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Zé kétti

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O Samba de Zé Kétti

Na década de 30 já se espalhava pelos subúrbios e pelas favelas do Rio o novo samba feito pelos compositores do bairro da Estácio de Sá, que se demonstrava de pouca semelhança com a música feita pelos pioneiros do samba.

Segundo a filha de Zé Kétti, a jornalista Geisa Flores de Jesus, o samba de morro ou de terreiro acontecia de uma forma bem parecida com a lenda do Semba.

As rodas de samba eram feitas em terreiros, quintais de chão batido, pois ainda não existia quadra de samba. Formando um círculo, as pessoas batiam palmas acompanhando o puxador do samba, que ficava ao centro da roda. Em certo momento, ele escolhia outra para ficar em seu lugar e assim ia.

Zé Kétti assimilou bem essa variação do samba, aperfeiçoando alguns componentes como a poética malandra - "eu dou duro no baralho pra poder viver" - e ingênua - "gostaria de beijar e ser beijado". Compondo com uma caixinha de fósforo nas mãos, nos botequins do morro ou nas rodas de terreiros, Zé Kétti descreveu em seus sambas toda a essência dos morros cariocas que freqüentava.

De acordo com Geisa Flores, Zé Kétti não morava no morro, com exceção de uma época que morou na casa do compositor Cartola. Ele subia todos os dias os morros do Rio. Recentemente Geisa discutia com pessoas que viveram aquela época em qual deles o Zé subia mais, chegando a conclusão que era o morro da Mangueira.

1 - Na subida do morro

Zé Kétti, ou melhor, José Flores de Jesus nasceu em 16 de setembro de 1921, mas, segundo o escritor e compositor Nei Lopes, foi registrado como nascido em 6 de outubro. Nasceu no bairro de Inhaúma, Rio de Janeiro, região da Central do Brasil.

O apelido surgiu de dona Leonor Inácia de Jesus, sua mãe, que quando chegava em casa sempre perguntava para o pai Josué Vale de Jesus: "como é, o Zé ficou quietinho". Daí passou para Zé Quietinho, Zé Quéti e finalmente para Zé Kétti.

Seu pai morreu cedo, com 33 anos. Segundo o próprio Zé, louco após ter tomado uma xícara de café na casa de uma ex-noiva. Como esperado, o fato resultou num samba:

"Meu pai morreu de uma xícara de café
E nesta história existe um nome de mulher.
O velho bobeou, entrou numa gelada
Falou sozinho, muita gente deu risada.
Mulher comigo, toma sopa de jornal
E banho frio matinal
Almoço no Seu Chang-Lai
Tomo café no botequim
Pra mulher má, eu também sou ruim(...)"

Desde cedo Zé Kétti já presenciava, dentro de casa, cenas que o influenciaria na sua carreira de sambista. Seu avô, João Dionísio Santana (João Folião), flautista e pianista, costumava a realizar reuniões musicais noturnas, que varavam as madrugadas. Consta que participavam destas reuniões Pixinguinha e Cândido Índio das Neves, nomes que viriam marcar a história do samba no princípio do século.

Zé Kétti ficava sempre à espreita, quietinho, a observar tudo e por meio desta influência musical do avô começou a tocar flauta (folha -de-flanders), dada pela mãe.

"Me interessei pela música ainda menino. Eu ia para as festas com minha mãe e, em vez de dar atenção à gurizada da minha idade, dispensava as correrias e as brincadeiras para ficar ligado aos músicos. Pedi que me comprassem uma flautinha de folha e comecei a tirar a primeiras notas musicais" - Zé Kétti (apud LOPES, 2000: p. 20).

Seu pai, cavaquinista, continuou a realizar as reuniões de Dionísio, que falecera. Marinheiro, participou da rebelião libertária em 1910, conhecida como a Revolta da Chibata . Liderada por João Cândido, a revolta foi contra os castigos corporais infligidos aos marinheiros na época.

Zé Kétti estudou até o quinto ano escolar, largando para trabalhar de operário na fábrica de calçados Fox. Depois se alistou no tiro de guerra, era a idade do serviço militar, mas para escapar da Segunda Guerra Mundial entrou para a Polícia Militar.

