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O Carpinteiro Paulinho da Viola e o Preto Velho da Esmeralda

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O Carpinteiro Paulinho da Viola e o Preto Velho da Esmeralda
Publicado por Hermínio Bello de Carvalho em 08/10/2003 às 23h40
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Hermínio escreve sobre a o acervo de Aramis Millarch, um dos mais importantes pesquisadores e defensores da música brasileira. Aproveita o tema para falar da Escola Portátil de Música, do Instituto Jacob do Bandolim e relembrar o passado.

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O pesquisador e jornalista Aramis Millarch
O pesquisador e jornalista Aramis Millarch
À bela cena do nosso Paulinho da Viola na carpintaria montada em sua garagem (falo do documentário sobre o compositor), faltou uma informação que repasso agora: a engenhoca, com todos seus apetrechos, foi presente do jornalista Aramis Millarch, que era filho de marceneiro. Despachado o presente de Curitiba para o Rio, Aramis andava desolado com o silêncio de Paulinho, que sequer acusara o recebimento do precioso equipamento. E um dia chega a foto: meu parceiro lindamente enfatiotado num macacão e avental, ele operário orgulhoso, posando diante da majestosa peça.

Paulinho vocês conhecem, Aramis, talvez não. Foi um jornalista alucinadamente apaixonado pela música popular, e que fazia de sua casa uma espécie de sala de visitas de Curitiba – cidade da qual era reconhecidamente o melhor anfitrião. Um dia inventou a Associação de Pesquisadores da MPB, e veio bater à minha casa para me convidar a integrá-la, e recebeu uma inesperada recusa (“Não sou pesquisador”, ponderei ), que durante algum tempo o deixou amargurado. Não sabíamos que aquele encontro selaria uma belíssima amizade, agora reavivada com a notícia que me manda o Chico, seu filho: depois de bater em todas as portas durante esses onze anos da ausência de Aramis, e farto de promessas jamais cumpridas, entregou os pontos. Nosso sonhado Multiespaço Aramis Millarch, que abrigaria a fabulosa biblioteca, a discoteca com 32 mil volumes, 2.500 trilhas sonoras – além de 5 mil fitas com depoimentos históricos que honrariam qualquer Museu da Imagem e do Som – não há mais como manter aquele acervo.

Durante sua agitada vida de animador cultural, portador da mesma grave lesão cardíaca que também vitimou nosso querido Maurício Tapajós, Aramis acumulou aqueles bens, renunciando a um outro tipo de riqueza que não o seduzia. Qualidade de vida, para ele, era viver cercado de amigos e de música. À beira do teclado de sua Remington, ele escreveu perto de 40 mil artigos que, parte deles, Chico colocou no saite que mantém em memória do pai, e nos autorizou disponibilizar seu e-mail : millarch@millarch.org . Vale consultar

Nunca vou me esquecer da cena insólita: depois de um périplo por livrarias, museus e casas de discos, e sob um inverno parisiense que nos gelava a alma, ei-lo sobraçando não sei quantos volumes de livros de arte e discos de toda espécie, e cometendo a heresia de atrasar-se por quase três horas para um almoço que especialmente lhe prepara Oscar Cáceres, que abominava impontualidade.

Era esse Aramis transbordante, operário da cultura em tempo integral, sonhador renitente, utopista por convicção, amigo de tirar a camisa e sair na porrada por amigo – que tanto poderia ser um Paulo Leminski ou Maysa ou Elis como um amigo feito há cinco minutos num bar. Porque o seu time tinha uma escalação profusa de celebridades e também desconhecidos – a quem banqueteava com a mesma esfuziante alegria.

Se Aramis conheceu tão bem Paulinho da Viola e praticamente todos os grandes nomes da música popular que visitavam seu estúdio e lá ficavam horas se deliciando com a melhor música e o melhor uisque, servido à farta sempre sob o olhar cúmplice de Marilene, devo esclarecer que uma das dores do grande jornalista era não ter conhecido pessoalmente o Preto Velho da Esmeralda, ídolo de Paulinho da Viola e Jacob do Bandolim, patrono do Instituto que inspirou a Escola Portátil de Música.

