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O povo também quer o que não sabe
por guilherme magalhães Escreva para Paulo Eduardo Neves em 26/11/2002 às 14h54 #
Acho que há uma preocupação desnecessária com essa proteção anticópias. Estão preocupados com o quê? O novo disco do Paralamas, o tal tribalistas, Natiruts? Vamos gastar energia com aquelas obras que já estão mofando nos arquivos das majors e que nunca terão a oportunidade de saber se terão a tal proteção ou não.

Ficar reclamando da incapacidade de preservar os discos originais adquiridos pela impossibilidade de copiá-los é procurar sarna prá coçar. Alguém aí tem dúvida de que é possível conseguir qualquer um dos discos protegidos por cópias em programas como Kazaa, mirc ou soulseek, ou mesmo camelôs? Não, não é mesmo, então, por que o alarde?

Algums estão indignados pelo fato de agora estarem sendo desrespeitados pelas gravadoras. Deixa eu contar uma coisa para certas pessoas que parecem desconhecer o fato pois há vários níveis de relação com música e com o seu mercado. Não está em discussão se há um melhor ou pior.

Há o consumidor de supermercado, compra por anúncio e oferta os sempre queridinhos da mídia, o novo da Marisa Monte, o Tchan, Zezé de Camargo e Luciano, o disco do Caetano que teve campanha publicitária, coletânea do Tom Jobim, a essência de Elis Regina, o melhor de Zeca pagodinho, Sandy Junior, Charlie Brown jr., Beck, Adriana Calcanhoto, Cássia Eller, etc. Esse são os que mais se prejudicam com as anticópias e mais se beneficiam da pirataria corriqueira.

Há os que se interessam e procuram saber o que pode ter nos supermercados, não apenas nos folhetins, esses já compram os relançamentos de jorge ben, o disco do caetano que não teve campanha publicitária, comprava Adriana calcanhoto antes de ficar famosa, Cássia Eller antes de fazer música de novela etc.

E há os que se importam com a história e sabem que há mais música nesse mundo que a imaginação possa numerar e muito mais ainda que a melhor loja perto de você possa suportar. Esses estão fudidos há muito tempo, tendo que sujar dedos em sebos e gastar sapato rodando um a um para ver se encontra discos de Pixinguinha (coletâneas não, por favor), Markú Ribas, Wilson simonal, gravações antigas de Nara Leão. Gente que não se contenta em conhecer música cubana pelas gravações atuais de Buena Vista Social club ou coisas afim, mas sabem que nada substitui discos comos os de Celia Cruz, Willie Colón, La sonora Matancera. Pessoas que querem falar de jazz não porque gostam, mas porque tiveram a oportunidade de conhecer gravações antológicas de Miles Davis, Thelonious Monk, Louis Armstrong, Duke Ellington, Jimmy Smith, Sydney Bechet e companhia e que fizeram uma das maiores forças músicais do século. Gente que se interessa em saber quem são os precursores, os definidores e desvirtuadores do choro, do funk, da salsa, do son, do new wave punk, do hard bop, do modal jazz, do tango, da música clássica, etc. Essas últimas pessoas só existem pelos sebos e pela pirataria. Você sabe o que é escutar um cd pirata gravado de vinil porque essa é a única maneira de conseguí-lo? E ter que pagar quase o preço de um cd original e achar isso bom?

Há muito tempo que as gravadoras não respeitam o ouvinte de música. Se alguém esperava que as gravadores tivessem outra postura na era digital estavam equivocados.

A campanha é válida, mas antes de preocupar com os novos discos com proteção devemos mesmo é ter consciência que nossa história musical está encarcerada em arquivos-mortos das majors e algo deve ser feito antes que algum incêndio mande para o espaço a prova física de que temos uma história longa, abrangente, consistente e maravilhosa relacionada a música, porque a sua lembrança apenas sobrevivi em alguns poucos arquivos pessoais.
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