Revitalização do Carnaval de Rua do Rio de Janeiro |
 |
 |
 |
Publicado por marcio marques
em 30/04/2005 às 21h53
»Versão para impressão
| Artigo aborda aspectos do surgimento do carnaval de Rua do Rio de Janeiro, seu crescimento, declínio e recuperação nos últimos anos. |
A Revitalização do Carnaval de Rua do Rio de Janeiro
Sair do Rio no carnaval é bobagem. O carnaval de rua voltou, tem gente bonita, alegre, boa música e é de graça. Nos últimos anos, muita gente tem dito isso e quem fica na cidade maravilhosa nos dias de carnaval não se arrepende dessa decisão.
O carnaval de rua carioca, desde o final da década de noventa, vem reconquistando seu espaço e, possivelmente, existam hoje mais de trezentos blocos espalhados por toda cidade.
Existem blocos grandes, médios, pequenos, que tocam apenas o samba do ano da agremiação, os que tocam sambas de enredo de grandes escolas, outros que executam as tradicionais marchinhas de carnaval, blocos que desfilam, outros que concentram e não saem, uns com baterias próprias, outros com ritmistas das grandes escolas de samba e bandinhas animam muitos grupos de foliões, enfim, há variedade que garante inúmeras opções de folia popular.
Apesar da diversidade de formatos, existem pontos comuns à esmagadora maioria dos blocos cariocas. O mais significativo deles é que todos expressam um sentimento de vitória com a retomada do carnaval de rua do Rio de Janeiro, depois de seguidos anos de pouca atividade e muita resistência dos foliões que mantinham acesa a chama popular do carnaval carioca.
Ainda não existem muitos trabalhos acadêmicos acerca da revitalização do carnaval de rua no Rio de Janeiro, contudo surgem as primeiras opiniões sobre o tema e multiplicam-se as “teses de mesa de bar” que buscam explicar esse fenômeno. Estas linhas que escrevo são frutos de horas de observação em campo (ou seria na avenida?), ouvindo sambas, vendo camisas assinadas pelo Lan, Jaguar e artistas anônimos, conversando com os foliões e, principalmente, colocando o meu Bloco na Rua – O Remédio é o Samba – mais um filho desse processo de retomada que teve início com o Simpatia é Quase Amor, o Sovaco do Cristo e o Barbas, a partir da segunda metade da década de 80.
Analisar a ascensão do carnaval de rua no Rio de Janeiro, seu declínio e recuperação recente, é uma empreitada a ser melhor desenvolvida e que poderá revelar vários aspectos socais, políticos e culturais da história recente de nosso país. Não pretendo realizar tal missão através deste artigo, no entanto, vou levantar algumas questões que julgo relevantes e que podem estimular novos debates.
Apesar do sucesso dos grandes bailes de salão, o carnaval é principalmente uma festa ao ar livre. Segundo estudiosos, o carnaval tem sua origem nas festas agrárias egípcias, portanto é milenar o hábito de reunir-se sob o céu para cantar, dançar e extravasar em alegria.
No Brasil, o carnaval surge no século XVIII, introduzido pelos portugueses, das ilhas da Madeira dos Açores e do Cabo Verde. O Entrudo brasileiro ganhou as ruas, principalmente do Rio de Janeiro, e pode ser considerado o pai do nosso carnaval.
No entanto, o encontro do samba com o carnaval é um fato determinante no sucesso e popularidade dessa festa, nos moldes em que a realizamos até hoje. Na década de trinta, o Brasil vivia um clima de transformação política e cultural que teve início em 22, tanto com a revolta do Forte de Copacabana, quanto com a semana de arte moderna realizada em São Paulo.
Com a chegada de Vargas à presidência do país, a cultura nacional foi sendo conduzida a partir da decisão de se forjar uma identidade nacional livre de influências estrangeiras e que tinha como centro de produção e irradiação o Rio de Janeiro.