Sonho igual tivera um dia: o Conservatório Pixinguinha de Música Popular, labareda que ele permanentemente atiçava em sua coluna no Estado do Paraná, culminando com um espetacular rompimento com Jaime Lerner, seu afilhado de casamento, que ao inaugurar o Instituto consagrado em ata no velho restaurante Guilhobel, alguns anos diante de meia Camerata Carioca (a sugestão partira de Joel Nascimento), retirara o nome do velho Chorão – um golpe mortal no coração de Aramis. Fui dissuadido (sejamos francos: proibido) a aceitar o convite para a inauguração. Claro,obedeci.

E o Preto Velho da Esmeralda? Ele foi encontrado num lixão de São Paulo pela ex-menina de rua, agora dedicada a trabalhos sociais. Visitada pela Editora da Revista Educação, Carol Costa, Esmeralda repete o generoso gesto de Aramis, quando presenteou Paulinho com a Oficina de Carpintaria que fora de seu pai. Que levasse o Preto Velho, que Carol intuíra já tê-lo visto em algum lugar que agora não lembrava onde, mas que localizo agora.

Meu irmãozinho Helton Altman resolvera fechar de vez as portas do segundo bar-doce-lar dedicado a Pixinguinha (o primeiro fora o ”Gargalhada”), e que era um misto do Lamas, do Cosmopolita e do Nova Capela em São Paulo: o “Vou vivendo”, do qual eu fora padrinho. Elifas Andreato, inspirado na antológica foto que Walter Firmo fizera de Pixinga numa cadeira de balanço, com o saxofone ao colo, fez uma réplica do Santo em resina, e colocou-o repousando numa meia-lua de Neon – e que se destacava, soberbo e flutuante, na faixada do bar. A despedida melancólica no fechamenmto do bar ganhou, sob eflúvios alcoólicos de altíssimo teor, uma inesperada celebração: todas as toalhas das mesas (um mar de estrelas brancas sob um fundo azul) viraram turbantes com que adornei a cabeça dos celebrantes, e Pixinguinha foi retirado de seu altar e carregado em procissão para destino até há pouco ignorado, quase sete anos passados da grande esbórnia. Ressurge como Preto Velho da Esmeralda, é resgatado por Carol que o leva para casa e nos chama como testemunhas de sua descoberta. Aos estudiosos, a letra que fiz para o “Vou vivendo” retrata aquele bar.

O que é que uma história tem a ver com a outra? É que o legado de Pixinguinha (sua musicoteca, pelo menos ) foi adquirida pelo Instituto Moreira Salles, que a digitalizará e a disponibilizará para o grande público. Há uma respeitável conexão carioca que une a Acari Records à Gravadora Biscoito Fino, cria do Instituto Sarapuhy. A Acari é uma filial amorosa do selo Lambrequim, criado por Aramis. Se o Conservatório de Música Popular vingou em Curitiba, mesmo abdicando de homenagear seu inspirador, uma testemunha ocuilar daquela promessa lavrada no restaurante Guilhobel, Maurício Carrilho, transferiu para a Lapa um antigo sonho: o de fazer um mini conservatório em forma de oficinas de choro. Elas foram inicialmente apadrinhadas pela Funarte, e depois pela UFRJ. Um grande fuzuê, via Internet, se instalou quando descobrimos o agravamento do estado de saúde do acervo de Jacob do Bandolim, que estava se esfacelando nas prateleiras do Museu da Imagem e do Som, malgrado os esforços para não levá-lo à UTI – onde hoje se encontra, em estado de semi-recuperação – mas ainda carente de recursos.

Desse fuzuê internáutico nasceu o Instituto Jacob do Bandolim, que logo criou a Escola Portátil de Música – que me faz lembrar as Oficinas que Toninho Horta instalou num memorável Seminário em Ouro Preto, e que motivou a criação do Projeto Radamés Gnattali (“Dê uma canja”) durante minha gestão na Funarte.