"Eu sabia que a Polícia Militar era a última a ser convocada. (...) Não deu outra, o grupo de artilharia onde eu tinha servido foi convocado e toda minha turma embarcou no Baependi, navio afundado por torpedos (...). Mas eu fui pra Polícia Militar e ingressei no corpo de atletismo, na corrida de fundo (...). Quando eu chegava tinha um monte de cara me esperando, vaiando, pois os outros já tinham chegado, tomado banho, comido e eu ainda estava correndo. Mas não larguei, porque atleta tem vida mansa, come melhor e não dá guarda" - Zé Kétti (Apud, MACHADO, 1999).

Nessa época as rádios ainda estavam em fase de crescimento, engatinhavam, como Zé Kétti dizia. Estavam centralizadas, em maior número, no Rio de Janeiro: Rádio Transmissora, Rádio Cajuti, Rádio Cruzeiro e Rádio Clube do Brasil. No Rio foi onde também começaram a se concentrar as gravadoras de discos - indústria fonográfica - que já avistavam no samba um negócio promissor.

"Eu gostava de ouvir pelo rádio o Noel Rosa cantando em dupla com Marilia Batista" - Zé Kétti (apud LOPES, 2000: p. 23).

Acompanhou também as duplas de Preto e Branco - Herivelto Martins e Francisco Sena - Ataulfo e suas pastoras e outros.

Em 1939 dá o seu primeiro passo no mundo dos compositores. É levado para o então famoso Café Nice por Luiz Soberano. Um bar freqüentado pelo meio artístico do rio que, segundo o jornalista e escritor Sérgio Cabral, era freqüentado por cantores que procuravam músicas novas e compositores novatos a procura de um cantor da moda.

Zé Kétti morou em vários bairros do Rio. Inhaúma onde nasceu, Piedade, onde teve seu primeiro contato com uma escola de samba, a Estação Primeira de Mangueira. Morou também em Bangú, Madureira, porém foi morando em Bento Ribeiro que chegou a Escola de Samba Portela, levado pelo compositor Armando Santos.
Pelo seu talento, se tornou membro do seleto grupo de compositores da Portela, tendo que apresentar, geralmente, dois sambas por ano a escola.

Sua primeira canção foi a marchinha Se o feio doesse, que não chegou a ser gravado:

"Se o feio doesse
Eu gemia e tu choravas de dor
Noite e dia
Ó feio, ó feio
O vento da feiúra te apanhou em cheio(...)"

Foi o primeiro sucesso, mas também foi quando surgiu a primeira desconfiança da legitimidade da autoria de um samba. Isto porque apareceu uma pessoa se dizendo autor da letra, mas desistiu logo de brigar pela posse da canção.

Seu primeiro samba gravado foi Vivo Bem, em 1946, pelo cantor Ciro Monteiro (1913-1973), que, segundo Zé Kétti, não fez muito sucesso:

"Juro que sou feliz com meu amor
Essa união eu agradeço a Nosso Senhor
Eu agora vivo muito bem
E sem ela nuca fui ninguém (...)"

No mesmo ano gravou Tio Sam no Samba, samba de parceria com Felisberto Martins. Esta canção se destacou mais que o anterior e foi gravado pelo grupo Vocalistas Tropicais:

"Tenho que ensinar o português ao Tio Sam
Pois brasileiro ele diz que é brazilian
Ele não quer falar a nossa língua misturada
Num samba-fox-embolada
Que maçada!
Em Hollywood deixará seu fraque e cartola
E vem diretamente ao Rio para a minha escola(...)"

Zé Kétti foi chamado de plagiador diversas vezes. E foi em uma dessas desavenças sobre a autoria de suas canções que se afastou da Portela. A canção que ocasionou a separação do sambista com a escola foi Não quero Morrer, composta entre 1949 e 1950:

"Não, não quero morrer agora
Ingrata morte, vai embora
Abandone meu leito de dor
Peço clemência ao Senhor
Estou em plena flor da idade
Se eu morrer
Do mundo levarei saudade(...)"

