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Sérgio Sampaio

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BRUNO RIBEIRO

A música popular brasileira sempre reservou aos seus compositores marginais os capítulos mais interessantes de sua história. Donos de carreiras irregulares e, não raro, existências trágicas, os artistas malditos sempre estiveram no acostamento do showbusiness. Embora o folclore que os cerca sirva para torná-los figuras ímpares, quase míticas, a realidade para esses artistas não teve o mesmo lirismo que se costuma creditar à eles. Sérgio Sampaio foi um desses caras. Marginalizado pelas gravadoras, pelo público e, talvez, até por ele mesmo, chegou a passar fome. Mas, se não conseguiu sucesso e reconhecimento imediatos, ao menos Sampaio agregou em torno de si, poucos mas fervorosos seguidores.
Nas palavras de Lenine, Sérgio Sampaio foi um desses "enturmados sem turma", da estirpe de um Tim Maia e de um Raul Seixas, só que muito mais radical que os dois em matéria de malandragem. Quando Sampaio se fez conhecer nacionalmente no Festival Internacional da Canção de 1972, estava tuberculoso e tão magro que os amigos chamavam-no de "transparente".
Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua, livro de estréia do músico e pesquisador carioca Rodrigo Moreira (Ed. Muiraquitã, 188 páginas, R$ 20,00) é a primeira biografia do compositor capixaba e surge no rastro do CD tributo O Balaio do Sampaio, produzido por Sérgio Natureza com a participação de fãs declarados do músico, como Chico César, Lenine, Zeca Baleiro, João Bosco, Luiz Melodia e Jards Macalé, entre outros.
Por sinal, é de Sérgio Natureza o prefácio do livro de Moreira. Para ele, - que conviveu e chegou a ter parcerias com Sampaio - o cantor maldito foi o verdadeiro "Garrincha da MPB" ao driblar os percalços, entortar as defesas dos insensíveis e marcar gols de placa com suas canções. Não por acaso, Sampaio teria o mesmo fim inglório, similar ao do craque do Botafogo, seu time do coração.
O livro de Rodrigo Moreira é, como o próprio autor admite, um livro de fã. Não deverá ser a biografia definitiva do artista, mas o ponto de partida para outros escritores que quiserem se aventurar em trazer à tona o nome de Sérgio Sampaio. Como o próprio compositor nunca se deixou conhecer, mantendo uma postura arredia na vida carregada de mistérios, a impressão é de que muito ficou por dizer na obra de Rodrigo Moreira. No entanto, as passagens que ele nos conta são deliciosas porque inéditas.
Estiveram durante tantos anos arquivadas na memória de parentes, amigos e músicos que conviveram com Sampaio e que se perderiam no tempo caso não fossem resgatadas por alguém. Rodrigo Moreira foi esse alguém, e a importância dessa iniciativa está reservada para o futuro, lugar onde sempre viveu Sérgio Sampaio.
Nascido em Cachoeiro do Itapemirim (mesma cidade de seu grande ídolo Roberto Carlos), Sérgio Moraes Sampaio foi, para muitos, um total desconhecido; para outros, apenas um artista indisciplinado e triste; e, para alguns poucos, um gênio. Quando saiu de casa, em 1967, tinha vinte anos de idade e muita vontade de romper com a estrutura familiar que o oprimia. Abandonou tudo e caiu no Rio de Janeiro, onde sua voz de locutor rendeu-lhe uns trabalhos pelas rádios da cidade. Era um drop-out (gíria americana usada para designar alguém que estava "fora do sistema").
Nos primeiros anos viveu intensamente as noites cariocas. Tão intensamente que não se firmou em emprego nenhum, por "nunca recusar um convite, a qualquer hora do dia ou da noite, para um programa envolvendo música e bebida".
No olho da rua, passou a dividir pensões com malandros, travestis, militantes políticos e marginais procurados pela polícia. Chegou a dormir sob marquises e a perambular pelos bares a procura de alguém que lhe pagasse uma refeição.
Pode-se dizer que o grande "descobridor" de Sampaio foi o roqueiro Raul Seixas, então produtor da CBS. Um dia o rapaz, muito magro e calado, entrou na gravadora acompanhando um outro músico desconhecido. Bastou que mostrasse algumas de suas músicas para que Raulzito visse nele uma promessa. O encontro dessas duas figuras ímpares - a verdadeira pororoca da música brasileira - resultou em uma longa e intensa amizade.
Sampaio era muito grato à Raul; primeiro porque ele fora o primeiro a lhe dar uma chance profissional ao gravar seu primeiro compacto (Coco Verde e Ana Juan), além de contratá-lo para o quadro de músicos da gravadora. E segundo porque ele o tirara das pensões imundas, levando-o para morar em sua casa. Quando esteve desempregado, vagando pelas ruas do Rio, Sampaio chegou a passar dificuldades sérias: "Nessas condições você torce para que haja um velório na casa de um conhecido só para ter um lugar para passar a noite. Várias vezes me aconteceu de estar num bar e as pessoas irem saindo, uma por uma, e o garçom me pedir licença para fechar. Essa é uma das barras mais tristes que podem acontecer a qualquer um", diz o compositor num trecho do livro.
