Aconselha Mestre Ariano
Suassuna que é preciso quebrar a sisudez com que, às
vezes, nos defrontamos ao tratar de certos assuntos, tirando de
dentro da gente o palhaço que nos habita em silêncio.
Piolin ou Carequinha foram sempre hábeis na arte de quebrar a
louça, provocando mais riso do que estardalhaço. Assim
como a surra que a Maria Clara, autora do Projeto Pixinguinha,
aplicou na danada da Laura que afanou aquela sua idéia –
e falo de Celebridade, folhetim do grande Gilberto Braga.
Vou aos jornais, fonte
segura: “Projeto Pixinguinha está de volta”,
“Presidente relança o Pixinguinha, dá autógrafos,
tira fotos e canta música”, “Projeto Pixinguinha
recomeça em setembro”, “Governo religa circulador
de música” etc.
E é o que mais
interessa: o Projeto Pixinguinha está de volta.
Mas duas imprecisões
me chamam a atenção: os números incorretos
divulgados pela imprensa e uma declaração desatenta do
Ministro Gil : “Aquele Governo (Geisel) achava que o projeto
não interessava, e que o Governo Lula entendeu que esse
projeto é estimulador e pedagógico”. O
presidente, por sua vez, arremata que o “nosso único
critério tem sido o interesse público. Se o Projeto é
bom, não importa quem teve a idéia, ou quem a começou
(...) mas o benefício que pode trazer para a população”.
Valeu, Presidente. É isso aí.
Quanto à
imprecisão, vamos à ela. Divulgaram: “Os
espetáculos (do projeto) percorreram as capitais e quase todas
as grandes cidades de norte a sul do País. Foram , ao todo,
224 shows, que reuniram mais de 336 cantores e músicos
solistas sem contar os acompanhantes”. Errado.
Infelizmente não
tenho em mãos toda a documentação do Projeto
que, como sempre esclareço, nada mais é do que uma
cópia servil do “Seis-e-Meia”, que o Albino
Pinheiro me chamou para estruturar artisticamente quando foi nomeado
Diretor do Teatro João Caetano. Por sua vez, ninguém
inventou a roda: em 1971 eu havia assistido, em Paris, a um recital
de meu querido Atahualpa Yupanqui no Theatre de La Ville, às
seis e meia da tarde. E já havia programação
também ao meio-dia – horário que, pontualmente,
marcava o início do nosso “O samba é minha
nobreza”, realizado há dois anos no Cine-Odeon-BR. Nada
de novo. Ou tudo de novo?
À sensibilidade de
Albino se deve o “Seis-e-Meia”. Vendo as filas de gente
serpenteando nos pontos de ônibus à saída do
expediente, por vezes debaixo de chuva, e tendo ocioso o horário
do fim de tarde no teatro, pensou em ocupá-lo com espetáculos
de música brasileira, oferecendo ingressos acessíveis
ao povo. Claro, foi um sucesso.
E tanto que o então
administrador dos teatros à época, divergindo do
projeto, tratou de expulsá-lo da grade de programação.
Caí fora, fiz um escândalo pelos jornais – e
tempos depois, com sua habilidade política de sempre, Albino
retornou com o “Seis-e-Meia”. Uma espécie de Banda
de Ipanema musical.
Mas aí – e
me desculpem a contextualização – vamos dar o tom
político da história. Um bando de companheiros (Aldir
Blanc, João Bosco, Sueli Costa e muitos outros) nossos havia
sido expulso de uma sociedade arrecadadora, simplesmente por exigir
uma mera prestação de contas. E isso serviu de estopim
para que Jards Macalé e Sérgio Ricardo (sempre atribuo
aos dois a idéia) pensassem na criação de uma
sociedade paralela, sem fins lucrativos – e nos incorporamos à
luta. Nasceu a Sombrás, em pleno regime ditatorial, e lá
em casa assinamos a ata de fundação da sociedade e
elegemos Tom Jobim como presidente, ficando eu como seu vice, e com
uma diretoria composta por Mauricio Tapajós, Gonzaguinha,
Aldir Blanc, Vitor Martins, Cláudio Guimarães,
Gutemberg Guarabyra e, sobretudo, Mauricio Tapajós. Daqui a
pouco falaremos sobre ele. Mas, dia seguinte à fundação,
Gil foi lá em casa me passar uma procuração para
levar as porradas que, a partir dali, seriam constantes. Acho que
Gil, Caetano e Chico foram eleitos conselheiros ou coisa que o valha.
