Agenda do Samba & Choro

Não foi bem assim: Projeto Pixinguinha

Google
Web samba-choro.com.br
 Página principal » Artigos e Debates » Não foi bem assim: Projeto Pixinguinha

Receba grátis nosso informativo:


35994 assinantes
Exemplo | Cancelar | Trocar email Notícias enviadas às terças e sextas.



Assine em um leitor de notícias RSS


Se você gosta de nosso trabalho, nos apóie se tornando um Amigo do Samba-Choro.

Não foi bem assim: Projeto Pixinguinha
Publicado por Hermínio Bello de Carvalho em 21/06/2004 às 10h58
»Versão para impressão
Aproveitando a reabertura do Projeto Pixinguinha, nada melhor do que saber mais a respeito através da pena de Hermínio Bello de Carvalho. O idealizador do projeto conta um pouco da sua história e aproveita para esclarecer algumas informações que foram relatadas de forma confusa quando de seu relançamento.

Aconselha Mestre Ariano Suassuna que é preciso quebrar a sisudez com que, às vezes, nos defrontamos ao tratar de certos assuntos, tirando de dentro da gente o palhaço que nos habita em silêncio. Piolin ou Carequinha foram sempre hábeis na arte de quebrar a louça, provocando mais riso do que estardalhaço. Assim como a surra que a Maria Clara, autora do Projeto Pixinguinha, aplicou na danada da Laura que afanou aquela sua idéia – e falo de Celebridade, folhetim do grande Gilberto Braga.

Vou aos jornais, fonte segura: “Projeto Pixinguinha está de volta”, “Presidente relança o Pixinguinha, dá autógrafos, tira fotos e canta música”, “Projeto Pixinguinha recomeça em setembro”, “Governo religa circulador de música” etc.

E é o que mais interessa: o Projeto Pixinguinha está de volta.

Mas duas imprecisões me chamam a atenção: os números incorretos divulgados pela imprensa e uma declaração desatenta do Ministro Gil : “Aquele Governo (Geisel) achava que o projeto não interessava, e que o Governo Lula entendeu que esse projeto é estimulador e pedagógico”. O presidente, por sua vez, arremata que o “nosso único critério tem sido o interesse público. Se o Projeto é bom, não importa quem teve a idéia, ou quem a começou (...) mas o benefício que pode trazer para a população”. Valeu, Presidente. É isso aí.

Quanto à imprecisão, vamos à ela. Divulgaram: “Os espetáculos (do projeto) percorreram as capitais e quase todas as grandes cidades de norte a sul do País. Foram , ao todo, 224 shows, que reuniram mais de 336 cantores e músicos solistas sem contar os acompanhantes”. Errado.

Infelizmente não tenho em mãos toda a documentação do Projeto que, como sempre esclareço, nada mais é do que uma cópia servil do “Seis-e-Meia”, que o Albino Pinheiro me chamou para estruturar artisticamente quando foi nomeado Diretor do Teatro João Caetano. Por sua vez, ninguém inventou a roda: em 1971 eu havia assistido, em Paris, a um recital de meu querido Atahualpa Yupanqui no Theatre de La Ville, às seis e meia da tarde. E já havia programação também ao meio-dia – horário que, pontualmente, marcava o início do nosso “O samba é minha nobreza”, realizado há dois anos no Cine-Odeon-BR. Nada de novo. Ou tudo de novo?

À sensibilidade de Albino se deve o “Seis-e-Meia”. Vendo as filas de gente serpenteando nos pontos de ônibus à saída do expediente, por vezes debaixo de chuva, e tendo ocioso o horário do fim de tarde no teatro, pensou em ocupá-lo com espetáculos de música brasileira, oferecendo ingressos acessíveis ao povo. Claro, foi um sucesso.

E tanto que o então administrador dos teatros à época, divergindo do projeto, tratou de expulsá-lo da grade de programação. Caí fora, fiz um escândalo pelos jornais – e tempos depois, com sua habilidade política de sempre, Albino retornou com o “Seis-e-Meia”. Uma espécie de Banda de Ipanema musical.