Magoado, Zé Kétti vai para a escola de samba União Vaz Lobo, fundada em 14 de novembro de 1930. Uma das mais antigas do Rio. Não fica nem dois anos, mas se consagra como um de seus maiores sucessos, A voz do Morro:

"Eu sou o samba
A voz do Morro sou eu mesmo
Sim Senhor,
Quero mostrar ao mundo
Que tenho valor
Eu sou o rei dos Terreiros
Eu sou o samba
Sou natural daqui
Do Rio de Janeiro
Sou eu quem leva
A alegria
Para milhões
De corações brasileiros(...)"

No show realizado em janeiro de 2001, no Rio de Janeiro, em homenagem póstuma a Zé Kétti, organizado pelo sambista Elton Medeiros e transmitido pela TV Cultura, Marília Medalha antes de uma música põe um chapéu de aba curta e interpreta o sambista: "A voz do morro ficou sete anos na gaveta, sempre ia às rádios procurando um cantor, ei moço dá uma olhadinha aqui e nada. Depois da primeira gravação mais de trinta gravaram. Até o Carlos Ramires, o Granada gravou ele. Com direito autorais, comprei móveis estilo francês e deu pra ir a feira, todos os domingos, e ainda trazer duas sacolas de compras".

Francisco Egídio, Cláudia Moreno (1956), Luís Arruda Pais e Orquestra (1957), Miguel Cole, Roberto Inglez, Fafá Lemos e Luiz Bonfá (1958), Demônios da Garoa (1969), Blecaute (1970), pelo próprio autor (1971), seis estrangeiros. Os mais recentes, Luiz Melodia e Zé Renato (ex-Boca Livre) também gravaram A voz do Morro.


2 - Na descida do morro

Mas a primeira vez que esse sucesso chega aos ouvidos dos brasileiros não é pela indústria fonográfica e sim pela cinematográfica. Em 1953, o diretor Nelson Pereira dos Santos chama Zé Kétti para trabalhar como assistente de câmera no filme Rio 40 graus. Mas segundo o diretor - "as coisas tomaram outro rumo" - Zé Kétti trabalha também como ator e A voz do Morro faz a abertura e o encerramento do filme. O diretor incluiu a canção Leviana, também de Zé Kétti.

"Acho que o Rio 40 graus foi a grande oportunidade de Zé Kétti. A gente passava apertado, comia todo dia macarrão alho e óleo ou sanduíche de mortadela. Só tinha sobremesa quando a mãe do assistente de câmara trazia umas mangas. Mas depois do filme, Zé embalou na carreira artística" - Nelson Pereira dos Santos (apud MACHADO, 1978).

A canção ainda entra como prefixo no programa de televisão Noite de Gala, na Tv Rio, canal 13, mas Zé Kétti nem ao menos é consultado para tal exibição.

Além de A Voz do Morro, várias canções do sambista entraram em filmes nacionais. Malvadeza Durão e Foi ela entraram no filme Rio, Zona Norte do mesmo Nelson Pereira dos Santos; A flor do Lodo no O grande momento (1948), de Roberto Santos. Os filmes O Boca de Ouro (1962), também de Nelson Pereira dos Santos, e A falecida (1965) de Leon Hirszman tiveram canções do sambista. Zé Kétti compôs uma canção junto com Cacá Diegues para o filme A grande cidade (1966) de autoria do cineasta.

Após participar do filme Rio, 40 graus, Zé Kétti deu uma trégua em sua vida artística, reaparecendo no Zicartola, bar do compositor mangueirense Cartola e de sua esposa Dona Zica, famosa pela sua culinária.

"Eu (Cartola) ficava tocando e cantando e cantando. O Zé Kétti era uma espécie de mestre-de-serimônias, era como um anfitrião da casa, incumbido de levar gente pra lá. Ele começou a inventar coisas, noite disso, noite daquilo (...). Elton Medeiros, Nélson do Cavaquinho, Paulinho da Viola, eu mesmo, todos fomos descobertos e redescobertos lá no Zicartola, graças a força e a vontade do Zé Kétti. A casa lotava, até mesmo o pessoal da Zona sul ia lá, tinha até fila" - Cartola (apud, MACHADO, 1978).

