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Itiberê, Cartola e outros tempos

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Itiberê, Cartola e outros tempos
Publicado por Nei Lopes em 25/06/2003 às 00h28
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Nei Lopes conta a visita do folclorista e escritor Basílio Itiberê ao morro de Mangueira em 1935, onde foi recebido pelos músicos e pastoras.

Nascido em 1896, em Curitiba, PR, numa família de músicos, Brasílio Ferreira da Cunha Luz, folclorista e escritor conhecido como “Brasílio Itiberê”, era sobrinho do compositor Brasílio Itiberê da Cunha, cujo nome civil adotou como nome artístico, e do crítico musical João Itiberê da Cunha.

Embora formado em engenharia, engajou-se na efervescência cultural dos anos 20, fundando, no Rio, a revista modernista Festa. Amigo de Ernesto Nazareth e Pixinguinha e incentivado por Villa-Lobos, acabou por abandonar a engenharia para dedicar-se inteiramente à música, sendo, então, professor da recém criada cadeira de folclore do Instituto de Artes da antiga Universidade do Distrito Federal e do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico.

Numa noite de 1935, Itiberê visitou o Morro de Mangueira. E, como era da praxe, foi recebido, ele e seus acompanhantes, na ponte sobre a via férrea, por um grupo de músicos e pastoras da Estação Primeira – a principal escola local, pois, nesse tempo, ainda era viva a Unidos de Mangueira.

Feitos os cumprimentos e apresentações, a comitiva subiu o morro em cortejo. E, como era habitual, naquela época de “embaixadas” e visitas de cortesia, ao som do coro e da bateria e tendo à frente o baliza e a porta-estandarte – todos habilmente comandados pelo apito Júlio Dias Moreira, legendário mestre de harmonia.

As antigas escolas de samba tinham mestres, como nas corporações medievais. De canto, para comandar o coral de pastoras; de sala, para coordenar a dança; e de harmonia (que na Estação Primeira era Seu Júlio), para organizar e liderar todo o conjunto. E tinham baliza, ao invés de mestre-sala; e porta-estandarte, no lugar da porta-bandeira.

Profundamente impressionado por essa visita a um dos pioneiros redutos do samba carioca, Itiberê fez, sobre ela um relato minucioso. Que vai desde a recepção à despedida, já alta madrugada.

Na sede do Mangueira – começou ele, no masculino, talvez ainda referenciado pela lembrança dos velhos cordões (...) experimentei a estranha sensação de um homem que emergiu do abismo. (...) E agora a escola inicia, para deliciar os homens da planície , a execução do seu primeiro samba. A bateria começa outra vez, como um sussurro. Quatro ou cinco instrumentos de corda, violões e cavaquinhos, e um pandeiro, preludiam lentamente, numa ambientação sugestiva para fornecer ao coro uma referência tonal”.

Itiberê notou que no coro da escola somente cantavam as vozes das mulheres e das crianças. Que as vozes masculinas só intervinham nos solos, em geral improvisados e estruturalmente estranhos à melodia coral, como no partido-alto de hoje. E que, entretanto, todas as vezes que o coro retomava a melodia principal, tudo se encaixava à perfeição.

“Sentindo a importância da parte coral – teorizava o pesquisador – eles começam por tirar esse trecho do samba, a que denominam primeira parte. Essa melodia é logo cantada para as mulheres e crianças; conforme a reação do coro, conforme o interesse e o agrado despertados, o samba é aceito e entra logo em circulação”.

Mas de repente, o professor Itiberê se apercebia , também, da percussão fascinante e hipnótica.

“A variedade de timbres, a cerrada contextura orgânica e a complexidade da polifonia rítmica desses conjuntos – escrevia ele, mais tarde, sem economizar nos proparoxítonos – não são absolutamente ocasionais: resultam de um trabalho consciente e isolado de cada um dos componentes, executando, no momento, desenhos rítmicos variados, mas que se completam e fundem maravilhosamente, formando um conjunto de absoluta coesão”.

Verifico, então – concluía o erudito – a impossibilidade de grafar sobre o pentagrama, em seu conjunto, a infinita variedade dessa polirritmia. E imagino como se fora um corte transversal nesse corpo vivo, fixar um instantâneo sonoro que me desse a imagem real de um segundo de vida daquela massa percussiva”.

Nessa noite de festa, Brasílio Itiberê ouviu Tragédia, um samba de Cartola e se encantou. Mas só expressou esse encantamento na segunda versão de seu relato (a primeira foi publicada em jornal, em 1949; e a segunda saiu em livro, em 1970), quando o genial autor de As Rosas não Falam já era um nome inapelavelmente consagrado.

Prestai bem atenção que este é um samba do Cartola! Não ouvireis tão cedo um canto assim tão puro, nem linha melódica tão larga e ondulante. Atentai como é bela, e como oscila e bóia, sem pousar, entre a marcação dos ‘surdos’ e a trama cerrada dos tamborins” – desmanchou-se Itiberê.


Sessenta e oito anos depois, o relato do professor curitibano soa como mitologia. Imagine o leitor uma comitiva musical de uma escola de samba carioca indo buscar a ilustre visita “lá fora” para, docemente, subir o morro com ela... cantando... dançando! E imagine um terreiro, de chão batido mas enfeitado de guirlandas e bandeirinhas e um coro de crianças cantando um samba de Cartola! Pois é...O pior é que isso já foi realidade!

N.A. – O relato de Brasílio Itiberê, em suas duas versões, pode ser lido em “Mangueira, Montmartre e outras favelas”, Rio, Livraria São José, 1970; e em “Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro – Edição fac-similar do jornal dirigido por Abdias do Nascimento (nºs 1 a 10, 1948/1950), São Paulo, Editora 34, 2003.


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Re: Itiberê, Cartola e outros tempos
por batucadadebamba@hotmail.com em 03/07/2003 às 21h55 #
Graças a pessoas como você que podemos desfrutar dessa pureza e de tamanha beleza que consiste essa valiosa riqueza, riqeza que está presente nas coisas simples que trazem consigo a maior das emoções... a emoção de sentir pulsar nas veias a força de nossas raízes!

Mais uma vez quero agradecer em nome de todos por nos permitir compartilhar dessas valiosas e sábias palavras que construiram e constroem a nossa realidade.
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Re: Itiberê, Cartola e outros tempos
por Roberto Gnattali em 10/10/2003 às 13h33 #
Prezado Nei

Não tenho muitas palavras para comentar o seu artigo pois as melhores você as usou no texto.
Só queria lhe dizer que gostei e aprendi muito, como sempre acontece quando leio as suas coisas. Apesar do quanto devia ser difícil a vida naquela época, sinto uma inveja danada daquela felicidade.
Valeu.
Grandíssimo abraço
Roberto
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Re: Itiberê, Cartola e outros tempos
por Flávia Kairalla em 24/05/2005 às 20h42 #
Na verdade não é um comentário é um pedido. Estou cursando Históia e minha monografia é sobre Cartola. Será que você pode me ajudar com algum material ou alguma dica de onde procuar.

Obrigada.
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