Mas aí – e me desculpem a contextualização – vamos dar o tom político da história. Um bando de companheiros (Aldir Blanc, João Bosco, Sueli Costa e muitos outros) nossos havia sido expulso de uma sociedade arrecadadora, simplesmente por exigir uma mera prestação de contas. E isso serviu de estopim para que Jards Macalé e Sérgio Ricardo (sempre atribuo aos dois a idéia) pensassem na criação de uma sociedade paralela, sem fins lucrativos – e nos incorporamos à luta. Nasceu a Sombrás, em pleno regime ditatorial, e lá em casa assinamos a ata de fundação da sociedade e elegemos Tom Jobim como presidente, ficando eu como seu vice, e com uma diretoria composta por Mauricio Tapajós, Gonzaguinha, Aldir Blanc, Vitor Martins, Cláudio Guimarães, Gutemberg Guarabyra e, sobretudo, Mauricio Tapajós. Daqui a pouco falaremos sobre ele. Mas, dia seguinte à fundação, Gil foi lá em casa me passar uma procuração para levar as porradas que, a partir dali, seriam constantes. Acho que Gil, Caetano e Chico foram eleitos conselheiros ou coisa que o valha. O fogaréu que lambeu o Museu de Arte Moderna destruiu toda a documentação da Sombrás.

Já desligado do “Seis-e-Meia”, e na qualidade de vice e articulador da área, peguei o programa artístico que fizera para Albino e, com o título de Projeto Pixinguinha, o apresentamos ao Ministério da Cultura, então dirigido pelo falecido Nei Braga, que tinha como chefe de Gabinete o Carlos Alberto Direito. A Fundação Nacional de Arte (Funarte) já existia, tendo como diretor Roberto Parreira e como presidente – quem era mesmo o presidente? não, ainda não era o Ziraldo. Foi uma longa e penosa luta: o governo ensaiava sua distensão política, lenta e gradual como a queria o Golbery, mas tinha como ministro da Justiça o Armando Falcão – aquele que exercia auto-censura e nunca tinha nada a declarar, porque a Censura já se instalara com força através do AI-5, em 1968 – e ele a cumpria com mãos de ferro. Gil e Caetano já haviam sido presos e deportados, Geraldo Vandré escapulira e Chico se auto-exilaria na Itália – já que a pressão que sofrera foi das mais sórdidas e cruéis que o Brasil parcialmente pode conhecer. O Projeto, portanto, tinha esse cunho político: partia de uma sociedade contestadora e nitidamente de esquerda, que apresentava um projeto que não poderia sofrer qualquer tipo de intromissão do poder público. Foi concedido um valor ínfimo para que o ele fosse minimamente estruturado, e partimos para um longo período de conversações com teatros e instituições culturais que pudessem dar apoio à idéia.

Daria um livro o relato de algumas dessas conversas: uma delas, me faz lembrar os bons termos que chegamos em uma universidade gaúcha que nos cedeu seu amplo auditório para a estréia do projeto – desde que não trouxéssemos aquela negralhada que faz samba. Ora, ora Senhor Reitor, fique descansado. E o Projeto estreou com João Bosco e... Clementina de Jesus. Lotações esgotadas.

Vamos aos números, e me baseio numa informação colhida na “Folha de Londrina”, de 21/09/1979. Naquele ano, o Projeto Pixinguinha realizou “1.468 espetáculos em 14 estados, com uma média de público de 900 espectadores por apresentação”. O jornal ainda faz referência às seis récitas da “Traviata” montada por Zefirelli, com a qual a Funterj teria dispendido Cr$ 18 bilhões, montante que possibilitaria o Pixinguinha ter realizado 441 recitais – e isso mobilizando elencos, hospedando e alimentando artistas e pagando cachês decentes. O grande Aramis Millarch, em sua coluna “Tablóide”, no jornal “O Estado do Paraná”, de 22/08/81, relata que “em 5 anos de existência, o programa ocupou palcos de 30 cidades durante 29 meses, apresentando para um público de quase um milhão e meio de pessoas 291 intérpretes, 688 músicos, em 2.302 espetáculos que possibilitaram também a contratação de 105 diretores artísticos, 105 assistentes e 85 administradores. Preencheu 2.866 horas ociosas em teatros brasileiros e executou 2.682 músicas”. Enfim : já era um projeto com contrapartidas sociais, mas ainda sem essa denominação.

