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Re: Boicote os discos com proteção anticópia

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Re: Boicote os discos com proteção anticópia
por Themis Leal Escreva para Paulo Eduardo Neves em 17/11/2002 às 09h00 #
Amigo compositor Pedro Moraes e demais amigos,


Volto a posicionar-me, mesmo que isto se torne um pouco cansativo. Para tentar ser breve devo ir direto ao ponto: não se pode desvincular a questão dos Cds “anticópias” da existência de pirataria. Ora, por mais que se enumere milhares de outros fins que tais Cds possam ter, a luta contra a pirataria é, sim, um dos seus maiores objetivos. E até hoje não foi descoberto meio mais eficaz para se evitar isso.

Alguns outros pontos foram relacionados, como o de não ser a pirataria causadora de uma atual “pobreza” cultural existente em nossa música( ver na página da notícia sobre o tema). Estou mesmo inteiramente de acordo com uma das idéias: a mídia tem um papel importante na divulgação dessa “não-cultura”. Mas daí a dizer que tal pirataria, ao “usurpar” a “remuneração” dos músicos, não é também responsável pela decadência dessa profissão, é demais! Ora, seria utópico pensar que uma pessoa com um grande potencial, determinada a se desenvolver e lançar-se no mundo artístico, e que para tanto precisa investir tempo e dinheiro, não pense e não se influêncie com esse ponto. Nenhum profissional capaz deixará de pensar que o seu trabalho, tão suado (porque para ser bom é preciso isso) nunca terá o reconhecimento merecido e lhes permitirá gozar o que lhe é de direito. Isso faz, sim, com que muitos bons músicos optem por outra profissão, pois o que se busca com o trabalho não é uma “sobrevida”, mas uma vida razoável e digna, e que não traga frustração. Quem não pensa assim é porque não acredita no seu merecimento.

Por fim, resta responder uma pergunta: estes Cds “anticópias” beneficiam as gravadoras? Sim, obviamente. Ora, esta é exatamente uma das finalidades delas: o lucro. Se assim não fosse, elas nem sequer existiriam. Até eu penso nisto (e acredito que vocês, como pessoas normais, também pensem). Como já falei, isto é realidade, e não um mundo de ilusões e maravilhas. Estamos em um país capitalista, e todos aqui têm interesses pessoais e buscam condições de manter seus sonhos, geralmente dependentes de dinheiro. O fato de elas (as gravadoras) objetivarem o ganho não transforma o certo em errado e o errado em certo. Além disso, elas têm direito de lucrar!

Pois bem, acredito não ter agradado muitos (a maioria, com posso notar) neste sítio., além de não ter exaurido o assunto. Mas é desta idéia que estou convicta. A pirataria vai acabar com a nossa boa música brasileira, e acabará com toda a segurança jurídica que o direito autoral tentou e ainda luta por nos garantir. Como não há outro meio melhor de a evitar, os Cds “anticópias” são, para mim, a luz no fim do túnel, pelo menos por hoje.

Abraços,
Themis.
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  • Re: Boicote os discos com proteção anticópia
    por Luis Alberto Garcia Cipriano em 17/11/2002 às 10h54 #

    Amiga Themis e todos os compositores,

    Quem acabou com a Vida Cultural Inteligente foi a Indústria "Cultural" ao longo do Século XX. A concepção de direito autoral implementada como proteção à cópia no campo literário e artístico é novidade, nasceu ao fim do séc XIX, e foi deturpado grosseiramente a favor dos parasitas intermediários ao longo do século passado. Por exemplo, de início o tempo de esgotamento do monopólio exclusivo concedido ao criador (para garantir renumeração e incentivar a novidade) era de 20 anos (ou menos, não estou certo). Hoje esse tempo é de 75 e 95 se o "criador" for uma empresa! Absurdo. Tem um texto interessante sobre a história do "copyright" aqui (embora não concorde com a forma como ele aborda e define a prática do "copyleft"):

