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A São Paulo de Adoniran Barbosa: o retrato de uma época e de uma população sofrida

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A São Paulo de Adoniran Barbosa: o retrato de uma época e de uma população sofrida
Publicado por Wladimir Jansen Ferreira (Tristão) em 29/06/2004 às 10h54
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Quero através deste artigo, primeiramente resgatar a esquecida obra de um grande sambista paulistano chamado Adoniran Barbosa, além de fazer algumas reflexões sobre este caos urbano que é a cidade de São Paulo. Esta discussão é o tema do meu “trabalho de conclusão de curso” (TCC), na geografia da PUC-SP. Vou estar falando da formação da cidade de São Paulo partindo da obra de Adoniran Barbosa, pois suas letras de música possuem um significado e relação muito grande com os moradores e a cidade de São Paulo.

"Até a década de 60, São Paulo ainda existia, depois procurei mas não achei São Paulo. O Brás, cadê o Brás? E o Bexiga, cadê? Mandaram-me procurar a Sé. Não achei. Só vejo carros e cimento armado."
(Adoniran Barbosa)

Quero através deste artigo, primeiramente resgatar a esquecida obra de um grande sambista paulistano chamado Adoniran Barbosa, além de fazer algumas reflexões sobre este caos urbano que é a cidade de São Paulo. Esta discussão é o tema do meu “trabalho de conclusão de curso” (TCC), na geografia da PUC-SP. Vou estar falando da formação da cidade de São Paulo partindo da obra de Adoniran Barbosa, pois suas letras de música possuem um significado e relação muito grande com os moradores e a cidade de São Paulo.

A sua vida, assim como toda sua obra, é marcada pelo bom humor e a criatividade, começando pela escolha de seu “nome artístico”. Na realidade, Adoniran Barbosa não era o seu nome de batismo, mas João Rubinato. Ele achava que João Rubinato não era nome de cantor de samba, tinha de ser algo mais “abrasileirado”. Resolveu mudar. De um amigo pegou emprestado Adoniran e, em homenagem ao sambista Luiz Barbosa, adotou seu sobrenome. Naquele momento de meados do ano de 1933 nascia Adoniran Barbosa.

Adoniran Barbosa, filho de imigrantes italianos pobres, nasceu na cidade de Valinhos no ano de 1910, tendo passado muitas necessidades praticamente em toda sua infância. Teve de largar a escola para ajudar na renda familiar fazendo bicos ou trabalhos informais. Esse fato marcaria decisivamente a sua vida. Digo isto, pois Adoniran Barbosa era semi-alfabetizado, o que dificultou sua entrada no mercado de trabalho em São Paulo, cidade onde começou a morar no ano de 1932.

É muito comum para as famílias de periferia, acontecer este fenômeno dos filhos abandonarem os estudos escolares para ajudar na parca renda familiar. A (i)lógica da sociedade capitalista, onde poucos possuem muito e muitos possuem muito pouco, faz com que as pessoas se submetam a viver nos limites. Limite do desespero, limite da sobrevivência e limite de abandonar os estudos (conhecimento) para cair de cara no mundo, sem perspectiva de vida ou compreensão dos motivos que o levam a este estado.

Existem várias maneiras em que as massas lidam com esta situação de limite, através da violência, da subordinação às leis excludentes, da organização coletiva (partido ou movimento social), ou utilizando a arte. A arte é uma forma em que o artista representa o seu mundo, ou seja, ela pode ser entendida como uma expressão da realidade, pois o artista faz parte desta, sendo sujeito ativo.

Para a população pobre, o mercado de trabalho é o local onde será feita sua sobrevivência, diferentemente para os ricos, que a consideram como local de enriquecimento. Sendo assim, Adoniran Barbosa, teve muita dificuldade para entrar no mercado de trabalho paulistano, mas tinha desenvolvido algo que o consagraria: a arte. Apesar de ter passado por muito sofrimento na sua infância pobre, a convivência que teve nas “malocas”, possibilitaram-no além de uma musicalidade, um humor que era cômico e sarcástico.

Um outro aspecto marcante nesta fase de sua vida - que na realidade era uma habilidade cognitiva - foi a facilidade de descrever e interpretar a realidade. Mas esta descrição da realidade se apegava nos aspectos cômicos e sarcásticos que esta expressa. Estas descrições se materializavam, tanto em personagens humorísticos que interpretaria em quase toda sua vida artística, quanto pela concepção de letras de músicas (onde tinha a característica de “escrevê-las andando nas ruas”).

