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Cartola, se as rosas falassem

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Cartola, se as rosas falassem
Publicado por Urariano Mota em 02/10/2004 às 14h32
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O que as rosas diriam sobre Cartola, se falassem. A lembrança e a beleza eterna do "fino compositor", cuja arte é uma vitória contra preconceitos e burrice.

Não estranhem por favor a língua, a linguagem e os termos das rosas que serão ouvidos a seguir. As rosas, por serem rosas, não são por isto somente formosura, pudor, perfume e delicadeza. Elas também se revoltam, porque

A gente burra, carregadinha de preconceitos, não poderia esperar que daquele negro, daquele trabalhador braçal, menos que pedreiro, pois não passava de um servente de obras, que daquele nariz couve-flor pudesse sair qualquer tipo de música. A gente burra, cheia de educação formal, jamais poderia esperar que daquele tipinho magro, sem diploma, pudessem sair, sequer em sonho, tais versos e tais músicas:

“Bate outra vez,
com esperanças o meu coração
pois já vai terminando o verão, enfim

Volto ao jardim
com a certeza que devo chorar
pois bem sei que não queres voltar
para mim

Queixo-me às rosas, que bobagem
as rosas não falam
simplesmente as rosas exalam
o perfume que roubam de ti

Devias vir
para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
por fim”

(Ouvir isto, na voz do compositor, em Cartola, discos Marcus Pereira – ouvir isto e ver o dia com os mesmos olhos é o mesmo que ser de ferro e pedra, não ter 54 anos, não ter conhecido As rosas pela primeira vez em 1976, ao lado do cine São Luiz, recebendo a brisa da tarde do Capibaribe, sem nenhuma certeza de que estaria vivo no outro dia, quem sabe, se continuaria a viver naquela mesma tarde. Ouvir isto e não sentir vontade de sair a correr pelas ruas, anunciando: “ouço Cartola, eu sou humano!”, ah, ouvir isto e não receber o cheiro do mar, o sal nos olhos, ah, é simplesmente não ter memória nem caráter nem identidade nenhuma.)

A gente que odiosamente se diz e se chama de “bem-nascida”, a gente que se nutriu de privilégios neste mundo tão desigual, e que de semelhante nutrição jamais possuiu, longinquamente sequer, uma iluminação de que o mundo se faz também de doentes, moribundos e rejeitados, e, pior, que acha o mundo assim realizado como uma terra muito justa e normal, pois o mundo, desde que é mundo, sempre foi assim, e não há razão portanto nenhuma em mudar, ah, essa “gente” deveria romper a carcaça animal para ver se nela penetrava

“Ainda é cedo, amor
mal começaste a conhecer a vida
já anuncias a hora de partida
sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Presta atenção, querida,
embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco a tua vida
em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor,
presta atenção, o mundo é um moinho
vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
vai reduzir as ilusões a pó

Presta atenção, querida,
de cada amor tu herdarás só o cinismo
quando notares estás à beira do abismo
abismo que cavaste com os teus pés”

(Em 1978, como em outros anos, houve um casal que se separava para quem esta canção foi como uma profecia. Ainda que, como indivíduos, tenham tido uma trajetória de sucesso, material, político, digno de notas nos jornais, ainda assim souberam afinal que todo o conseguido era um amontoado de troféus mortos. Para quê tanto empenho, se afinal a felicidade dos amantes não se completou? Vale mesmo a pena ganhar o mundo, lutar, vencer, se ganhar, ganhar, é perder, perder? Se até mesmo o que não se perde é inútil ao fim, vale mesmo a pena vencer o mundo? Então os amantes não possuíam essa perspectiva. Então havia um ser a um canto, a ouvir interminavelmente o vaticínio de Cartola. Que o mundo era um moinho, que o mundo reduziria tudo a pó, que mal começavam terminavam, que na alvorada de um sentimento havia o ocaso, que no amanhecer havia uma noite só e imensa. De repente, quando se pensava que o amor venceria tudo, uma solidão que era um exílio da identidade, uma solidão em que se continua a viver por inércia. Então compreendiam menos, então pensavam que a poesia era só a expressão de um sofrimento. Esta era a sua experiência. Como pedir aos cegos as tonalidades do azul? É preciso ter visto a luz para melhor sentir a sua ausência. Então não compreendiam que um músico, com a sua arte, tomava conta da alma da gente, e de tal maneira, que pensavam: “isto sou eu”. Este conselho, esta advertência à mulher que parte e deixa em cada esquina a própria vida, esse lamento do amante desprezado deixou de ser de Cartola, é de todo amante, no Recife, em Olinda, em São Paulo, em Roma, em Madri, em Hong Kong, em Marte, em qualquer galáxia onde houver humanidade:

“Presta atenção, querida,
embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco a tua vida
em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor,
presta atenção, o mundo é um moinho
vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
vai reduzir as ilusões a pó

Presta atenção, querida,
de cada amor tu herdarás só o cinismo
quando notares estás à beira do abismo
abismo que cavaste com os teus pés” )

Em 1977, um senhor de cabelos que se tingiam de cinza entrou sozinho no Teatro do Parque, no Recife. Dir-se-ia um eletricista, parecia um eletricista, porque era negro e possuía um ar de tranqüila e majestosa distinção, sem alarde. Um operário, na humildade e discrição. Camisa dupla face. Ele iria, deveria ir cuidar de algum fio solto, ou rever a iluminação do teatro, pensaram todos. Então os que esperavam na fila, notaram os seus grandes óculos escuros, o seu nariz, o seu rosto oval, de um Modigliani na África. Então perceberam que o eletricista era o operário de almas Angenor de Oliveira, o compositor amado e amigo de Noel Rosa, o homem a quem Nelson Sargento não ousava pedir parceria, por vergonha, diante do “compositor finíssimo”. Como, Cartola! Sem tapete vermelho, sem carro reluzente, sem guarda-costas, sem roupas de griffe que marcam a diferença de mercado nas almas. Sem trombetas, ele que teria todos os direitos de se anunciar. Então veio a lição, mais uma, insinuada pelo cidadão discreto, de cabeça baixa, a entrar no teatro: que a melhor arte esconde a sua arte, que o artista é a sua arte, que tudo mais é dispensável. Na ocasião, lembro, apenas duvidamos que aquele homem tivesse mesmo a poesia de um Cartola. A gente burra, carregadinha de preconceitos, não poderia esperar que naquele negro, naquele trabalhador braçal, batesse um coração que fosse o nosso.

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Re: Cartola, se as rosas falassem
por Gabriel Medeiros em 08/01/2007 às 16h30 #
Belíssimo!
A altura do grande poeta Cartola.
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Re: Cartola, se as rosas falassem
por Luana Lelia em 23/01/2007 às 13h46 #
" É preciso ter visto a luz para melhor sentir a sua ausência"...Ousarei dizer,
que conhecer a luz através da explicação emocionada de um amigo, terá seus creditos sem dúvida alguma.
Talvez uma descrição que possa oferecer sons, cheiros, calor e sentimento, ilumine o conhecimento daquele que não enxerga....
Talvez meu pensamento tenha ido longe , mas minha opinião é radical:
Tudo que Urariano pode fazer pelos insensíveis é despertá-los com suas palavras, acariciando-lhes o espírito.
Com respeito e admiração .

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Re: Cartola, se as rosas falassem
por WALTER JORGE DE FREITAS em 10/06/2007 às 20h07 #
E quem disse que as rosas não falam? Cartola. Logo Cartola,
poeta dos mais puros que a humanidade conheceu. Ele sabia que
as ROSAS falam. Mesmo sem emitir
sons ou pronunciar palavras, ELE,
como poeta, tinha o privilégio de
entender e ser entendido pelas
ROSAS. As rosas falam através da
linguagem dos poetas, pois só eles
têm esse dom. O grande poeta da Vila - NOEL - fez com Vadico, um
samba que diz: "NINGUÉM APRENDE
SAMBA NO COLÉGIO". O mesmo, acho,
pode ser dito em relação à poesia.
Os poetas já nascem FORMADOS E
DIPLOMADOS.
WALTER JORGE DE FREITAS
PESQUEIRA-PE.

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Re: Cartola, se as rosas falassem
por Reinaldo em 21/06/2007 às 11h15 #
Assisti ao documentário "Cartola" ontem (20/06/07).
Confesso que o filme ficou distante da majestade que o retratado representa, mas mais do isso foi perceber as leituras que o documentário possibilita, como a trajetória do negro na cultura e o cinismo do brasileiro em relação às questões raciais.
Demais, Uriano, parabéns pelo sopro poético em nossas almas com o seu texto.
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Re: Cartola, se as rosas falassem
por Urariano Mota em 23/06/2007 às 14h24 #
Meus amigos Walter e Reinaldo, perdoem a minha resposta com atraso. Desculpas primeiro a Walter, que postou há mais tempo. Segundo a Reinaldo. Para ambos digo: é uma grossura, uma burrice imensa, os escritores não se ocuparem da maior arte brasileira,a nossa MPB. Noel é nosso Pushkin. Cartola é nosso... quem? Cartola é nosso Cartola. Não vi o documentário, confesso, um pouco que por medo. Prefiro o compositor a qualquer recriação.
Mas sou Urariano, Reinaldo, é um nome esquisito, concordo, mas diferente de Uriano. Abraço.
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