O samba, até então reprimido e marginalizado, passa a ser uma das bases culturais do país, contando inclusive com o apoio oficial. É nessa época, por exemplo, que surgem programas de rádios que levam o samba para todo país e que surgem Noel Rosa, Braguinha e a maioria das grandes escolas de samba do Rio com seus sambistas pioneiros e fantásticos.
Os blocos e depois as escolas de samba juntaram-se aos ranchos, corsos, bailes de fantasias, batalhas de confetes, banhos de mar à fantasia e desfiles de sociedades. Na capital federal dos anos 30, ricos e pobres brincavam livremente pelas ruas da cidade. Nascia então o carnaval carioca que conhecemos até hoje.
Os festejos reuniam foliões em todos os bairros, tendo como ponto de maior concentração o centro da cidade. Quem acompanha, atualmente, os desfiles do grupo especial das escolas de samba na Marquês de Sapucaí não imagina que as grandes escolas desfilavam gratuitamente na Praça Onze. Ou seja, o grande desfile também era uma festa eminentemente popular.
Essa onda impulsionada pelo samba, fez surgir novas escolas e, também, vários blocos. Na década de 60, surgem o Cacique de Ramos, o Bafo da Onça e outros tantos que reuniam milhares de cariocas fantasiados, ao som de sambas curtos e fáceis. Os blocos e bandas populares se multiplicavam e seguiam sempre a mesma receita – criatividade, irreverência e alegria.
Em aproximadamente trinta anos, essa agitação cultural reuniu todas as camadas sociais cariocas e a classe média passou a participar diretamente da produção dos desfiles, da organização de muitos blocos e muitos grandes artistas do samba, surgidos naquela época, eram de famílias deste seguimento social.
Para analisarmos a recuperação desse carnaval é preciso, também, compreender o seu enfraquecimento. O que afastou os foliões? O que isolou as escolas na Marquês de Sapucaí? Por que os Blocos foram minguando? O que aconteceu com os ranchos, as marchinhas, os bailes nos coretos e com o próprio samba nas décadas de 70 e 80?
Aparentemente, não existem opiniões consolidadas sobre esse tema. No entanto, eu arrisco algumas questões que podem ter contribuído para esse declínio.
A primeira delas é política mesmo. A ditadura fez recair sobre o país um clima de tristeza e obscurantismo. Reuniões de jovens e populares eram sempre mal vistas pela repressão e o Rio de Janeiro foi um dos locais de maior luta e resistência à ditadura.
O samba perdeu lugar para o rock e foi sumindo das programações de rádio e TV. Na década de oitenta, a discoteca e a black music invadiram redutos jovens, tanto nas favelas e morros, quanto nos “points” das zonas norte e sul. O Rock in Rio ocorreu no Rio de Janeiro em 85. As grandes equipes de som, que hoje tocam funk, na década de setenta, reuniam milhares de jovem, no Canecão e na periferia do Rio de Janeiro ao som do soul e da música eletrônica.
Podemos apontar também com fatores que influenciaram esse declínio, o crescimento desordenado da cidade, a transferência de comunidades carentes da zona sul para a zona oeste, a escalada da violência urbana, o aumento de automóveis e ônibus em ruas que antes eram praticamente residenciais e tantos outros fatos que caracterizam as grandes metrópoles dos nossos dias. Basta lembrarmos que o mesmo saudosismo em relação aos grandes carnavais de antigamente aplica-se também ao fim dos campos de futebol, das brincadeiras de crianças, das cadeiras nas calçadas e da gostosa vida em vizinhança dos bairros cariocas.
As escolas de samba, antes dirigidas por sambistas e gente da comunidade, passaram a ser administradas pelo jogo do bicho e, não raro, sofrem forte influência do tráfico de drogas. A estrutura do desfile foi padronizada e adequada aos interesses econômicos, alterando o tempo de desfile, “escondendo gente bamba” e afastando o povo das arquibancadas e da avenida, que são ocupadas, em maior parte, por turistas e gente que não sabe a diferença entre um tamborim e um surdo de marcação. Nossas passistas perderam lugar para o turista que compra a fantasia por telefone, não sabe cantar o enredo da escola e muito menos tem samba no pé.