O fogaréu que lambeu o Museu de Arte Moderna destruiu toda a
documentação da Sombrás.
Já desligado do
“Seis-e-Meia”, e na qualidade de vice e articulador da
área, peguei o programa artístico que fizera para
Albino e, com o título de Projeto Pixinguinha, o apresentamos
ao Ministério da Cultura, então dirigido pelo falecido
Nei Braga, que tinha como chefe de Gabinete o Carlos Alberto
Direito. A Fundação Nacional de Arte (Funarte) já
existia, tendo como diretor Roberto Parreira e como presidente –
quem era mesmo o presidente? não, ainda não era o
Ziraldo. Foi uma longa e penosa luta: o governo ensaiava sua
distensão política, lenta e gradual como a queria o
Golbery, mas tinha como ministro da Justiça o Armando Falcão
– aquele que exercia auto-censura e nunca tinha nada a
declarar, porque a Censura já se instalara com força
através do AI-5, em 1968 – e ele a cumpria com mãos
de ferro. Gil e Caetano já haviam sido presos e deportados,
Geraldo Vandré escapulira e Chico se auto-exilaria na Itália
– já que a pressão que sofrera foi das mais
sórdidas e cruéis que o Brasil parcialmente pode
conhecer. O Projeto, portanto, tinha esse cunho político:
partia de uma sociedade contestadora e nitidamente de esquerda, que
apresentava um projeto que não poderia sofrer qualquer tipo de
intromissão do poder público. Foi concedido um valor
ínfimo para que o ele fosse minimamente estruturado, e
partimos para um longo período de conversações
com teatros e instituições culturais que pudessem dar
apoio à idéia.
Daria um livro o relato
de algumas dessas conversas: uma delas, me faz lembrar os bons termos
que chegamos em uma universidade gaúcha que nos cedeu seu
amplo auditório para a estréia do projeto – desde
que não trouxéssemos aquela negralhada que
faz samba. Ora, ora Senhor Reitor, fique descansado. E o Projeto
estreou com João Bosco e... Clementina de Jesus. Lotações
esgotadas.
Vamos aos números,
e me baseio numa informação colhida na “Folha de
Londrina”, de 21/09/1979. Naquele ano, o Projeto Pixinguinha
realizou “1.468 espetáculos em 14 estados, com uma média
de público de 900 espectadores por apresentação”.
O jornal ainda faz referência às seis récitas da
“Traviata” montada por Zefirelli, com a qual a Funterj
teria dispendido Cr$ 18 bilhões, montante que possibilitaria o
Pixinguinha ter realizado 441 recitais – e isso mobilizando
elencos, hospedando e alimentando artistas e pagando cachês
decentes. O grande Aramis Millarch, em sua coluna “Tablóide”,
no jornal “O Estado do Paraná”, de 22/08/81,
relata que “em 5 anos de existência, o programa ocupou
palcos de 30 cidades durante 29 meses, apresentando para um público
de quase um milhão e meio de pessoas 291 intérpretes,
688 músicos, em 2.302 espetáculos que possibilitaram
também a contratação de 105 diretores
artísticos, 105 assistentes e 85 administradores. Preencheu
2.866 horas ociosas em teatros brasileiros e executou 2.682 músicas”.
Enfim : já era um projeto com contrapartidas sociais, mas
ainda sem essa denominação.