O Zicartola era freqüentado por um meio artístico mais sofisticado. Lá, o Zé conheceu o pessoal da bossa nova (Zona sul) e foi precursor na união desse estilo musical, chamado de fino do samba, com o samba de morro. Isso aconteceu quando Zé Kétti conheceu o compositor de bossa Carlos Lyra e compôs o Samba da Legalidade. Foi também no bar de Cartola que o sambista conheceu Nara Leão, que gravou algumas de suas canções e com quem contracenou na peça de show teatro Opinião. Zé Kétti ainda lançou Paulinho da Viola no Zicartola. O apelido foi dado por ele junto com o escritor Sérgio Cabral.

Foi também no bar de Cartola que Oduvaldo Viana filho, Ferreira Gullar e Armando Costa, após conhecerem Zé Kétti, tiveram a idéia de montar a peça Opinião. O nome da peça foi tirado de uma do sambista de mesmo nome, gravado por Nara Leão, Elis Regina e Jair Rodrigues.

"Podem me prender
Podem me bater
Podem, até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião
Daqui do morro
Eu não saio, não
Se não tem água
Eu furo um poço
Se não tem carne
Eu compro um osso
E ponho na sopa
E deixa andar(...)"

A primeira formação da peça era Zé Kétti representando um favelado, João do Vale representando um nordestino da Caatinga e Nara Leão uma socialite carioca. Já na segunda, Zé Kétti concede uma oportunidade a Maria Bethânia, que marca sua estréia como cantora.

A primeira estréia foi em 1964, e o teatro da apresentação passou a se chamar como a peça, Opinião. A peça já foi remontada várias vezes e em todas Zé Kétti atuou.

Na mesma época Zé Kétti chama Nescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, Oscar Bigode, Élton Medeiros e Paulinho da Viola para forma o grupo de samba A voz do Morro. O grupo lança em 1965 o Lp Roda de Samba e chega a participar de um programa da TV Rio, com Sérgio Cabral.
Zé Kétti ganhou vários prêmios que provaram a sua criatividade como compositor. Até mesmo quando duvidaram da autoria de umas de suas canções (no caso Máscara Negra), ele ganhou no mesmo ano o 2º Concurso de Músicas de Carnaval com a música Amor de Carnaval.

Recebeu o troféu Euterpe como melhor compositor carioca, o Guarany junto com Nélson Cavaquinho como melhor compositor brasileiro. Em 1965 três sambas seus fazem grande sucesso, Acender as velas, Malvadeza Durão e Mascarada.

Em 1967 grava Máscara Negra em parceria com Hildebrando Pereira Matos, sucesso cantado até hoje nos carnavais. A canção levou Zé Kétti aos tribunais para provar sua autoria, pois após o falecimento do parceiro, a família entrou na justiça dizendo que a composição era apenas de Hidelbrando:

"Tanto riso, oh quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando pelo amor da Colombina
no meio da multidão(...)"

Em 1973 lança o Lp Zé Kéti. Em 1975 participa da remontagem do show-teatro Opinião, dirigido por Bibi Ferreira, mas com Marília Medalha no lugar de Nara Leão. Em 1979 grava o Lp Identificação.

No meio do ano de 1987, Zé Kétti sofre o primeiro derrame cerebral. Em 1990 estréia em Estamos Vivos, uma questão de opinião, com a cantora Deivy Rose. Escreve e monta, em 1993, o show Opinião Pública, com música, poesia, relatos autobiográficos e projeções de slides, revivendo o Opinião.

O teatro Opinião completa 30 anos e homenageia Zé Kétti com a medalha Pedro Ernesto. Em 1995 recebe Troféu Iroco da Câmara dos Deputados do RJ. Em 1998 recebe 18º Prêmio Shell e é neste ano também que o compositor sofre o segundo derrame, em São Paulo.

No ano de 1999 recebe sua última homenagem, placa de 60 anos de carreira, na roda de samba da COBAL do Humaitá.

Última homenagem porque, vítima de hidrocefalia, causada por um derrame, o compositor é internado, no dia 25 de outubro de 1999, na Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, após ter ficado muito abalado com a perda da mulher.

No dia 14 de novembro, Zé Kétti morre de parada cardíaca. O compositor deixa sua maior causa, o samba.

O artista se despede, mas as obras ficam, como patrimônio da cultura popular brasileira. Canções que na subida e descida do morro resultaram numa vertente do samba, o samba de morro.


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