Estou certo de que os dados agora fornecidos à imprensa devem ter tido como fonte a vingativa Laura, que roubou de Maria Clara o Projeto. E, como informa nosso Ancelmo Góis, em sua coluna de 10 de junho corrente, a Funarte as homenageou pela divulgação do programa na novela de nosso querido Gilberto Braga. Nela se anuncia a “Coletânea Pixinguinha”, idéia também da Maria Clara, segundo o novelista. Pela admiração que nutro por Malu Mader, permito que fique com meus créditos de produtor do “Agô, Pixinguinha!”, que suponho ser a tal coletânea.

Quanto à derrapagem do Gil, cabe informar o seguinte: talvez se o Projeto tivesse sido apresentado em 1968, é mais do que provável que fosse rejeitado pelo governo. Acontece que na era Geisel vivíamos a tal suposta gradual distensão proposta por um dos generais de plantão, Golbery. Historiemos: Chico Buarque foi convidado pelo Nei Braga para um encontro na Rádio Mec, e levou a mim e Sergio Ricardo como escudeiros-testemunhas para ouvir a lenga-lenga que se resumia a um pedido do Ministro para que Chico atenuasse suas críticas ao governo, que caminhava para a tal distensão. Claro que foi rechaçado, e isso já contei exaustivamente em meus livros. Como também contei nossa ida, minha e de Sergio Ricardo, à presença do Ministro Armando Falcão, para denunciar as ameaças que nós da Sombras sofríamos com a luta pela moralização do direito autoral.

Seria de uma imbecilidade a toda prova achar que o governo não tinha a intenção de cooptar a classe, ao acolher o Projeto Pixinguinha. Mas afirmo que blindamos de tal forma o programa que nenhum ministro (a não ser o General Rubem Ludwig) ousou, e sem sucesso, interferir na sua execução. Lembro até de um jovem canalhocrata que usou indevidamente o nome de Zé Aparecido para tentar interferir no processo de escolha dos artistas, feita por um júri de especialistas. Imagino que continue na vida pública, mamando, na maciota, numa das tetas dessa grande vaca chamada corrupção, que o novo governo vai aos poucos tentando desmontar. Como deve também promover o desmonte, presumo, de instituições culturais que nasceram à sombra de governos anteriores.

O Presidente tem razão: um projeto quando é bom, não importa quem o realizou, e em qual governo nasceu. Mas seria prudente cercar-se melhor de informações, para não escorregar na casca de banana que o Gil lhe atirou, da mesma forma inconseqüente como um dia nosso atual Ministro recusou o “Golfinho de Ouro” que, em pleno estado ditatorial, o MIS lhe ofereceu como desagravo pela sua expulsão do país. Ficamos, nós do Conselho de Música, à mercê da ira do Estado, que depois dissolveu aqueles Conselhos que agiam com independência e coragem. Nosso combatente Ministro deu outra escorregadela histórica ao afirmar que Jacob do Bandolim pertencia aos quadros da polícia, quando todos sabem que foi escrivão juramentado da Justiça, posto que alcançou por concurso.

Quero deixar bem claro que meu querido Antonio Grassi, de maneira nobre, me chamou à Funarte, que hoje preside, manifestando o desejo de me homenagear, através de meu repertório, como idealizador do Projeto Pixinguinha. Agradeci e declinei da homenagem e sugeri que transferisse para Mauricio Tapajós e Sidney Miller essas exéquias em vida, já que os dois não habitam essa parte do mundo onde continuo batalhando pelas mesmas causas dos dois companheiros, através da implementação de políticas que aquele Projeto adotou: abertura do mercado de trabalho, formação de novas platéias, registro e documentação através da memória perpetuada em vídeos ou fitas de rolo, estímulo à criação de novos recursos humanos na área da produção musical – para que possamos reverenciar artistas do porte de meu parceiro Cartola, cuja segunda morte, decretada com a retirada de cartaz do espetáculo que o homenageava, é um exemplo vivo de como Mauricio e Sidney merecem não ser tratados, já que foram também retirados da memória que tanto lutamos por preservar.