Estou certo de que os
dados agora fornecidos à imprensa devem ter tido como fonte a
vingativa Laura, que roubou de Maria Clara o Projeto. E, como informa
nosso Ancelmo Góis, em sua coluna de 10 de junho corrente, a
Funarte as homenageou pela divulgação do programa na
novela de nosso querido Gilberto Braga. Nela se anuncia a “Coletânea
Pixinguinha”, idéia também da Maria Clara,
segundo o novelista. Pela admiração que nutro por Malu
Mader, permito que fique com meus créditos de produtor do
“Agô, Pixinguinha!”, que suponho ser a tal
coletânea.
Quanto à
derrapagem do Gil, cabe informar o seguinte: talvez se o Projeto
tivesse sido apresentado em 1968, é mais do que provável
que fosse rejeitado pelo governo. Acontece que na era Geisel
vivíamos a tal suposta gradual distensão proposta por
um dos generais de plantão, Golbery. Historiemos: Chico
Buarque foi convidado pelo Nei Braga para um encontro na Rádio
Mec, e levou a mim e Sergio Ricardo como escudeiros-testemunhas para
ouvir a lenga-lenga que se resumia a um pedido do Ministro para que
Chico atenuasse suas críticas ao governo, que caminhava para a
tal distensão. Claro que foi rechaçado, e isso já
contei exaustivamente em meus livros. Como também contei nossa
ida, minha e de Sergio Ricardo, à presença do Ministro
Armando Falcão, para denunciar as ameaças que nós
da Sombras sofríamos com a luta pela moralização
do direito autoral.
Seria de uma imbecilidade
a toda prova achar que o governo não tinha a intenção
de cooptar a classe, ao acolher o Projeto Pixinguinha. Mas afirmo que
blindamos de tal forma o programa que nenhum ministro (a não
ser o General Rubem Ludwig) ousou, e sem sucesso, interferir na sua
execução. Lembro até de um jovem canalhocrata
que usou indevidamente o nome de Zé Aparecido para tentar
interferir no processo de escolha dos artistas, feita por um júri
de especialistas. Imagino que continue na vida pública,
mamando, na maciota, numa das tetas dessa grande vaca chamada
corrupção, que o novo governo vai aos poucos tentando
desmontar. Como deve também promover o desmonte, presumo, de
instituições culturais que nasceram à
sombra de governos anteriores.
O Presidente tem razão:
um projeto quando é bom, não importa quem o realizou, e
em qual governo nasceu. Mas seria prudente cercar-se melhor de
informações, para não escorregar na casca de
banana que o Gil lhe atirou, da mesma forma inconseqüente como
um dia nosso atual Ministro recusou o “Golfinho de Ouro”
que, em pleno estado ditatorial, o MIS lhe ofereceu como desagravo
pela sua expulsão do país. Ficamos, nós do
Conselho de Música, à mercê da ira do Estado, que
depois dissolveu aqueles Conselhos que agiam com independência
e coragem. Nosso combatente Ministro deu outra escorregadela
histórica ao afirmar que Jacob do Bandolim pertencia aos
quadros da polícia, quando todos sabem que foi escrivão
juramentado da Justiça, posto que alcançou por
concurso.
Quero deixar bem claro
que meu querido Antonio Grassi, de maneira nobre, me chamou à
Funarte, que hoje preside, manifestando o desejo de me homenagear,
através de meu repertório, como idealizador do Projeto
Pixinguinha. Agradeci e declinei da homenagem e sugeri que
transferisse para Mauricio Tapajós e Sidney Miller essas
exéquias em vida, já que os dois não habitam
essa parte do mundo onde continuo batalhando pelas mesmas causas dos
dois companheiros, através da implementação de
políticas que aquele Projeto adotou: abertura do mercado de
trabalho, formação de novas platéias, registro e
documentação através da memória
perpetuada em vídeos ou fitas de rolo, estímulo à
criação de novos recursos humanos na área da
produção musical – para que possamos reverenciar
artistas do porte de meu parceiro Cartola, cuja segunda morte,
decretada com a retirada de cartaz do espetáculo que o
homenageava, é um exemplo vivo de como Mauricio e Sidney
merecem não ser tratados, já que foram também
retirados da memória que tanto lutamos por preservar.
Herminio Bello de
Carvalho
Junho 2004