    http://midiaindependente.org/front.php3?article_id=29908

    O que vivemos hoje é um momento de transição, os dinossauros que monopolizaram os meios de comunicação unidirecional de massa do século passado estão em franca extinção, como bem comenta Lawrence Lessig, especialista em Direito e nas questões da liberdade de cópia, nesta entrevista:

    http://www.cipsga.org.br/article.php?sid=3291

    Temos hoje, com a Internet e o uso disseminado de meios digitais de cópia e transmissão, a possibilidade de instaurar um novo modelo, relação direta Artista-Público, matar enfim o mito do artista romântico gênio criador e os intermediários desnecessários.

    Enfim, um novo Renascimento. E nisso, o samba e o choro brasileiros, preservados em uma ecologia à parte e em relações sociais tão naturais e belas (quem já esteve numa roda de choro legítima sabe do que estou falando), sem dúvida terão papel crucial como fonte de inovação para o mundo.

    Essa é a luz no fim do túnel que vejo :-)

    Abraços,

    Luis Alberto.


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  • CDs originais, só se for por 12 reais!
    por gustavo eiji kaneto em 17/11/2002 às 11h50 #
    Olá a todos!

    A discussão está quente. Antes de mais nada, uma introdução: até hoje, copiei apenas um CD: um disco do Karnak fora de catálogo. No entanto, já copiei várias músicas, criando coletâneas para amigos em fitas e CDs (sim, porque as fitas de antigamente não são muito diferentes dos CDs). E fiz isso sem peso na consciência porque isso é divulgação da música brasileira. Além disso, tenho em média 10 CDs meus emprestados para amigos, para os quais sempre instruo: se gostar, compre, porque esse artista merece.

    PRIMEIRO PONTO
    Daí surge um problema: comprar. Por quanto se compra um CD hoje? Dez, 15, 20, 30 reais? Mas quem pode pagar por isso? PLIM! Surge a pirataria. Não a boa e velha cópia e divulgação, mas o tráfico. Sim, pirataria é crime e, nos níveis atuais, muito bem organizado (comprar CD pirata não é muito diferente de comprar maconha).

    Acho que é claro para todos que se trata de um círculo vicioso: as gravadoras aumentam os preços, porque os discos são pirateados, daí a venda 'oficial' diminui, e as gravadoras aumentam os preços... Como todo círculo vicioso, existem várias pontos para quebrá-lo. Mas analise a situação: quem está realmente em condições de quebrá-lo diretamente? Quem está com o cú atolado de dinheiro? Ouvi alguém dizer 'gravadoras'? BINGO!

    SEGUNDO PONTO
    Mas sendo um círculo, podemos também concluir que TODOS os envolvidos tem certa culpa (e todos tem como contribuir para a quebra do vício). E qual é a nossa parte? Incentivar a produção de grupos puramente comerciais, ouvindo suas músicas, é o nosso papel mais importante. Nesse ponto, não importa se você compra CD pirata ou não. Basta ouvir para contribuir para a disseminação da cultura-lixo.
    (É óbvio que cada um tem o seu gosto musical. Mas estamos falando de música. Música não é só cultura. Música tem que ser arte. E arte é muito mais do que a maioria das coisas que se ouve por aí atualmente.)

    TERCEIRO PONTO
    O artista é o terceiro envolvido nesse círculo. Mas como? Exemplo prático: eu não tenho nenhum CD do Arnaldo Antunes, porque ele insiste em manter contrato com uma grande gravadora, vendendo seus CDs a 25 reais!! Minha contribuição a ele se restringe à minha presença em seus shows (nos SESCs; aliás, salve SESC!).

