Este texto é um adendo ao Depoimento de Herminio Bello de Carvalho Transcrição do Discurso de Inauguração do Museu da Imagem e do Som, proferido pelo então governador do Estado da Guanabara, Sr. Carlos Lacerda

Local: Museu da Imagem e do Som (MIS)
Data: 03/09/65
Fonte: Setor de Fitas de Áudio da Fundação MIS

" Senhores secretários de Estado e servidores do Banco do Estado, autoridades, minhas senhoras, meus senhores. Quando assumi o governo, li nos jornais que um senhor chamado Maurício Quádrio tinha uma coleção de gravações, algumas delas inéditas, e quase todas, mais ou menos desconhecidas do público, que abrangiam vozes de Rui Barbosa à voz de Rio Branco e muitas outras gravações de momentos, fatos e atos culminantes da vida nacional. Depois, conhecia de longa data a extraordinária obra empreendida por Henrique Foréis, o nosso grande e querido Almirante, a maior patente do rádio, ao longo de uma vida de dedicação ao folclore e a música popular do Brasil, obra que por si só basta para torná-lo credor da gratidão do Estado da Guanabara e da Nação. Depois soube que numa modesta casinha de Jacarepaguá, prestes a ser desocupada, graças a esta extraordinária capacidade de investigação, pelo seu muito amor à cidade do Rio de Janeiro do Dr. Gilberto de Castro Ferreira, vivia a viúva do fotógrafo Malta, que foi um pioneiro e um expoente da classe dos fotógrafos profissionais da Guanabara, pois acompanhou com sua lente de fotógrafo, os começos da grande transformação por que passou a velha cidade das vielas e dos becos, nas extraordinárias mãos de Pereira Passos, nos começos desse século. Cerca de doze ou quinze mil fotografias documentavam e assinalavam essa transformação e estavam ameaçadas de destruição pelo tempo e por uma espécie de fatalística condenação ao abandono, não fosse a dedicação da viúva e dos filhos desse modesto e antigo fotógrafo do Estado do Distrito Federal, que dedicou a sua vida a registrar na retina fotográfica, as imagens de um Rio que crescia sob seus olhos deslumbrados. Depois as estereotipias e as fotografias de Guilherme Santos, alguns milhares de fotografias, assinalando uma outra fase do Rio, o Rio da 1ª Guerra Mundial, o Rio depois de vencida a febre amarela, o Rio de Antônio Prado Júnior e de Pedro Ernesto, o Rio metrópole moderna, a partir do 1º Centenário da Independência do Brasil.

Depois, em Lisboa, na companhia desse admirável amigo da Guanabara e valoroso servidor do Estado, que se revelou o presidente do Banco do Estado da Guanabara, meu caro companheiro Antônio Carlos de Almeida Braga, pudemos adquirir, graças à prosperidade do Banco, devido à confiança da população em seu Banco, mais de mil gravuras do Brasil Antigo e especialmente da Guanabara, que se encontravam nas mãos de um antiquário lisboeta. Depois, a Discoteca de Música Popular Brasileira, antigas gravações da velha Casa Edison, pioneira deste assunto no Brasil, pacientemente colecionadas e classificadas por Lúcio Rangel.

Esse foi o começo do acervo desse estranho, surpreendente, quase diria prodigioso museu que hoje aqui começa, o Museu da Imagem e do Som. Instalado pela cooperação da Secretaria de Segurança e do Banco do Estado da Guanabara, na antiga Delegacia de Estrangeiros, que ocupava a título precário nos últimos trinta ou quarenta anos um pequeno pavilhão da Exposição do Centenário, irmão dos nossos vizinhos do Ministério da Agricultura, que também tiveram de se alojar noutro pavilhão provisório, e assim está desde 1922.

Graças ao trabalho do jovem arquiteto da Secretaria de Segurança, cuja dedicação resume e simboliza a de quantos operários e técnicos aqui procederam rapidamente a essa extraordinária transformação, o arquiteto Isnar Carvalho Santos, pudemos afinal organizar este museu que hoje abre suas portas ao público, tendo a frente aquele mesmo Maurício Quádrio, do qual soube nos primeiros dias de governo que havia se decidido doar, a quem quisesse no estado aproveitá-la, a sua extraordinária coleção de gravações. Tendo depois do Dr.Roberto de Castro Ferreira, que continua a prestar a este museu e a cidade assinalados serviços, este não menos valoroso antigo Secretário de Obras, hoje de Turismo, Dr. Enaldo Cravo Peixoto, e tendo aqui na companhia do já citado, desse extraordinário Almirante, também um português, que não podia deixar de estar, presente no museu que assinala a evolução da cidade que os portugueses e índios fundaram.. O arquiteto José Cortez, autor do projeto do Instituto de Educação, na Rua Mariz e Barros, convidado pelo Banco do Estado, para vir ver renascida a cidade que ele ajudou, por assim dizer, a formar e aqui se encontra conosco par anos trazer o testemunho das pesquisas que nesse momento se procedem em Portugal, sob os auspícios do Banco do Estado, para fazer nos Arquivos Ultramarinos, o tombamento e a reprodução, graças a gentileza das autoridades portuguesas, de todos os documentos interessando à história e a formação da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Um Conselho de Curadores presidirá o destino desse museu, e entre eles, no Rio e fora do Rio, D.Pedro de Orleans e Bragança, o Dr. Leoberto de Castro Ferreira, o embaixador Assis Chateaubriand, o escritor José Condé, o Dr. Raimundo de Castro Maya, o Dr. Alberto (....), Dr. Marcos Carneiro de Mendonça, que é ele próprio, um marco da evolução da cidade , pois passou de grande craque de futebol do Fluminense à historiador do Brasil e da cidade. De fora do Rio, como curadores correspondentes, logo o extraordinário folclorista do Rio Grande do Norte, Luís da Câmara Cascudo, e em São Paulo, o Dr. Júlio Mesquita Filho. Assim começa esse museu.

