VALEU A PENA
Maravilha de Cenário é também o artigo de Roberto Moura. Concordo em gênero, número e grau.
É realmente salutar a prática adotada esse ano, de repetir grandes sucessos do passado. Ao contrário do que se disse, não se trata de saudosismo. Ninguém nega que os sambas-enredo de antigamente eram muito melhores, e a sua reprodução vai estimular a nova geração de compositores a fazer obra melhor.
Não há dúvida que existem muitos jovens compositores de samba de valor, como os garotos que compuseram o belo e empolgante samba da Mangueira . No entanto, o registro se enquadra como exceção na nova geração, que em sua maioria acomoda-se à certeza que só os sambas-marchas com refrões de duplo sentido estariam aptos a contagiar, não ousando a fazer sambas inesquecíveis. Agora, esses novos talentos, bebendo na seiva dos mestres, podem mostrar o valor do novo compositor carioca.
O casamento com o enredo é uma exigência de um espetáculo que hoje também é visual. Mas isso, longe de impedir a criatividade e a beleza nos sambas, é elemento de desafiador estímulo à inspiração do compositor.
Vejam que o resultado já se mostra com o lindíssimo samba-enredo inédito da Beija-Flor.
Além do mais, deve-se observar que, diferentemente do que noticiou a grande imprensa, os sambas históricos ajudaram muito as escolas, mesmo considerando os inaceitáveis tecnicimos do critério de julgamento, que deixaram o Império Serrano longe das primeiras posições.
Convém lembrar que nenhuma das quatro escolas que reproduziram sambas antigos vinha disputando o título nos últimos anos. Muito ao contrário. Procuraram no passado uma solução mágica para o insucesso do presente. Os campioníssimos Império Serrano e Portela, depois de muitos anos, fizeram um desfile a altura de suas gloriosas tradições. Se não ganharam, tiveram colocação bem melhor que nos anos passados. Se o Império tem lutado para não cair para o Grupo de Acesso, esse ano ganhou o Estandarte de Ouro de Melhor Escola. Valeu Cigana Guerreira! É bem verdade que as duas escolas de Madureira foram muito injustiçadas pelos julgadores. Mais isso é do jogo. O importante é bilharam bem mais alto na Sapucaí este ano. A Tradição, que vem numa crise de identidade muito grande, já que as razões que levaram os portelenses históricos a abrirem dissidência já não os afasta mais do pavilhão de Oswaldo Cruz, superou tempos infelizes, como a apologia ao Silvio Santos, exemplo de ascensão social, mas que não chega a ser um grande enredo, e reviveu as grandes glórias da Portela. Embora tenha feito um desfile sem pretensões maiores, cumpriu bem o papel a que se propôs.
A Viradouro, que não vinha tão mal nos últimos anos como às outras três, fez um desfile digno de campeã, nada ficando a dever à Beija-Flor, indo para o Desfile das Campeãs.
Por isso, me parece cristalino que as escolas que repetiram sambas históricos foram muito beneficiadas pela sua escolha.
É alvissareira a notícia de que em 2005 a possibilidade se repetirá. Não se trata de simplesmente reproduzir o passado. Mas buscar o que havia de melhor em todos os tempos, provocando uma ruptura crítica no presente, a fim de propiciar um futuro de resgate do brilho do samba-enredo do Rio de Janeiro. Quem sabe aí teremos vários sambas-enredo inéditos e antológicos.
Quem viver verá...
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