A conexão Acari-Biscoito Fino inspirou a criação do www.JacobDoBandolim.com.br e a gravação do Cd duplo “Ao Jacob, seus bandolins”, e ao Maurício se juntaram outros Mestres-Oficineiros, e o SESC entendeu a importância do Projeto, e lá está ele no bairro de Ramos, onde nasci e onde morou Pixinguinha – eixo quase central dessa escrivinhação meio confessional.

O e-mail de Chico Millarch me devolve à figura de Aramis, sonhador como todos nós, e que não merece ver seu fabuloso arquivo pulverizado.

Portanto, me dirijo ao Presidente do SESC e ao Dionino C. Colaneri (Diretor regional da entidade no RJ, que apoiou a Escola) à Kati Almeida Braga (Instituto Sarapuhi), Milu Vilella (Presidente da Fundação cultural Itaú), ao Sergio Campos Melo da Br e aos irmãos Moreira Salles, do Instituto que tem seu sobrenome : façam uma parceria, e não deixe que se pulverize essa coleção,que seria tão útil aos 474 meninos que se inscreveram na Escola Portátil de Música inaugurada em Ramos, número que se multiplicará infinitamente – sobretudo quando a Beth Carmona, Presidente da TvE, nos permitir resgatar as imagens de Radamés Gnattali, Canhoto da Paraiba, Rafael Rabello, dos Carioquinhas com Tia Amélia, de tanta gente cuja imagem está se desfazendo nos arquivos da TVE. Numa soma de esforços, poderiam adquirir esse acervo, (e outros, como o de Ary Vasconcelos, ontem falecido), preservando-o tal como o sonhamos: um centro de referência para aqueles que sonharam os mesmos sonhos do grande jornalista, que os centrou numa Associação de Pesquisadores que teima em não viver, e que há dois anos a Amar-Sombrás ajudou a soerguer em linha com o Museu da Imagem e do Som, agora dirigido pelo Maestro Edino Krieger.

Um exemplar único de uma fita que nunca tenha sido reproduzida, (seja ela um vídeo ou um K7) é exemplar irrecuperável, quando fisicamente se decompõe. Lembro das cinco horas do depoimento de Olga Praguer Coelho para Aramis, e aí me perguntarão – como perguntaram há pouco sobre Elis Regina: “Quem é? quem foi?”.

Fizemos um questionário entre os alunos da Escola Portátil, listando 20 títulos que utopicamente deveriam ser matéria curricular de suas vidas de estudantes de música. A quantidade avassaladora de “nãos” atordoou o grande bandolinista Hamilton de Hollanda. E aí acusam os jovens de alienados, sem discutirem os fatores alienantes. E os podres-poderes ficam cinicamente abismados quando um “Samba é minha nobreza” ou o “Jongo da Serrinha” lotam um teatro com jovens – esses mesmos jovens, 474 aspirantes a oficinandos que já citei. Mas... e a matéria curricular, onde eles irão ver e ouvir? Nas rádios comprometidas com jabás? Como adquirir títulos que jamais foram reeditados, ou se o foram, ganharam preços extorsivos? Ou se estão burocraticamente mofando nos arquivos oficiais?

Para que se tenha noção da importância do acervo de Aramis, conto-lhes o que beira o absurdo: a maioria das gravadoras nacionais (e também multinacionais) não preservaram exemplares dos discos que produziram. Hoje recorrem a colecionadores particulares os discos que vinham fragmentadamente editando, porque em seus arquivos não restaram um único fotolito, um único exemplar daquilo que foi (e continua sendo) a fonte de suas riquezas. O acervo de Aramis poderia ser o ponto de partida para esse cadastramento, que já se fez com os discos de 78” – e que hoje nos permite localizar intérpretes e autores de fonogramas gravados entre 1902/1964.

Dentro de alguns dias, o pessoal da Biscoito Fino, em linha com as ações culturais da Acari Records, vai lançar na praça o cd duplo “Ao Jacob, seus bandolins” num espaço vocacionado para a música: o Teatro Clara Nunes.

