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Paulo Sérgio Santos

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A clarineta que traduz a alma musical brasileira , por Mauro Dias

Certos discos, pouquíssimos, ouvidos, fazem pensar que a linguagem musical por que se pautam chegou à perfeição. Gargalhada, segundo CD-solo de Paulo Sérgio Santos é um deles. É um lançamento da gravadora Kuarup. A mesma que lançou, em 1995, o primeiro solo do clarinetista, Segura Ele, ainda em catálogo.

Há uma quase unanimidade entre músicos e amantes da música: Paulo Sérgio Santos é o maior clarinetista brasileiro de todos os tempos. Assim achava Abel Ferreira, que o tinha como seu afilhado musical. Assim pensam Guinga, Maurício Carrilho, Pedro Amorim, Luciana Rabello e a turma que faz e ouve samba e choro.

Gargalhada é um disco de feitura econômica. Menos pelo custo - mais porque o trio que nele atua é bastante para a música maravilhosa que faz: a clarineta de Paulo Sérgio, o violão de seis cordas de seu filho, o jovem - tem 19 anos - Caio Márcio e a percussão delicada de Oscar Bolão.

São virtuoses, os três. São instrumentistas que se põem a serviço da música (ao contrário de tantos que usam a música para mostrar serviço, exibir técnica, explorar efeitos, abusar de escalas, explorar habilidades manuais).

No repertório, a predominância de choros, mas também polcas, maxixes, corta-jacas, os gêneros formadores do choro que, apesar de formadores, não se perderam na liguagem formada.

De fato, Gargalhada traça uma breve história do choro, de seus fundadores aos que o projetam para o futuro como gênero vivíssimo, contemporâneo, de fronteiras abertas. O choro do título do CD é de Pixinguinha, que teve outras duas obras escolhidas para o repertório: Cuidado, Colega (com Benedito Lacerda) e Choro de Gafieira. Anteriores ao mestre do saxofone e da flauta, estão lá Anacleto de Medeiros (Três Estrelinhas) e Chiquinha Gonzaga (Angá). Posteriores, Hermeto Paschoal (com o clássico Bebê), Maurício Carrilho (Alumiando, parceria com João Lyra) e Guinga, com três números: Nítido e Obscuro, Canibaile e Caiu do Céu. Este último guarda, no trocadilho, a homenagem do compositor ao filho de Paulo Sérgio, Caio.

Completando a seleção, três faixas assinadas por Paulo Sérgio - as três primeiras que apresenta ao público: Choro Sambado, Homenagem ao Abel e Samba Chorado. "Quem me fez mostrar minhas composições foi um jornalista lá de Juiz de Fora", conta o clarinetista. "Ele assistiu a um show meu e veio conversar. Disse que faltava alguma coisa, faltava música minha; estava convencido de que eu sabia compor."

E sabia, sempre soube. Só não havia, antes, mostrado. "Quando comecei a tocar com o Guinga, nos anos 90, fui pegando o gosto pela composição, mas guardei o que fazia", diz. Revelou-se, por fim, compositor à altura da excelência do instrumentista.

Paulo Sérgio Santos é carioca, nascido no dia 8 de julho de 1958, no subúrbio de Piedade, e foi criado em outro subúrbio, Quintino Bocaiúva. São, tradicionalmente, bairros de chorões - afastados do centro, abrigam as rodas de fim de tarde em que os violões, bandolins, flautas, clarinetas, pandeiros, cavaquinhos terçam notas, combinam ritmos: onde se manteve sempre a tradição do choro do Rio.

Mas ele não começou no choro. Nem mesmo começou tocando clarineta. Seu primeiro instrumento foi uma gaita de boca. O pai a comprou. Largou-a sobre o sofá. Paulo Sérgio tinha pouco mais de 3 anos. Quando o pai voltou, o menino estava tocando músicas que ouvia na igreja.

Na igreja? A família freqüentava uma, evangélica. Hoje, Paulo Sérgio tem "horror" a religiões organizadas em seitas, mas, naquela época, não tinha como não ir aos cultos. O que foi bom para a sua formação musical. Cantava no coro. Aos 11 anos, o regente da orquestra e do coro da igreja o fez estudar solfejo. Paulo Sérgio queria tocar flauta. "O cara praticamente me obrigou a pegar a clarineta", lembra. "Tinha sido chorão, tocado em festas, um contador de histórias", recorda. "Pouco depois, conheci o clarinetista José da Silva Freitas, que era militar, hoje é clarinetista da Orquestra Sinfônica Brasileira. Ele era um músico acadêmico, mas passou a ser meu ídolo musical."

O desenvolvimento do instrumentista adolescente foi muito rápido - mas ainda longe do choro. Conheceu o violonista Tilde, que havia tocado com Pixinguinha e que o levou a uma roda de choro em Cascadura, na Rua Caparaó, reduto de feras - mas foi só coisa de olhar.

Paulo Sérgio passou a estudar com o clarinetista José Botelho; fez curso na escola de preparação de músicos da Orquestra Sinfônica Brasileira, participou de concertos, ganhou prêmios e - aos 16 anos - entrou para o Quinteto Villa-Lobos, que era integrado por músicos experientes, consagrados - Aírton Barbosa, Carlos Gomes, Carlos Ratto e Brás Limonge.

Com o Quinteto Villa-Lobos viajou Brasil inteiro, América Latina, outros continentes, gravou diversos discos. Aos 18 anos, tornou-se - de cara - primeiro clarinetista da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. No lugar do mesmo José Botelho que havia sido seu mestre. Ficou 18 anos na orquestra.

"É curioso, mas achei muito fácil tocar na Sinfônica, onde sua execução fica diluída no corpo da orquestra. Eu vinha de um quinteto camerístico e era o único clarinetista - não tinha direito ao erro." E, além da perfeição exigida, o Villa-Lobos ofereceu-lhe a oportunidade de ser ouvido pelo mundo do choro.

"Considero que as duas melhores escolas para músicos são o conjunto de câmara e o mundo do choro", diz Paulo Sérgio. Pois nesse mundo conheceu o violonista Raphael Rabello, com quem tocou muito, e, por ele, foi apresentado a Guinga, com quem passou a tocar.

Formou, com o violonista Maurício Carrilho e o bandolinista (e violonita-tenor) Pedro Amorim o grupo O Trio, vencedor de dois prêmios Sharp, em 1995: o de melhor grupo instrumental e melhor disco. Ainda em 1995, ganhou o prêmio Sharp de revelação como solista instrumental, pelo CD Segura Ele.

Paulo Sérgio é hoje um músico respeitado no mundo inteiro. Viaja, dá aulas, faz conferências, ensina música - fala de música brasileira, que é a que mais lhe importa. "De vez em quando vem alguém e diz que fulano, sicrano, eu mesmo, estão, estou, 'revivendo', 'fazendo renascer' 'revitalizando' o choro. Besteira, o choro nunca morreu. O choro é uma praga, não morre. O que acontece é que as pessoas param de ouvir, porque não toca no rádio, na televisão."

Seus cursos de pós-graduação em universidades norte-americanas e européias servem para que sirva melhor ao choro. Paulo Sérgio Santos toca ainda saxofone ("mas não me considero um saxofonista"), clarone. Atividades de professor, durante cinco anos na Uni-Rio, e de regente da Camerata da Universidade Gama Fiho, ajudam a formar novas gerações de chorões.

Enquanto tais gerações se formam e preparam-se para vir à tona, fica o alumbramento de ouvir os discos de Paulo Sérgio. Se existe uma alma musical brasileira, ele a traduz no mais nítido possível dos contornos.


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