Meu prezado Ismar, conforme prometi o seu disco foi postado ontem. Disseram-me que levaria aproximadamente quatro dias úteis pra chegar. Eu fiquei muito feliz em saber que a mãe do Noca está viva e escutará a homenagem que lhe prestou o famoso músico Duda da Passira, de Pernambuco. Passira é uma pequenina cidade do agreste pernambucano e hoje a cidade está muito conhecida porque o seu filho mais conhecido é um grande músico de sanfona, ligado ao forró e ao choro, sendo também um arranjador muito procurado. Eu aproveitei a oportunidade da remessa do disco e mandei umas palavras em papel dedicadas aos familiares de Noca. Fica aqui o registro já que não tenho acesso ao Orkut por achar coisa de gente jovem:
Noca do Acordeon, o grande sanfoneiro do povo
Quando no início da década de sessenta do século passado eu escutei Noca do Acordeon tocando um choro, pela primeira vez, eu disse comigo mesmo: eita cabra desmantelado pra tocar! Esse linguajar de matuto do interior de Pernambuco significa um grande elogio. Depois, com o passar dos anos e sempre ouvindo Noca tocando como ninguém, choros, baiões, sambas e boleros, mais espiritualizado, eu já dizia o seguinte: abençoado seja o ventre que te guardou por nove meses até te trazer ao mundo! Escutando Noca eu viajava muito e nessas minhas “viagens” eu me sentia num planeta mais humano e fraterno, talvez até porque o Noca fosse um homem muito agradecido a Deus, tanto que fez o belo choro “Os Dedos que Deus me Deu”. Tinha mesmo que agradecer, afinal, o Pai não deu outros dedos iguais em talento a qualquer outra pessoa. Hoje com 58 anos, ainda viajo ao som de Vai não Vai, Dançando com Você, Perigoso, Teimoso, Evolução, Baião da Saudade, Samba em Prelúdio, Noca no Choro, Brasileirinho e Naquela Mesa, apesar de que também “naquela mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em nós”, como disse o poeta Sérgio Bittencourt sobre o seu pai, Jacob do Bandolim. Obrigado Pai por Noca do Acordeon ter existido, pois ele é único, inigualável e inimitável. E acredito que só muitas preces junto ao Pai poderão recuperar a fraca memória musical do povo brasileiro, que hoje em dia, com raras exceções, não fala mais em Noca. Que esse Santo Guerreiro que foi o Noca nos ajude a vencer os dragões da maldade que são as emissoras de rádio FM, as estações de TV, as grandes gravadoras, a quase totalidade da mídia impressa e até certos sítios da Internet que se dizem defensores da verdadeira música popular. Procuro o Dicionário de MPB de Ricardo Cravo Albim e cadê o nome de Noca? Por favor, senhores, procurem ser mais honestos com o povo brasileiro. Noca foi um grande solista de acordeon e também inspiradíssimo compositor de choros, sambas e baiões. Ninguém pode apagar o brilho de uma estrela! Aos familiares de Noca, todo o carinho deste modesto pesquisador da cultura popular brasileira.
Abílio Neto
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