Portanto, o humor no rádio e depois na música foram os meios encontrados por Adoniran Barbosa, na difícil sobrevivência no urbano paulistano. Um aspecto marcante tanto nos seus personagens humorísticos do rádio (que fez muito sucesso nos anos 40 ao 60), como nas suas letras de música, foi o “humor reflexivo” que era trágico e melancólico. No entanto, esta melancolia não deixava de ser alegre e festiva. Podemos dizer que conseguiu extrair a tragédia que existe no âmago da comédia e a comédia que existe no âmago da tragédia.

O seu humor era “reflexivo”, pois ele fazia as pessoas pensarem sobre o seu cotidiano. Ele não admitia, mas indiretamente ou inconscientemente era um militante social, fazendo as massas refletirem sobre seu estado.

Quando interpretava os personagens humorísticos no rádio (onde os mais famosos eram os malandros Charutinho e Zé Cunversa), fazia questão de estropiar a grafia portuguesa, com intenção de aproximar ao máximo da realidade. Aliás, este pensamento foi muito utilizado por mestres da literatura e humor como Alcântara Machado, Juó Bananére e Mário de Andrade. Entretanto, ele não gostava de errar na grafia portuguesa de suas letras de música, pois se errasse não conseguiria vender para os intérpretes da época, mas mesmo assim pode se achar alguns erros gramaticais.

Somente nos anos 50, Adoniran Barbosa assume e reproduz intencionalmente os erros gramaticais nas letras de música. O maior fator para esta mudança, foi o convívio com o Grupo de samba “Demônios da Garoa”. Este grupo, no qual conhece durante o trabalho na Rádio Record, grava alguns sambas que ganham alguns concursos de música em São Paulo. No ano de 1954, os “Demônios da Garoa” cantam pela primeira vez a música “Saudosa Maloca” de uma maneira diferenciada, colocando erros gramaticais na letra, com intenção de reforçar o lado cômico do acontecimento da letra. Esta modificação, que inicialmente aborreceu Adoniran Barbosa, faz ganhar o festival musical e proporciona um tremendo sucesso da música em âmbito nacional.

A partir deste momento, Adoniran adota os erros gramaticais nas suas letras, deixando-as mais bonitas ainda. Começa até defender impudentemente os erros gramaticais nas letras de músicas, como pode ser visto a seguir:

“Eu sempre gostei de samba. Sou um sambista nato. Gosto de samba e pouco me importa se custaram a me aceitar assim. Implicavam com as minhas letras, com os nóis fumo, nóis vamu, nóis semu etc. etc... O que eu escrevo está lá direitinho no Bexiga. Lá é engraçado... o crioulo e o italiano falam igualzinho... o crioulo fala cantando...”. (Adoniran Barbosa).

Por este aspecto gramatical de suas letras, aconteceu uma polêmica interessante com o músico Vinícius de Moraes, pois este não achava correto “estropiar a língua portuguesa”, mas ele se rendeu a este aspecto e escreve a letra “Bom Dia Tristeza” para Adoniran musicá-la.

Dos anos 50 até 1982 (ano de sua morte), foi o período em que mais escreveu letras de música e de seu maior sucesso.

Na realização da pesquisa, partirei do pressuposto de que a cidade de São Paulo – expressão do sistema capitalista - produz modos de vida, que se expressa culturalmente em fenômenos como Adoniran Barbosa e suas letras de músicas. A intenção é partir geograficamente destes fenômenos, que são as letras de Adoniran Barbosa, para desvendar a cidade de São Paulo e o sistema capitalista.

O capitalismo determina sentidos ou uma geograficidade dos moradores da cidade de São Paulo, através das relações ideológico-culturais e das relações jurídico-políticas. Estas relações que são extremamente ideológicas, existem para condicionar a própria existência deste sistema capitalista. A versão de Trotsky sobre este assunto é mais do que verdadeiro: “Um regime político que se baseia apenas na coerção, não duraria uma semana. O cimento da ética é indispensável” (Trotsky, Leon. A nossa moral e a deles. in Moral e Revolução. pp 13)

Podemos enxergar estas relações nas letras de música de Adoniran Barbosa. O maior exemplo se dá quando Adoniran expressa as naturalizações e alienações da população, além da ação repressora do Estado Nacional ou da polícia.