    CONCLUINDO
    Somos três os envolvidos: consumidores, artistas e gravadoras. O que podemos fazer para reverter a situação? É aqui que surge o que acredito ser minha contribuição para essa discussão. Sugiro um BOICOTE ÀS "GRANDES GRAVADORAS"!! O preço de um disco depende, basicamente da gravadora, do selo e da distribuidora. Quanto você está disposto a pagar? Eu pago geralmente 12 reais por CD (no máximo 15, quando estou na fissura). Não comprando NADA mais caro que isso, forçamos uma queda nos preços. E de quebra ainda podemos persuadir nossos artistas preferidos a gravar com gravadoras mais bacanas (no instrumental brasileiro, temos, por exemplo, o Núcleo Contemporâneo, a Kuarup e a Acari).

    Então é isso: CDs originais, só se for por 12 reais!
    (o resto é imitação...)
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    • Re: CDs originais, só se for por 12 reais!
      por rafael em 20/11/2002 às 17h33 #
      "Surge a pirataria. Não a boa e velha cópia e divulgação, mas o tráfico. Sim, pirataria é crime e, nos níveis atuais, muito bem organizado (comprar CD pirata não é muito diferente de comprar maconha)"

      Disso eu tenho que discordar. Essa "máfia" "tráfico" é uma ilusão criada pelas gravadoras p/ dizer que o problema é grave e chamar a atenção de todos. A maior parte dos Cds de camelôs é feita num esquema fundo-dequintal. o equipamento custa em torno de 5 mil reais e a distribuiçào é localizada. Se fossem grandes centrais a polícia federal pegaria fácil.
      Os camelôs são ainda mais amadores. em geral são ambulantes desempregados que não lucram mais do que 500 reais por mês. Sei disso pq meu irmão é camelô. O processo é fruto do desemprego enorme do país, que obrigou a todos a aderir à informalidade (se virar).
      É bom que seja assim? não é. mas a solução passa pela criaçào de empregos e pelo barateamento dos Cds (ninguém prefere pagar 5 reais por um CD que pode estar estragado a comprar o CD original a 10 reais, com garantia)

      e só mais uma: músico não vive da venda de CDs, vive de shows. CD barato e música popularizada só significa um maior pedido de shows p/ o músico.
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  • Re: Boicote os discos com proteção anticópia
    por Rodrigo em 18/11/2002 às 16h30 #
    Cara Themis e demais participantes,

    discordo de que esta seja a luz no fim do túnel. O modelo de artista-intermediário-consumidor não tem mais razão de existir, com a tecnologia que se faz disponível hoje.

    Acho que a luz no fim do túnel para os artistas não é se submeterem às gravadoras capitalistas, que ditam as direções, produzem música enlatada e não repassam o lucro para os artistas.

    A pirataria está presente porque os discos são caros. Ponto. Como já disseram, como alguém que ganha dois salários mínimos vai comprar um CD que custa 20 ou 30 reais? Por outro lado, os artistas não conseguem sobreviver com sua música. Ou seja: todos estão prejudicados, os consumidores e os produtores do objeto cultural. Porque? As gravadoras são um distorção do sistema como um todo, e estão fazendo tudo para evitar que estes dois extremos da cadeia de produção, percebam e possam mudar isso.

    Os artistas têm hoje o meio para disseminar sua música, através da Internet. Sim, a música seria muitas vezes copiada sem que fosse pago nada a eles, mas é necessária uma mudança de cultura: se as pessoas tivessem que pagar 50 centavos por música que baixassem diretamente do artista, ou ainda, se houver um sistema através do qual seja fácil de se transferir pagamento para os artitas, tenho certeza que estas pessoas, como você, que vêm como interessante e justo remunerar os artistas, o fariam. Além disso, a popularização da música e os show continuariam a funcionar da mesma forma.

    Sou completamente contra este e qualquer outro mecanismo que venha a tirar a liberdade dos consumidores. O próximo passo é cobrar por cada vez que você ouvir a sua música, travando o seu CD player até que você pagasse mais.

    A necessidade é de uma mudança na forma de distribuição de música, que não tem razão de seguir este modelo em que as gravadoras controlam o que é gravado e ficam com todo o dinheiro.

    Espero ter-me feito claro.
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