fum e o Bloco
Um Dia Só
Os Corações Futuristas,
Bobos em Folia
Pirilampos de Tejipió
A Flor da Magnólia
Lira do Charmion, Sem Rival
Jacarandá, A Madeira da Fé
Crisantemos, Se Tem Bote e
Um Dia de Carnaval
Pavão Dourado, Camelo de Ouro
e Bebé
Os queridos Batutas da Boa Vista
E os Turunas de São José
Príncipe dos Príncipes brilhou
Lira da Noite também vibrou
E o Bloco da Saudade
assim recorda tudo que passou”

nós bem que poderíamos falar do carnaval de Pernambuco somente com as letras dos seus frevos. É irresistível não começar por

“Tive um sonho que durou três dias
Foi um sonho lindo, sonho encantador
Eu dançando tu me conduzias
Ao castelo azul onde mora o amor

Tu cantavas assim
Bem pertinho de mim
Essa linda canção
Comigo a dançar
No rico salão

Este sonho real
Foi o meu carnaval
A mais grata emoção
Que já se passou
Em meu coração”

Escrevemos “é irresistível não começar por”, e a intenção de fato, nas primeiras linhas, era navegar nas ondas das marchas e frevos de Pernambuco a partir de Um sonho que durou três dias, dos Irmãos Valença. Dissemos era, porque a vontade maior que dá agora é ficar repetindo este sonho até que se afundem estes versos na lembrança.

“Tive um sonho que durou três dias
Foi um sonho lindo, sonho encantador
Eu dançando tu me conduzias
Ao castelo azul onde mora o amor”

Essa primeira estrofe que mais nos vem, melhor, que somente ela nos vem, porque o mais, e o resto, não resistiria nem existiria sem ela, essa estrofe é simples, bela ... e ingênua, quase poderíamos dizer. Mas não cabe qualificá-la assim. A má vontade, a vontade ruim que dá em chamá-la de ingênua é esse “castelo azul”, um negócio bobo, sonho bobo de pobre a sonhar em ser nobre. Mas se é azul, e se lá mora o amor, convenhamos, tudo deve ser permitido, até mesmo um castelo, que, imaginamos, com maior ingenuidade, fica no alto de uma colina, em caminho coleante, enquadrado num quadrinho pequeno pintado a aquarela. O azul da água no pincel ainda pinga, no céu e no castelo. E que coisa mais sonhável, vamos a esse castelo a dançar, a subir e a dançar, com fôlego de menino e pulmões de jovem e pulsões arretadas de amante, como afinal deve ser nos sonhos. De que nos vestimos? A julgar pela época da composição, deveríamos estar vestidos de arlequim, de pierrô, e, numa tradução mais particular, deste que escreve, vestido de palhaço com um coração na bunda, com castanholas a bater nas mãos, a repetir, com um nó na garganta, “tive um sonho que durou três dias...”. Balançamo-nos assim como grandes meninos, como meninos crescidos, retardados, ora em um pé, ora em outro, contentes do seu brinquedo que é estar vestido de palhaço com um coração no traseiro, em roupa branca de seda, sem sangue, sem rugas, porque tudo é futuro e felicidade, porque vamos ao castelo azul onde mora, onde mora ...

O mais estranho dessa estrofe é que o amor é um sentimento que não precisa da mulher amada. Prescinde, parece viver sozinho, no castelo azul lá no alto, aonde subimos cantando como grandes meninos retardados. Nossa cabeça é um pêndulo, ao som de castanholas. Antes na música se diz, no verso anterior, que “tu me conduzias” ao castelo, mas é um tu sem substância, um artifício de passagem, digno de um sonho, porque o bom não é mesmo tu, que me conduzes, o bom é lá em cima, onde mora o amor. Se lá mora essa coisa boa, quem és tu,a não ser a que me conduz? É um castelo dos castelos da infância, daqueles muito encantados, porque nos seus limites um feitiço gera um sentimento ótimo com a única condição de estar no seu domínio. O amor não reside em ti, o amor não vem da tua pessoa. O amor vem do castelo, lá é que é, e por isso vamos como meninos excepcionais, porque acreditamos nesse feitiço, nessa quimera de um lugar onde reside o amor. Daí que subimos a balançar nossos cabeções de palhaço, felizes, de coração na bunda e castanholas na mão, calças de seda sem vinco e folgadas, no inconsciente uma certeza de que a dor vai deixar de existir, atenção, menino grande, porque vamos a um lugar que não temos na terra, um lugar lá no alto onde mora o amor.

Por incrível que pareça, ainda não é isto que nos deixa encantados com a estrofe criada pelos Irmãos Valença. Onde eles se excedem mesmo, onde eles nos alcançam e persistem em nossa cabeça até que fiquemos loucos, até que procuremos por toda a cidade a sua composição, e voltemos para casa frustrados sem nada achar, o que nos mata de buscar na web a música, o que nos deixa com um ar de idiota, de apaixonado que perdeu até a vergonha na cara, é este “Tive um sonho que durou três dias”. Que construção, que achado – essa linha evoca tudo, essa linha constrói tudo, dá vontade de gritar, parem, por favor, seus irmãos malucos, deixem-nos numa rede de olhos fechados, sem mais nada, somente a nos repetir, tive um sonho que durou três dias, porque vemos e passam diante de nós os mascarados, os zorros, os índios, as mulheres odaliscas, as pernas, os seios que jamais alcançamos, que nos eram proibidos, por castigo, por moral cristã, por idade, porque afinal somos meninos, e menino, tu sabes, Valença, menino só tem direito de sonhar em ser um palhaço com um coração na bunda. Pelo menos enquanto não atinjam o castelo, aquele, azul, bem azul, lá no alto.




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