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Radamés Gnattali

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(Porto Alegre, 27 de janeiro de 1906 - Rio de Janeiro, 1988)

Radar é água alta.
É fonte que nunca seca.
É cachoeira de amor.
É chorão rei de peteca.

O Radar é concertista,
compositor, pianista,
orquestrador, maestrão.
E, mais que tudo, é amigo,
Navega junto contigo,
É conta de doação.
Ajuda a todo mundo
E mais ajudou a mim.
Alô, Radar, eu te ligo
Vamos tomar um chopinho
Aqui fala o Tom Jobim.
(poema de Tom Jobim dedicado a seu amigão Radamés Gnattali)


Quem ouviu jamais esquece. Pontanto você deve lembrar. Exemplo um: o tcham-tcham-TCHÃM, tcham-tcham-tchã-TCHAM! que introduz esse verdadeiro cartão de visitas musical brasileiro conhecido como Aquarela do Brasil. Exemplo dois, esse mais para entendidos: a suave cama de violinos, violas e violoncelos que esparrama seus lençóis para a voz maviosa do jovem Orlando Silva deitar e rolar na gravação original de Carinhoso. Ou ainda: a revolucionária base de fantástica instrumentação camerística de Copacabana, na voz de Dick Farney (oito violinos, duas violas, cello, oboé, piano, violão, contrabaixo e bateria tocada com escovinhas. Bossa nova doze anos antes da Bossa-Nova). Não lembrou de nenhum dos três? Ao menos da bandinha do Rancho da Goiabada, do João Bosco com o Aldir Blanc você lembra, né? (Não?!? Então fecha este sítio virtual e vai comprar uns discos de MPB, ô meu).

Pois o autor de todas estas façanhas é um só. Atendia pelo nome de batismo de Radamés Gnattali e, no fim da vida, pelo elucidativo apelido de Radar. Pianista, arranjador, maestro, band-leader, compositor erudito e popular. Mestre de gente como o violonista Rafael Rabello e Tom Jobim - e parceiro do pai de Tom, Jorge Jobim, em pelo menos uma canção perdida. Aliás, numa fria manhã de inverno de 91 - a essa hora os chatos ainda estão dormindo - Tom, que andava meio renitente com a imprensa brasileira, se pendurou no telefone por mais de uma hora para uma entrevista só porque o assunto era Radamés. Segundo Jobim, um gauchão misto de sangue italiano e alemão, chegado em vinho, chope e chimarrão. Jobim exultava com o fato de darem o nome de seu mestre a uma sala no Auditório Araújo Vianna, um dos maiores locais para shows em Porto Alegre, situado a poucas quadras da casa onde Radar nasceu: Radamés era uma alma adiantada, um espírito avançado, um precursor que escrevia música para o futuro, um pai. Não só tinha talento, como era um homem muito generoso.


Radamés era um radar. Um radar que apontou, captou e sinalizou o que de melhor se fez em música brasileira ao longo de mais de 60 anos. Na verdade, mais até do que um radar: um verdadeiro emissor de sinais captados por várias gerações de músicos.

Nascido em plena rua Fernandes Vieira, coração do Bom Fim - bairro de judeus, italianos e negros -, desde pequeno o rapazinho foi preparado pela família pra ser concertista de piano. De preferência em palcos europeus. Seu pai começou a vida como marceneiro italiano e morreu maestro brasileiro. E queria ver o filho no mínimo no Scala de Milão. Acabou tendo de se contentar com o meio do caminho entre os pagos sulistas e o Velho Continente: seu bambino fez fama como um ferrenho carioca adotivo.

Mas antes disso fez história em Porto Alegre. Polivalente menino-prodígio, foi na capital dos gaúchos que Radamés ganhou o primeiro prêmio - com apenas nove anos de idade, em 1915. E direto das mãos do Cônsul da Itália. Seu mérito: reger com absoluto sucesso uma orquestrinha de seis músicos em arranjos escritos por ele mesmo. Nosso Mozart do Bom Fim também já arrebentava no piano e no violino. E era a estrela maior de uma família de músicos - da qual também despontava a violinista Olga Fossati, sua prima e primeira professora de música do garoto.