Herminio Bello de Carvalho

Junho 2004

A São Paulo de Adoniran Barbosa: o retrato de uma época e de uma população sofrida | O poeta da Vila  >

 

Comente esse artigo

Letras miúdas: Os direitos e responsabilidade dos comentários a seguir são de quem os postou.

Patamar de qualidade dos comentários:  Salvar
Re: Não foi bem assim: Projeto Pixinguinha
por Geny Rodrigues Valadão em 13/07/2004 às 08h44 #
Achei super bacana o artigo sobre o Projeto Pixinguinha. Oxalá conseguissemos idealizar e concretizar projetos de sociedades alternativas em que toda a "negada do samba" pudessem cantar, contestar e sonhar... Aguardamos com muita expectativa a reabertura deste projeto.

[Responda este comentário]

Re: Não foi bem assim: Projeto Pixinguinha
por joao em 04/08/2004 às 13h40 #
Muitos foram os projetos e ou sua participação e forca. Parabens!!!
O samba é minha nobreza foi e é algo de muito "nobre" pelas
musicas e os músicos. Falar isso é como chover no molhado
e o que gostaria de saber mesmo qual é o novo projeto, sem falar
no de sempre “aqueles programas da TVE" que também acho um
crime na historia do samba não estar disponível ao publico ou aqui no
boteco (Samba&Choro) em vídeo na internete.
Caro "Belo" de Carvalho, quando vai fazer sobre o "choro”, uma
questão de respeito, um dos seus projetos?
abs
joao
ps. assisti alguns na epoca da TVE

[Responda este comentário]

Não foi bem assim: Projeto Pixinguinha
por Madan em 09/06/2005 às 03h28 #
Parabéns Hermínio Bello de Carvalho, pelos esclarecimentos lúcidos, objetivos e de quem sabe, sobre o Projeto Pinxinguinha.

Achei muito esquisita e apressada a volta do projeto e no mínimo você teria que ser convidado para dar uma super assessoria especial.

Você declinar da homenagem e sugerir que transferisse para Mauricio Tapajós e Sidney Miller, foi de uma dignidade e exemplo de amor à música e a arte e não à glória.

Obrigado por tudo que você já fez pela Música Brasileira e com certeza ainda fará muito.

Grande abraço.

Madan - compositor, cantor e vocalista paulistano.


[Responda este comentário]

Re: Não foi bem assim: Projeto Pixinguinha
por maira alves em 07/04/2006 às 19h40 #
Na verdade, estou participando de um projeto sobre o bairro da Piedade e em uma fonte bibliográfica descobri q a família do pixinguinha viveu no bairro durante algms anos e que alguns mestres da música brasileira participavam de festas feitas pelo o pai do pixinguinha.Quero saber se o Projeto Pixinguinha já passou pelo bairro da Piedade e se é possível ter em mãos a trajetória das cidades percorridas pelo projeto. Desde já muito obrigada aguardo ansiosamente sua resposta.
[Responda este comentário]

Comente esse texto
(É preciso um rápido cadastro para participar)

Letras miúdas: Os direitos e responsabilidade dos comentários acima são de quem os postou.

Se você quiser escrever (ou moderar), clique aqui para se identificar.


Notícias | Casas com música | Artistas | Tribuna Livre | Artigos e debates | Fotos | Partituras | Compras | Amigos do Samba-Choro | Busca

Receba notícias sobre samba e choro por email:

Contato | Privacidade | Sobre este sítio
©Copyright 1996-2017
Samba & Choro Serviços Interativos LTDA
(Todos os direitos reservados).