As grandes gravadoras não abrem espaço para o samba. As emissoras de rádio não tocam nossos sambistas. Um ou outro artista ocupa o restrito espaço de mídia destinado ao gênero. No cinema, as chanchadas que apresentavam marchinhas e sambas nas décadas de cinquenta, deram lugar às produções norte-americanas que dominam a grade de exibições das nossas salas de cinema.
Nesse cenário, o samba, manifestação cultural legítima do nosso povo e que fora alçado à condição de fator de unidade nacional a partir da década de 30, certamente não teria como ficar imune aos anos de obscurantismo que o país viveu desde o golpe de 64 e, muito menos, aos efeitos nocivos que a onda globalizante produziu na “indústria cultural” brasileira mais recentemente.
Outros fatores também ajudaram a colocar o nosso carnaval em baixa. Um deles foi a inauguração da ponte Rio-Niterói, que facilitou o acesso da classe média à Região dos Lagos, transformando os Municípios de Saquarema, Araruama, Cabo Frio, Iguaba e Arraial do Cabo no destino preferido da classe média carioca nas férias e consequentemente no carnaval. Esse êxodo, mais recentemente, foi agravado com a febre do carnaval da Bahia.
Contudo, como diz o poeta Nelson Sargento – o samba agoniza mas não morre. Honrando a memória dos sambista pré-anos 30, que enfrentaram a polícia, resistiram e conseguiram seu espaço, as gerações seguintes encarregaram-se de trilhar um caminho de luta e resistência que iniciou a volta do nosso carnaval de rua.
Na reta final da luta pela redemocratização do país, principalmente com a Banda de Ipanema (que desde a sua fundação em 65 nunca deixou a peteca cair), os foliões foram se reunindo para brincar e também para fazer chacota do regime militar que sairia de cena logo em seguida, depois de mais de vinte anos de escuridão.
Foi, mais ou menos nessa época, que surgiram o Simpatia é Quase Amor, o Sovaco do Cristo, o Barbas e o Carmelitas, que reuniam foliões do Centro e da Zona Sul e são os precursores da revitalização do nosso carnaval de rua.
De 85 para cá, o esforço louvável dos diretores desses blocos foi dando resultado. Sem apoio oficial, contando com a adesão de vizinhos, amigos de trabalho e, principalmente, dos órfãos da folia de rua, ano após ano, os blocos foram crescendo. Ensaios lotados, escolhas de samba com os compositores das principais escolas do Rio, baterias de boa qualidade musical e a mesma irreverência de outrora nas ruas da cidade. Tudo isso em desfiles sem a exclusão das cordas de isolamento e sem a exigência de compra de fantasias e camisetas. Brinca quem quiser e quem aguentar a maratona dos inúmeros blocos, sempre regados à cerveja bem gelada e alta energia
Junto com a movimentação desses blocos, alguns fatores foram ajudando. O ressurgimento das Velhas Guardas, principalmente da Mangueira e da Portela. O surgimento de novas casas de samba na Lapa são alguns deles.
Novas tecnologias facilitaram a gravação de CDs independentes com boa qualidade, o que permitiu maior fôlego na resistência de sambistas novos e antigos à ditadura das grandes gravadoras. A própria internet permite a circulação de notícias do mundo do samba. Enfim, ainda estamos longe do ideal, mas podemos dizer que a situação melhorou bastante e os sambistas não estão mais praticamente condenados à morte se estiverem fora do circuito das grandes gravadores e da grande mídia.
Nos últimos anos, depois dos principais Blocos arrastarem multidões pelas ruas da Zona Sul e do Cordão da Bola Preta reunir milhares de pessoas na manhã de sábado de carnaval, vários novos blocos foram sendo fundados. São agremiações de todo tipo, formato e tamanho. Não há bairro do Rio de Janeiro que não tenha o seu bloco, várias categorias profissionais organizam seus desfiles e até mesmo os evangélicos perceberam essa onda e desfilam pelas ruas do Rio cantando louvores em ritmo de samba, ao som de grandes baterias e com alas com coreografias ensaiadas.