A mãe de Radamés, Adélia Fossati, era respeitada como pianista e também dava aulas de educação musical. O pai, Alessandro Gnattali, além de igualmente pianista e professor, fez aos poucos seu renome como maestro, fagotista e... anarquista de carteirinha. Bom italiano que era, tornou-se líder sindical e, à frente do Sindicato dos Músicos de Porto Alegre, organizou a primeira - e única - greve da categoria de que se teve notícia na cidade, em 1921.

Mas apesar de sua base erudita, as seduções da música das ruas não tardariam a entrar pela janela da casa nova dos Gnattali, agora na João Telles - e ainda no Bom Fim. Resultado: no começo dos ano 20, o rapazinho somava às suas peripérias ao violino e ao piano a fama de craque do violão e do cavaquinho. Sessenta anos depois, lembraria com saudade dessa fase: Nós formávamos, eu, o Sotero Cosme, o Luís Cosme, o Júlio Grau e mais alguns músicos, um pequeno bloquinho de carnaval, meio moderno na época - Os Exagerados. Cada um tocava um instrumento. E como não podia levar o piano, comecei a tocar cavaquinho. Mas suas estripulias não o afastariam dos estudos. Tanto que é admitido diretamente no quinto ano de piano da Escola de Belas Artes, onde viria a ser o xodó do professor, o renomado Guilherme Fontainha, que também era o diretor da Escola (e futuro tio de Carlinhos e Guilherme Vergueiro). Nesse meio tempo, mais um instrumento erudito passa a integrar seu repertório: a viola.

Para defender uns cobres - e se divertir um bocado -, o rapaz tocava piano, violão e cavaco acompanhando sessões de cinema no Cine Colombo ou em várias orquestras de dança. Também começava a arriscar suas primeiras composições - ainda estritamente eruditas, mas já de temática fortemente nacionalista.

Antes mesmo de sua formatura em piano, dá um consagrador concerto no Instituto Nacional de Música, no Rio. Mas todo o tempo em que não estava estudando nessa primeira temporada carioca, ficava espiando pra dentro do Cine Odeon, de ouvido espichado pra se deslumbrar com Ernesto Nazaré, pianista oficial da casa e um dos compositores populares mais respeitados de então. Radamés descobre ali que isso - ser popular e respeitado - também é possível. Mas prossegue com seus estudos até formar-se, em Porto Alegre, em 1923 - como não poderia deixar de ser, com o grau máximo e Medalha Araújo Vianna, de ouro.

Entre 1924 e 26, o moço fica naquele vai-e-vem da ponte marítima, entre Porto Alegre e Rio, atuando sempre com destaque tanto em concertos e recitais quanto em bailes, cinemas, teatros e rádios. Mas ainda acha tempo pra montar o Quarteto de Cordas Henrique Oswald, ao lado dos irmãos Cosme, seus amigos inseparáveis. Ensaiam diariamente e se tornam uma das melhores formações de música de câmara do Brasil de então. Radamés tocava viola e o grupo se apresentou muito por todo o Rio Grande do Sul.

Sua estréia oficial como compositor se dá em 1930, aos 26 anos de idade. Num concerto no Theatro São Pedro, apresenta dois Prelúdios para Piano. Em seguida se muda definitivamente para o Rio. Aí não deu outra: Adeus Europa. Ironicamente, ele só conheceria os palcos sonhados por seu pai décadas depois, tocando música popular brasileira à frente do seu insuperável quinteto. E, segundo o baterista Luciano Perrone, fizemos um sucesso espetacular.

Luciano Perrone, aliás, além de seu fiel baterista durante toda uma vida - mais de 50 anos, com certeza -, foi um de seus mais assíduos amigos. Se conheceram em 1925, na lua-de-mel de Luciano, numa estação de águas em Lambari, no Rio. Radamés estava tocando piano, tinha uma bateria ali do lado. Ele endereçou à Perrone um lacônico senta aí e foram unha e carne pelo resto da vida. A parceria fundaria as bases do jeito brasileiro de tocar bateria, criação da dupla.

