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Re: Formando público para o futuro

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Re: Formando público para o futuro
por valdir mengardo Escreva para Paulo Eduardo Neves em 13/04/2004 às 09h48 #
Caro Fernando,
Em primeiro lugar acho que o seu artigo levanta alguns pressupostos interessantes não só para o entendimento da formação de público do samba, mas para a apreensão, por parte do público,de outros bens culturais.
Sem entrar na pinimba Rio/São Paulo, creio que a chave da discussão está na sua afirmação " a expansão do consumo dos produtos musicais ligados ao universo do samba, por si só, nada garante relativamente ao histórico descaso e à marginalização marcadamente ideológica relativa ao gênero - comumente associado às classes baixas e à cultura negra (pejorativamente), quando não à malandragem e à marginalidade -, se não refletir uma efetiva formação de platéias aptas a compreender essa forma da arte musical popular do povo brasileiro como expressão maior de toda uma cultura, que traduz formas específicas de sociabilidade, comportamento, ética, visão de mundo etc."

Em primeiro lugar o que significa "público" numa sociedade como a nossa? Na minha opinião o público hoje é muito mais observador do que participante. Muito mais dançarino do que ouvinte. Numa roda de samba pouca gente presta atenção nas letras, melodias, preferindo "curtir" o som gostoso que é produzido pelos músicos.
Isso não é casual, mas está relacionado com a forma de divulgação cultural própria do capitalismo. Não se trata de divulgar, na maioria das vezes, bens culturais capazes de modificar os hábitos e a percepção do povo, mas sim de perpetuar produtos descartáveis capazes de cumprir objetivos mercantis imediatos.
É evidente que não é o caso das rodas ou dos shows aos quais você se refere, onde rolam música e músicos de qualidade, compromissados com a divulgação da música como um bem cultural. Mas a relação da maioria do público com estes repertórios é, até onde consigo enxergar, fluida, atemporal.(Em algumas rodas mais pagodeiras que frequento, costumam-se cantar músicas de Monarco, Ataulfo ou Noel, quase todas elas já gravadas por Zeca Pagodinho ou algum outro grupo mais exposto à mídia).
Enfim o que gostaria de falar é que uma mudança de hábitos no público atual só acontecerá de maneira parcial visto que a educação formal a que as pessoas têm acesso, o tipo de informação cultural a que estão expostos, são, via de regra, viciados.
Ainda assim, não deixo de ver com bons olhos esta expansão do "hábito" de ouvir samba. Creio que da quantidade floresça a qualidade.

Abraços,

Valdir
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  • Re: Formando público para o futuro
    por Fernando Szegeri em 13/04/2004 às 15h43 #
    Caro Valdir,

    Você, como de hábito, capta o cerne da questão com muita sensibilidade. O que eu busco chamar a atenção justamente é para esta relação descomprometida do público com a arte do samba que vejo abundar nas atuais rodas, tanto lá como cá. Isso é, como acertadamente você afirma, produto de uma cultura consumista. Mas eu creio que o mundo do samba dispõe de mecanismos para contrapor-se a esse superficialismo, pois a história do samba é a história da rsistência da cultura popular, uma história única onde os tradicionalmente excluídos são os verdadeiros protagonistas. Tenho tido um retorno muito positivo com iniciativas simples como sempre mencionar o nome dos compositores, contar breves histórias relativas ao mundo do samba, usar instrumentos atualmente em desuso, exibir alguns vídeos nos intervalos etc. Claro que sempre haverá a parcela do público que se relaciona com o samba só como entretenimento, mas tenho-me impressionado com o interesse das pessoas em saber mais histórias, conhecer outros sambas, entender um pouco mais desse universo.

    Infelizmente, porém, o que vemos em muitos casos é uma mercantilização pura e simples das rodas de samba, tratando o gênero como um produto musical a mais que está em boa fase de ser vendido. Intencionalmente ou não, reproduzem-se as mesmas estruturas tradicionais de dominação dentro de um espaço que poderia ser de resistência à colonização imposta pela lógica pura do capital. Isso é, além de um desserviço à cultura do samba, um tiro no próprio pé, pois não se está plantando hoje o potencial público consumidor de amanhã.

    Abraço grande.
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