No entanto, muitos críticos de sua obra dizem que esta seria em demasia “comodista e alienada”, pois mostra a população pobre aceitando a situação imposta pelo capitalismo. As reações dos personagens das músicas “Saudosa Maloca”, “Agüenta a Mão João” e “Despejo na Favela”, são os exemplos prediletos destas críticas infundadas.

Estes críticos não enxergam que esta subjugação que está expressa nas atitudes dos moradores pobres, são a expressão das relações ideológicas do sistema capitalista. Esta ideologia é a “ideologia da sobrevivência”. Para a população pobre é melhor “ficar quieto” (“guenta a mão João”) ou achar “que os home tão co’a razão”, do que correr o risco de ver o “sol quadrado na prisão” ou mesmo morrer.

Adoniran pode ser considerado como um cronista da realidade paulistana da mesma importância que muitos outros cronistas como Alcântara Machado, Juó Babanére, Afonso Schimidt e Mário de Andrade. Uma variedade de aspectos é retratada em suas letras de músicas. Eu fiz uma lista gigantesca destes aspectos descritos por Adoniran Barbosa, mas apontarei alguns, como, por exemplo: a prostituição, a identidade com o lugar, o vandalismo, os transportes, as enchentes, o despejo de moradias, a falta de luz elétrica, brincadeiras com os imigrantes ou descendentes de italianos, relações pai e filha, assim como de esposo e esposa.

Para finalizar, gostaria de afirmar a minha pretensão principal, onde a arte e mais especificamente a figura brilhante de Adoniran Barbosa, me permitirá compreender o sistema capitalista e a minha cidade de São Paulo.

Adoniran Barbosa se transforma em um cronista da realidade e esplendido músico, após deixar seus estudos e passar muitas necessidades. Será Adoniran um “anti-herói” por isso? Pelo contrário, ele, assim como toda a população pobre, são os verdadeiros heróis ao sobreviverem à barbárie e exclusão social que o sistema capitalista proporciona.

Quiçá um dia em que a arte seja produzida de uma maneira livre, não existindo “situações limites” e não sendo o motivo principal da existência de um homem... Mas chegará esse dia e tenho certeza que estarei junto neste “Trem das Onze” e certamente o “Arnesto” aparecerá nesta ocasião!

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Re: A São Paulo de Adoniran Barbosa: o retrato de uma época e de uma população sofrida
por Vicente de Paula Castro em 12/12/2004 às 15h28 #
Senhores, Gostaria muito de ouvir as gravações originais do programa do CHARUTINHO. Se existir esse material em algum site, por favor, avisem-me. Obrigado.
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Re: A São Paulo de Adoniran Barbosa: o retrato de uma época e de uma população sofrida
por Vicente de Paula Castro em 12/12/2004 às 15h29 #
Senhores,
Gostaria muito de ouvir as gravações originais do programa do CHARUTINHO.
Se existir esse material em algum site, por favor, avisem-me.
Obrigado.
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Re: A São Paulo de Adoniran Barbosa: o retrato de uma época e de uma população sofrida
por manoel flávio matias em 27/09/2005 às 13h01 #
Primeiramente gostaria de parabenizá-lo pelo brilhante artigo.
É, sem sombra de dúvida, um tema muito rico, Adoniran Barbosa mostra-se como um dos ícones do samba nacional, um artísta que deixou um legado social imensurável, abordando os temas dos menos favorecidos paulistanos e o que mais impressiona, a linguagem utilizada em suas canções é a linguagem do povão, personagem sempre presente e para quem o autor direciona sua criação.
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Re: A São Paulo de Adoniran Barbosa: o retrato de uma época e de uma população sofrida
por Eliana Cassia em 13/03/2010 às 14h41 #
Olá, sou professora de Literatura num colégio de São Paulo e este ano faremos uma feira cultural multidisciplinar usando Adoniran Barbosa como tema principal, e alguns dos companheiros de trabalho estão céticos quanto ao resultado, não acham que os alunos vão encontrar coerência ou ligação, o projeto visa ligar passado e presente desde a época em que Adoniran aqui estava e a evolução de São Paulo desde que partiu, em todos os setores: geografia (mudanças nos tipos de moradia, na física com a evolução nos transportes bonde/trem/metrô) e por aí vai, Adoniran seria nosso guia turístico através de seu olhar e de seuas músicas.
Ao ler o seu artigo nesta página, vi que você poderia contribuir muito para o projeto, e gostaria de saber se poderia marcar uma reunião para falar mais sobre Adoniran e a forma como conseguiu material já tão escasso, para que eu possa conduzir o projeto na escola.
Agradeço desde já,
Eliana
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