Louco de faceiro de encontrar alguém a fim de escutar suas estórias, o velho baterista fica horas no telefone lembrando o amigo. E maravilhas como a verdadeira versão de uma das lendas mais clássicas da música brasileira. Um dia, cansado das incomodações que lhe davam os percussionistas iletrados que ele tinha de dirigir nas gravações dos arranjos que Radamés fazia para a RCA Victor, Perrone sugeriu: Ô, Radamés, por que você não muda a forma desses arranjos? Ao invés de tantos músicos de percussão, experimenta usar os outros instrumentos da orquestra também pra fazer ritmo... Resposta (típica) Radamélica:

- Porque não vai dar certo.

No dia seguinte chegou com o arranjo. Espetacular.

Aproveitando uma sugestão de divisão rítmica ditada pelo próprio Perrone, os dois tinham acabado de inventar a orquestração de samba, inédita até então (o que se fazia, no máximo - que samba não era pra ter orquestra-, era escrever melodias para sopros ou harmonias para as cordas e deixar só o ritmo e o balanço só com a base rítmica). A partir desse arranjo fundador, rapidamente, Radamés foi inventando uma linguagem orquestral que nada a tinha a ver com o que era feito antes dele, e muito pouco com as orquestrações americanas para a mesma formação (metais, palhetas, base rítmica de piano, baixo e bateria). Quem acha americanizadas as orquestrações dele é porque, realmente, não entende nada do riscado.

Isso foi no final da década de 30, e a primeira música arranjada neste conceito não foi, como reza a lenda, Aquarela do Brasil. A Aquarela foi, na verdade, a primeira a estourar com este conceito. De qualquer forma, a partir dessa data - e graças à popularização do rádio - Radamés se tornaria o melhor, mais solicitado e mais imitado arranjador de uma geração de caras geniais na área. Geração que tinha - pra ficar só em três nomes - Pixinguinha, Lírio Panicalli e Léo Peracchi.

Resultado: como aconteceu com Ary Barroso, não tardou que, nos anos 40, os Estúdios Disney - Disney em pessoa era deslumbrado com a Aquarela - convidam Radamés pra ir morar lá e fazer direção musical de alguns de seus filmes. Como aconteceu com Ary (que não conseguiu ficar nos Estados Unidos porque don't have Flamengo), não quis sair daqui. Também pudera. Nessa época tinha já formado o grupo dos sonhos de qualquer compositor, uma das melhores formações instrumentais que o Brasil já conheceu: o também gaúcho Chiquinho no Acordeom, Zé Menezes no violão, viola caipira, cavaquinho e (já nessa época) guitarra elétrica, Radamés no piano, Vidal no contrabaixo e o insuperável Perrone na bateria. Às vezes reforçado por sua irmã Alda no segundo piano. Era o quinteto Radamés. Faziam a base de quase todas as orquestrações do maestro, gravavam discos, faziam excursões. O grupo durou décadas a fio, sempre com a mesma formação.

Entre as décadas de 60 e 70, com a decadência do rádio feito ao vivo, Radamés perdeu seu grande veículo de projeção. Na Rádio Nacional - a mais poderosa da história do Brasil - dirigiu dezenas de programas, alguns dos quais se mantiveram décadas em cartaz. Apesar de todos os esforços de Tom Jobim de chamar atenção para seu mestre, durante os anos da bossa-nova, Radamés - um amante das orquestrações elegantes, porém arrebatadas - ficou meio out. Passou a se dedicar mais à música erudita, o que de forma alguma lhe desagradava. São dessa época obras-primas como o Concerto Carioca e uma fantástica suíte para violão elétrico e piano, gravada em duo intercontinental (um gravou lá, o outro aqui) com o genial violonista brasileiro Laurindo de Almeida.

Mas a virtual ressurreição do velho para as novas gerações foi com a Camerata Carioca, no final da década de 70. Depois de anos acomodado em sua casa, compondo e arranjando, Radamés se empolgou até para retomar o quinteto. Passou a excursionar muito por todo o Brasil, com ambas as formações. Retomou o prestígio, incensado por nomes como os já citados, mais o velho amigo Dorival Caymmi, João Gilberto e outros tantos.