Por sua vez, Raul Seixas se beneficiou da cultura geral popular de Sérgio, um profundo apreciador de música brasileira. Se os acordes dissonantes e o samba de tamborim estavam na raíz musical do compositor, sua aguda vocação para a rebeldia o tornava apto à captar todas as influências do pop urbano tropicalista. Gostava de e se identificava com cantores boêmios, como Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues e Nelson Gonçalves. Leitor de Kafka e Augusto dos Anjos, suas poesias esbanjavam um lirismo mórbido e triste, característica marcante de sua obra. E Raul bebeu dessa fonte. Influenciado por Sampaio, faria até um samba, - Aos Trancos e Barrancos - coisa inimaginável para o roqueiro até então. Juntos e acompanhados de Edy Star e Míriam Batucada, fariam em 1971 um LP lendário pela CBS, o transgressor Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez.
Apesar de suas músicas primarem pela simplicidade harmônica e suas letras pela linguagem cotidiana, Sérgio nunca conseguiu popularizá-las. Essa culpa o perseguiu durante toda a vida: "Quem faz um Bloco na Rua só pode ser povão", dizia ele, um típico homem do povo que podia ser visto nos botecos, tomando em pé a sua pinga. O rótulo de "maldito" que as gravadoras e a mídia pregaram-lhe na testa acabou atravancando sua carreira, antes mesmo que ela pudesse realmente começar.
Na verdade, é a partir do Festival Internacional da Canção de 1972 que Sérgio Sampaio vislumbra seu ingresso no clube fechado da MPB. Feita em dezembro de 71, a marcha-rancho Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua acabou sendo, segundo Rodrigo Moreira, "uma síntese artística e existencial de tudo o que o compositor viu e viveu, uma projeção de anseios tão pessoais quanto identificados com a coletividade naquele momento histórico". Vale lembrar que o Brasil atravessava seu pior momento político nas mãos do regime militar. A canção de Sampaio soava então como um desabafo; e foi com este sentimento que na noite de 30 de setembro de 1972, Sampaio subiu ao palco e, sozinho ao violão, foi acompanhado por um coro de milhares de vozes: "(...) Eu quero é botar meu bloco na rua / brincar, botar pra gemer / eu quero é botar meu bloco na rua / gingar, pra dar e vender" .
Uma das canções que grudam no ouvido e marcam época, O Bloco não venceu o festival, mas foi lançada em compacto e vendeu 500 mil cópias. Sampaio que há poucos meses não tinha dinheiro nem para tomar um ônibus, passava a ser o "maior cantor do Brasil" e suas aparições nos programas de TV se tornaram mais e mais freqüentes. Com a conta bancária recheada, Sérgio iria se aprofundar ainda mais no álcool e nas drogas. Cheirava tanto que até Raul Seixas chegou a declarar que perto dele se sentia o sujeito mais careta do mundo.
Se a cocaína e o álcool ajudavam em suas criações noturnas, também tornaram-lhe um tipo arredio, desconfiado e um tanto irresponsável para lidar com compromissos. Não foram poucas as vezes em que trocou uma entrevista na televisão por uma boa noitada regada a pó e uísque. No auge da fama, seu mundo continuava a ser os botequins da Lapa, as rodas de samba nos subúrbios e a companhia de amigos tão malucos quanto ele.
Seus dois LPs iniciais, Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua (1973), pela Phillips, e Tem que Acontecer (1976), pela Continental, venderam abaixo do esperado. Com exceção do hit do Festival, o público demonstrava pouco interesse por suas outras criações, o que só fez afugentar o cantor dos shows. Pode-se dizer que Sérgio foi uma das raríssimas estrelas que morreram antes mesmo de nascer.
Com posturas nada profissionais, Sérgio se apresentava nas rádios e TVs. Curiosamente, a cada aparição do cantor, seus discos vendiam menos. Apesar de não se curvar diante das pressões das gravadoras, - que tentaram direcionar o seu trabalho para o consumo imediato - Sampaio sofreu com o ostracismo. Tampouco se deixou iludir pela mídia que pretendeu transformá-lo em um novo "Roberto Carlos" quando ele despontou no Festival. Seu terceiro e último LP seria independente, desvinculado de gravadoras e, por isso, muito mais autoral que os anteriores. Sinceramente (1982) marca o seu desaparecimento da cena musical. Depois de não emplacar mais uma vez, Sampaio fugiu para a Bahia onde, diz a biografia, conseguiu reencontrar a paz de espírito, parou com as drogas e sonhava em retomar a carreira (musical). Não teve tempo. Vítima da vida desregrada, Sérgio Sampaio morreu em maio de 1994, após sofrer terrivelmente com suas crises de pancreatite.

Correio Popular (Campinas, setembro, 2000)


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