A mostra que hoje se abre é, por assim dizer, um pré-estréia das coleções que periodicamente serão exibidas. Não se trata apenas de uma casa para satisfazer a curiosidade pública, que é benvinda sempre nesta casa, mas trata-se dentro do mais rigoroso e moderno critério da técnica chamada de museologia, de um centro de documentação, através do qual se há de procurar e encontrar nas raízes do Rio de Janeiro, os segredos e soluções do seu futuro. Aqui se verá projetada sob o passado, na sombra do esforço dos nossos antecessores, o que há de ser o Rio radioso com o passar dos tempos e o prosseguimento harmônico e conjugado de tais esforços de sucessivas gerações de trabalhadores.

Desde o esforço ilustre de Rio Branco ou de um valoroso Pereira Passos que aqui há de se encontrar, até o esforço anônimo, não menos calceteiro, do pedreiro, do marceneiro, do ferreiro, do vendedor ambulante, imortalizado nas gravuras de Debret quando o Rio alvorecia, e fixado nas fotografias de Marc Ferrez quando o século XX despontava. Aqui se encontrarão as documentações para os estudos e investigações, mas por igual, o deslumbramento dos olhos, a diversão para os ouvidos. Porque a cultura, a ciência, a técnica, a informação, de modo algum excluem a diversão e a mera contemplação estética dos fenômenos da vida, dos atos do trabalho humano, da história longa, por vezes penosa, e as vezes divertida, do duro esforço do homem para transformar e dominar a natureza.

Este museu visa documentar em som e imagem esse esforço do homem brasileiro, do homem carioca dos homens de todas as nações que para aqui vieram, convergentes, formar, ampliar, reformar, desenvolver, tornar viva, humana,colorida, variada, multiforme, infinitamente alegre, mas infinitamente sofrida, a gloriosa e valorosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Ao entregar, pois, em nome do Banco do Estado da Guanabara, graças à confiança dos seus depositantes, aqui tão bem representados, graças ao valor dos seus funcionários, aqui também assistindo esta cerimônia, podemos, sob os auspícios, com o seu dinheiro, com o que deveria ser o lucro do Estado e dos seus acionistas, convertido em benefícios para a população e para os que honrarem com a sua visita e as sua atenção, um museu novo, quase único no gênero no mundo, em todo caso, o primeiro no Brasil nessa modalidade, para que o Rio se contemple no passado a fim de se entender no presente, e se decifrar nos enigmas que se lhe oferessem para o seu futuro.

Gostaria de lembrar nesta cerimônia, a quantos se disponham a fazer doações para o museu, que a Lei do Imposto de Renda já permite descontar tais doações quando se destinam a entidades culturais como esta. Lembro aos que tenham documentação, fotografias,arquivos, papéis de qualquer gênero, interessando as finalidades do museu, gravações, desenhos, gravuras, correspondências, tudo aquilo que possa eventualmente interessar a este museu, poderão doá-la e até se tiver algum valor patrimonial, descontar essa doação no que tiverem de pagar ao Imposto de Renda.

Por último, cabe-me ainda acrescentar que este museu ficará aberto do meio dia às oito horas da noite, todos os dias, menos segundas feiras. Que uma modesta contribuição para sua manutenção e desenvolvimento será completada pela venda, a quem quizer comprá-la, de cartões reproduzindo documentos do museu, de discos que vão desde a voz do presidente Washington Luís à voz inesquecível de Carmem Miranda. Aqui se poderá formar um centro de documentação viva, de documentação atuante, que doravante deixe registrada a voz , o gesto, a figura, daqueles que de uma forma ou de outra contribuem para tornar intensa e viva a imagem do Rio de Janeiro, projetando-se no Brasil e no mundo.

Ao agradecer a presença de todos, ao agradecer o prestígio que nos traz as autoridades que aqui comparecem e o calor afetuoso, simpático e solidário do público que aqui acorreu , eu me permito salientar sem demérito de nenhum dos que aqui vieram, a presença para nós inesperada e por isso ainda mais honrosa de Guiomar Novais, a extraordinária pianista do Brasil, para a qual eu peço a todos uma salva de palmas. Espero que antes de voltar aos Estados Unidos, onde ela habitualmente leva a toda a parte, uma outra imagem do Brasil, a dos seus dedos de artista, em pianos que soam como a musicalidade do povo brasileiro projetada no mundo, gostaria que em alguma hora vaga que possa ter, nos deixasse já um primeiro documento, para o Museu da Imagem e do Som, o som de Guiomar Novais ao piano, no ano do IV Centenário do Rio de Janeiro. Muito obrigada a todos e estão todos convidados a ver o museu. Hoje é grátis.