Aí, no auge da animação com essa retomada inesperada da carreira às vésperas dos 80 anos de idade, Deus fez uma maldade com ele. Radamés morreu depois de uma longa agonia de mais de dois anos em cima duma cama, fruto de duas esquemias cerebrais. Roberto Gnattali, sobrinho, maestro e outro aplicado discípulo, conta emocionado dos meses que nosso herói passou em coma, quase vegetativo: Radamés não merecia isso. Ele morreu quando seu talento estava no auge. Uma das últimas frases ditas pelo tio ao sobrinho pouco antes de deixar até de conhecer as pessoas: Porra, Roberto, agora que tava ficando bom...


Se a fama de Radar veio a partir de seu trabalho como pianista e arranjador na mitológica Rádio Nacional e nos discos de música popular, foi na música erudita que ele deixou firmada sua assinatura de grande compositor: Ele se considerava um músico neoclássico nacionalista e foi, segundo o cavaquinista e produtor Henrique Cazes, disparado, o compositor erudito brasileiro que mais produziu. Cazes é um dos muitos amigos saudosos de Radar, e fez parte da Camerata Carioca. A Camerata foi criada justamente pra apresentar uma nova versão da Suíte Retratos, escrita originalmente para Jacó do Bandolim, e era um grupo de jovens chorões que, em 1979, trouxe Radamés de volta aos palcos. A rapaziada o idolatrava: Radamés era mais jovem do que a gente, sempre com aquele impagável humor meio ranzinza. Cazes também é fundador da Associação Radamés Gnattali, que se empenha em reunir os originais de suas partituras, espalhados por todo o País. Aventura ingrata, por sinal: Ele via um sujeito tocar bem, se empolgava e escrevia uma música pro cara. Com um detalhe: dava de presente a partitura original e não tirava nem cópia.

Entre essas partituras tem uma - raríssima - de um arranjo para piano e sexteto de... caixas de fósforos. E também as dos concertos, para praticamente todos os instrumentos que se possa imaginar, e escritas sempre especialmente para algum amigo virtuose: flauta, violino, violão, gaita de boca (!), saxofone, bandolim, acordeom (!!), tumbadoras (!!!). Pra não falar num Divertimento para Marimbafone (?!?) e Orquestra, ou na citada e esplendorosa Suíte Retratos, pra bandolim, regional e orquestra de cordas.

Religiosamente, Radamés defendia o exercício como um mal tão necessário para o compositor quanto o é para um violinista que estuda oito horas por dia ou um atleta que corre 20 quilômetros toda manhã. Ele mesmo, até quando a saúde permitiu, acordava todos os dias às quatro e escrevia até as dez. Cazes conta que muitas vezes a febre de compôr do velho era tão grande que não o preocupava se o que escrevia ia ser tocado algum dia ou não. Paulinho da Viola é outro que lembra: Ele escreveu coisas para naipes absurdos, que ele sabia que nunca ia ouvir. Mas não importava: escrevia assim mesmo. Um detalhe interessantíssimo é que Radamés escrevia verticalmente (explica-se: normalmente o arranjador escreve primeiro a melodia, depois o baixo, a harmonia e assim vai. Radar escrevia todas essas coisas ao mesmo tempo, um compasso de cada vez).

Paulinho sempre foi um tímido fã de Radar. O observava de longe, escondido atrás de seu pai, César Faria, violonista do Regional Época de Ouro - fundado por outro grande amigo e inspirador de Radamés: Jacob do Bandolim. Paulinho e Radar só foram se conhecer de verdade em 1980, quando o primeiro compôs em homenagem ao segundo o chôro Sarau para Radamés. Paulinho o convidou para tocarem a música juntos, em um especial da Globo: ele pegou a partitura, que era difícil, e saiu tocando. Sabia tudo. Luís Carlos Braga, um dos fundadores da Camerata Carioca, fez parte do conjunto que gravou o Sarau num disco de Paulinho. Ele até hoje se diverte lembrando das caretas de mal disfarçada impaciência do velho a cada vez que alguém na banda errava e tinham de começar tudo de novo. Evidentemente nunca era Radamés o autor da falha.

