Caro Valdir,
Você, como de hábito, capta o cerne da questão com muita sensibilidade. O que eu busco chamar a atenção justamente é para esta relação descomprometida do público com a arte do samba que vejo abundar nas atuais rodas, tanto lá como cá. Isso é, como acertadamente você afirma, produto de uma cultura consumista. Mas eu creio que o mundo do samba dispõe de mecanismos para contrapor-se a esse superficialismo, pois a história do samba é a história da rsistência da cultura popular, uma história única onde os tradicionalmente excluídos são os verdadeiros protagonistas. Tenho tido um retorno muito positivo com iniciativas simples como sempre mencionar o nome dos compositores, contar breves histórias relativas ao mundo do samba, usar instrumentos atualmente em desuso, exibir alguns vídeos nos intervalos etc. Claro que sempre haverá a parcela do público que se relaciona com o samba só como entretenimento, mas tenho-me impressionado com o interesse das pessoas em saber mais histórias, conhecer outros sambas, entender um pouco mais desse universo.
Infelizmente, porém, o que vemos em muitos casos é uma mercantilização pura e simples das rodas de samba, tratando o gênero como um produto musical a mais que está em boa fase de ser vendido. Intencionalmente ou não, reproduzem-se as mesmas estruturas tradicionais de dominação dentro de um espaço que poderia ser de resistência à colonização imposta pela lógica pura do capital. Isso é, além de um desserviço à cultura do samba, um tiro no próprio pé, pois não se está plantando hoje o potencial público consumidor de amanhã.
Abraço grande.
|