O Poder Público ainda engatinha no apoio aos Blocos, que recebem poucos recursos da administração municipal. Destaque deve ser dado aos Bailes populares que a Prefeitura vem realizando em vários pontos da cidade e que servem de boa opção de festa para a população. Infelizmente, este ano, esses bailes foram reduzidos a um terço, o que vai na contramão do que os foliões esperavam. Mesmo assim, a realização dessas festas em vários pontos da cidade ajudou a consolidar o carnaval de rua como fenômeno que evolve a cidade como um todo e não mais apenas como iniciativas isoladas.
O Governo estadual destina uma verba insuficiente para os Blocos que desfilam na Av. Rio Branco e mesmo assim, o Cacique de Ramos, o Bafo da Onça, Boêmios de Irajá e outros blocos animaram milhares de pessoas este ano.
Eu mesmo, estive nos desfiles do Cacique e fiquei feliz ao ver, na terça-feira, cerca de trinta mil pessoas cantando os sambas históricos do Bloco de Ramos que, em 2006, completa 45 anos e está próximo de reviver os seus grandes carnavais dos anos 70.
Com tudo isso, quem gosta de samba e das coisas do Brasil está feliz da vida com a volta do nosso carnaval de rua. Ver crianças e adolescentes cantando e sambando novamente com músicas de Braguinha, Lamartine Babo, Almirante, Ary Barroso, Cartola, Silas de Oliveira, Candeia, Bala, Noel Rosa, Beth Carvalho, Clara Nunes, Beto Sem Braço, Noca da Portela, Paulinho da Viola, Bezerra e Moreira da Silva, Jorge Aragão, Carlos Cachaça, Almir Guineto, Zeca Pagodinho, e tantos outros é algo que vem emocionando o povo do Rio de Janeiro.
Ver nossos Blocos, cordões e bandas colorindo nossas ruas arrastando multidões nas avenidas cariocas é perceber que o sangue da cultura popular corre novamente nas veias do nosso país. Encontrar nos bailes populares, pierrôs, colombinas, clóvis, piranhas, mascarados, grupos com fantasias iguais, odaliscas, índios, palhaços, homens e mulheres com as camisetas de seus blocos ou escolas de samba é reencontrarmos a alegria de nossa gente e nosso povo.
Com tudo isso, podemos dizer que o carnaval do Rio pede passagem mais uma vez, reuniu os bambas, sacudiu a poeira e deu a volta por cima, contra tudo e contra todos. Que os surdos não parem mais de marcar o ritmo deste retorno, que os tamborins e repeniques continuem a aquecer o coração das cabrochas e que as melodias de nossas marchinhas e sambas continuem a encantar a alma de toda gente carioca e brasileira.
Daqui até o carnaval, os sambistas cariocas continuarão se reunindo nas rodas de samba do Cacique de Ramos, da Velha Guarda da Portela, da Lapa, no Arco do Teles, nos ensaios do Salgueiro, da Vila Isabel, da Mocidade, Mangueira, da tri-campeã Beija-Flor, da Imperatriz, do Simpatia, do Sovaco, do Monobloco e do Escravos da Mauá. Enfim, onde houver uma cuíca e o sorriso da mulata, haverá gente empenhada na reconquista das ruas de nossa cidade para o nosso povo brincar e se divertir. Para completar a festa, só falta o desfile das grandes escolas voltar a ser popular novamente. Aí vai ficar difícil segurar: eu vou poder tomar um porre de felicidade, vou sacudir e zoar toda essa cidade e todo o Brasil ao som do nosso samba e do nosso carnaval.
Márcio Marques – Vice presidente do Bloco O REMÉDIO É O SAMBA
E aluno do oitavo período de Museologia da UNIRIO
Parte deste artigo foi publicado no Jornal A Classe Operária – março de 2005
<
Evocação de Nelson Ferreira
|
A MPB e as transformações urbanas: identidade nacional na obra de Noel Rosa
>
|