(A propósito da fantástica capacidade de leitura e improvisação de Radamés, o gaúcho Marcelo Sfoggia, dentista e doutor em gravações, lembra de uma fantástica noitada em sua casa, nos anos 70, reunindo Radamés e Paulo Moura. Sem parar de conversar, Radar deu uma rápida passada de dedos pelo teclado do piano da sala de Marcelo, aparentemente distraído. Imediatamente em seguida, saiu tocando. Na rápida passada de dedos, memorizara as diversas teclas que estavam desafinadas ou emperradas. Na hora de tocar, substituía esta ou aquela nota por outra, e o piano soava perfeito.)

Outro dos mais aplicados discípulos de Radamés, Rafael Rabello definia Radamés como um visionário, um anarquista. E completava: O que o Villa-Lobos fez com o Brasil folclórico e rural, Radamés fez com o folclore urbano brasileiro. Mais ou menos o que George Gershwin fez nos Estados Unidos. Ele nunca deixou de ser um anarquista, como o pai italiano e grevista. Mas, acima de tudo, era um humanista. Sem excessão, ajudou todos os grandes nomes da música brasileira. Rafael lembra que foi seu mestre quem montou a primeira orquestra de música popular brasileira, e também foi um dos primeiros a gravar com bateria no Brasil. E que também foi, justamente por isso, muito acusado de jazzista pelos puristas de então. O que, por sinal, enfurecia Tom Jobim pela semelhança com o que aconteceu com o próprio Jobim nos anos 60: a crítica, como sempre, completamente por fora.

Rafael, Henrique, Paulinho e Tom quando falaram para as entrevistas (feitas em 91) que deram neste perfil, foram unânimes em lembrar que, além de grande músico, Radamés também era um grande sujeito. E dono de um mau-humor cultivado cuidadosamente, e que fazia a delícia dos habitués da sua mesa cativa no Restaurante Lucas, em Copacabana. Era ali que todos os finais de tarde - quando saía da TV Globo, onde trabalhava como arranjador -, ele se encontrava com os amigos. Todos numa faixa etária restritíssima entre os 20 e os 80 anos. Mas, cá entre nós, preferencialmente entre 20 e 30. Henrique conta: Ele nunca gostou de conviver com velhos. Ele gostava é que carregassem ele pros lugares. Quando a gente viajava com a Camerata, parecia uma criança sem a mãe: comia vatapá à meia-noite e depois a gente ainda tinha que sair caminhando pra ele fazer a digestão. Aluísio Didier, maestro, pianista e companheiro de Rede Globo, discorda um pouco: ele era um homem de muitos amigos, de amigos que duraram 30, 40, 50 anos, um cara muito afetivo. Aluísio, por sinal, coletou ao longo dos anos uma série de tiradas do seu herói, transformadas num precioso livro-home-video chamado Radamés. Uma única: em plena mesa do Lucas, o papo-cabeça rolava solto há horas. Discutiam sobre se Vivaldi, o compositor barroco, era ou não repetitivo. E Radamés quieto, visivelmente enfadado. Depois de dezenas de argumentos e outros tantos chopes, cansaram da discussão e ficou um daqueles silêncios súbitos em que se arma o próximo assunto. Só então, olhando pro fundo do copo de chope, o velho resmunga: O Vivaldi era o Martinho da Vila do Barroco. Discussão encerrada.

Só mais uma, que essa também é boa, contada pelo Henrique. Sempre que lhe perguntavam se ele ainda era simpatizante do Partido Comunista, como o fôra na juventude, Radamés respondia: os comunistas me diziam: "faz a tua música que nós fazemos a revolução." Eu fiz uma porrada de músicas e eles até agora nada! Mais uminha, pra fechar: o cantor de protesto Taiguara, no auge de sua fase mais inflamada, lhe encomenda um arranjo. Radamés chega no estúdio, entrega as partes, e os músicos dão uma primeira passada. Taiguara se extasia, lhe abraça e diz, com os olhos cheios d'água: Radamés, esse arranjo é uma vitória do proletariado! Sem nem afastar nem retribuir o abraço, o velho devolve, indiferente: Vitória do Proletariado, uma porra, Taiguara. Esse arranjo é meu!


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