Seria um belo presente para o Rio de Janeiro que aquela coleção fosse abençoada pelo Preto Velho da Esmeralda, escultura que o Paulinho da Viola, com sua arte marceneira, poderia até construir um pedestal de maneira nobre para acolher o Santo Padroeiro da nossa música. Mogno, Ipê, Jacarandá ou mesmo de uma árvore rara chamada Aramis Millarch.

Marilene e seu filho Chico Millarch estão cansados de encontros com Prefeitos e Governadores que, com tapinhas nas costas e promessas as mais descaradas, prometeram melhor destino para aquele acervo, que esperamos não encontrar num lixão qualquer, tal como se encontrou o Preto Velho da Esmeralda.


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Re: O Carpinteiro Paulinho da Viola e o Preto Velho da Esmeralda
por Christiane Mariano em 11/10/2003 às 17h22 #
Hermínio, mais uma vez PARABÉNS por nos conceder essa aula. Eu sei da necessidade e do seu objetivo expresso de documentar, de formar platéias, ao qual sou solidária. Sou cantora, paulistana e coloco-me inteiramente à disposição para constituir uma rede de informações.
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Re: O Carpinteiro Paulinho da Viola e o Preto Velho da Esmeralda
por Lourival Augusto em 18/10/2003 às 21h34 #
Esse desabafo do grande agitador cultural, o nosso queridíssimo Hermínio Bello de Carvalho, é muito mais do que justo e oportuno. O que fazem com a nossa memória musical é um crime que não deveria merecer nenhuma forma de perdão. É muito triste sabermos que a nossa juventude atual e futura estão alijadas de beber na fonte da nossa grandiosidade musical e artística que herdamos de nomes como Pixingunha, Noel, Ataulfo, Batatinha, Aracy de Almeida e tantos outros artistas da maior qualidade que hoje estão mais do que "mortos" (pois vivem numa segunda morte - a do esquecimento cínico e cruel, não da parte do povo, e sim dos poderosos ditadores da "cultura"). Parece que vivemos num momento em que não sabemos para que lado iremos seguir, a perplexidade é geral. A atual "cultura" musical é de total agressão ao que nos resta de sensibilidade e necessidade de alimentarmos o nosso espírito com o que é bom, o que é belo. Infelizmente aqueles que deveriam cuidar dessa matéria estão mais preocupados com o deslumbramento do poder, com as suas possíveis e, inevitáveis, falcratuas. O pessimismo cultural que nos atinge é da forma mais cruel possível. Que falta nos fazem esses grandes construtores da nossa memória musical. Enquanto o nosso ministro faz o seu show particular na ONU, os acêrvos de dedicados amantes da nossa cultura (tarefa que deveria ser de responsabilidade do poder público) são entregues às traças aos ratos.
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Re: O Carpinteiro Paulinho da Viola e o Preto Velho da Esmeralda
por carolina em 18/01/2004 às 10h06 #
Hermínio,

Não dá mesmo para recriminar a falta de informação de muitos jovens, pois, eu mesma estou penando para ter acesso a certos materiais, principalemnte arquivos sonoros. O acesso a esse tipo de informação é restrito, depender das rádios nem pensar... Sou estudante de jornalismo e adoro música, dentro das minhas possibilidades farei o possível apara ajudar na preservação da nossa rica história da música.
A gente chega lá!

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Re: O Carpinteiro Paulinho da Viola e o Preto Velho da Esmeralda
por nuno_camacho@hotmail.com em 29/01/2006 às 09h59 #
olha isto nao ta oque eu queria afinal que inventou a viola

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Re: O Carpinteiro Paulinho da Viola e o Preto Velho da Esmeralda
por nuno_camacho@hotmail.com em 29/01/2006 às 09h59 #
olha isto nao ta oque eu queria afinal que inventou a viola

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Re: O Carpinteiro Paulinho da Viola e o Preto Velho da Esmeralda
por nuno_camacho@hotmail.com em 29/01/2006 às 09h59 #
olha isto nao ta oque eu queria afinal que inventou a viola

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