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Nenê do Cavaco

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SEU NENÊ DO CAVAQUINHO

Para muitos o sr. Álvaro Matheus é o Cartola de Campinas. Para nós, no entanto, ele é apenas o Seu Nenê do Cavaco, a maior referência viva do samba campineiro quando o assunto é cavaquinho.

Negro miúdo, de gestos e palavras delicadas, Nenê pode ser visto nas imediações do Viaduto Cury, nas lojas abandonadas da Galeria Pajé, onde, entre fotos, partituras e recortes de jornal, recebe seus alunos. Todo sambista de Campinas quer ser discípulo do homem calado que perambula pela Vila Costa e Silva com seu inconfundível chapéu preto e seu cavaquinho cheio de histórias.

Compositor e integrante da velha guarda da Escola de Samba Estrela D'Alva, Seu Nenê é ganhador de muitos carnavais. Sua história de vida se confunde com a história do samba de Campinas feito nos últimos 50 anos.

Como instrumentista, acompanhou nomes sagrados da música brasileira, como Orlando Silva e Noite Ilustrada.

Atualmente, seu filho Jorge Matheus tem levado pra frente a bandeira do samba, pois é cantor, compositor e percussionista do grupo do Cupinzeiro.

Aos 67 anos de idade, uma vida inteira dedicada à música, ele não se queixa de nada: "Deu pra viver decentemente e criar bem os filhos", diz. Mora numa casa simples, onde recebe amigos, na Vila Costa e Siva, o lugar que viu nascer e que adora.

É um apaixonado pela cidade, principalmente pela Rua César Bierrembach, onde costumava passear. Há oito anos não se apresenta em público. Com um pouco de sorte é possível encontrá-lo no final de tarde, dando uma canja com o filho Jorge Matheus num barzinho da Praça Antônio Nica, na divisa dos bairros
Santa Genebra e Costa e Silva. Lugar onde uns poucos privilegiados aproveitam a boa música produzida na cidade.

Abaixo entrevista concedida ao jornalista João Baptista César, do Correio Popular de Campinas:

- O senhor é campineiro?

- Eu sou campineiro. Nasci em Pernambuco, fui registrado em Itirapina como nascido em Campinas, em 26 de outubro de 1934.

- Onde chegou na cidade?

- Cheguei no bairro Guanabara, para morar na Rua José Paulino, hoje lá é um clube de malha, de bocha, bem em frente à Fonte São
Paulo. Tinha sete anos.

- Como o sr. virou músico?

- No começo da década de 40, morei um tempo em Indaiatuba. Na minha rua havia umas 10 ou 12 crianças e o pai de uma delas tinha orquestra, o Gonçalves Teixeira. Desde o começo, eu ficava com o cavaquinho. Aí começamos a tocar, a treinar e o seu Gonçalves, que era maestro, ensinava. Aos dez anos, já tocava meio de ouvido no conjunto "Os Sete Camaradas". Então minha
família voltou para Campinas e comecei a estudar de verdade.

- Qual era seu repertório na época?

- Em 1953, tocava samba-canção, bolero, baião, maxixe. O grande sucesso era o Pixinguinha, o Adelino Moreira, o Francisco Alves. Comecei a tocar muito, a estudar de verdade, a melhorar.

- E depois?

- Na década de 60, durante quatro anos toquei na Rádio Clube de Americana. Um dia o Edgard de Souza, hoje gerente do "Flor de Liz", me convidou para tocar no conjunto dele, o "Os Acadêmicos do Samba". Aceitei o convite e o conjunto começou a fazer sucesso. Quando "O Cangaceiro" inaugurou em 1969, fomos os primeiros a nos apresentar.

- Como era o ambiente musical na cidade?

- O que mais rolava era boate. Na Época tinha o "Armorial"; tinha "A Princesinha", na Barão de Jaguara, que antes se chamava "El Cairo". Tocava no "Etnia", no Castelo, no "Buzon". Trabalhei nas melhores casas de Campinas.

- Onde eram os pontos de boemia dos músicos?

- O principal era na General Osório com Júlio de Mesquita, o City Bar. Lá se podia encontrar o Paulinho da Viola, o Rago, Seu
Hermano Vidira, um pandeirista muito bom, o Carioquinha, Luiz Melodia, Carlinhos Meck, o Germano Matias, o Roberto Luna. Era um lugar
frequentado pelos melhores artistas. Em 1970, vivia-se um tempo que um queria fazer mais coisa que o outro. Outro ponto era o "Bar da Linguiça", na João Jorge, todo artista que vinha para Campinas tinha que parar ali. Raul Gil, Nélson Gonçalves, o saudoso Altemar Dutra, Luiz Melodia , Esmeraldino do Cavaquinho foram alguns dos que passaram por lá.

- E as canjas onde aconteciam?

- Naquela época a canja era frequente. Nesses lugares todos os músicos se reuniam para tocar. Antigamente qualquer grande artista
fazia som na calçada, no banco do jardim. Me lembro do Paulinho Nogueira tocando perto da estátua do Carlos Gomes.

- Quem você coastumava acompanhar?

- Como existiam poucos cavaquinistas na época, eu era convidado para acompanhar os artistas famosos que vinham para Campinas,
para Valinhos, e mesmo para São Paulo. Toquei com Eliana Pitmam, com a Elis Regina, com a Beth Carvalho - e ela também toca cavaquinho. Foi a Beth quem trouxe o conjunto "Fundo de Quintal" para cá. Acompanhei o Noite Ilustrada e o Orlando Silva, duas vezes, no Teatro Municipal, que não tem mais, quando ele veio para cá em 54 e 55.

- Como se vestia para tocar?

- Eu costumava usar um chapeuzinho Nat King Cole, com uma peninha. Também tive chapéu Ramezzoni, Cury que er muito famoso na época. Embora, aquela cuiquinha do Nate King Cole, marrom ou preto fosse o preferido. Terno era obrigatório em qualquer lugar. Eu confesso que sempre fui meio luxento. Nos conjuntos se usava terno e gravata, depois foi mudando pra roupa fantasiada.

- Era um tempo de luxo?

- Era um tempo diferente. Campinas tinha na época o título de "Terra do Orgulho". Se alguém descesse com uma roupa de manhã e a usasse de novo à noite, era o suficiente, a fofoca começava. Foi a música que começou a misturar brancos e pretos em Campinas. O encontro era no Largo do Rosário aos sábados e domingos. Na Barão de Jaguara só andavam brancos e na Francisco Glicério só os pretos ficavam. Era tudo dividido mesmo, em termos de passeio, até o meio do Largo do Rosário, lá se tocava uma musiquinha. O Fernando Didieri, um dos sócios do "El Cairo", era branco e tocava pandeiro e cantava. E brancos e pretos começaram a se encontrar. No final eu, o Didieri, o Carioquinha, o Leleca, Joãzinho Batista, um grande violonista, tocávamos na esquina do Éden Bar e na esquina da Barão de Jaguara com a Conceição, no "Ideal". Ali os pretos chegaram devagarinho e foram bem recebidos.

- Na época havia muito racismo?

- Havia. Lembro um dia que eu estava subindo no bonde do Cambuí com o cavaquinho na mão. Campinas era pequena e o racismo se sentia principalmente no bonde. Se um negro se sentasse, as mulheres brancas se levantavam. Aconteceu comigo e eu pedi por favor para a senhora se sentar de novo.

- Cavaquinho era coisa de preto?

- O cavaquinho não era bem visto, quem tocava era considerado vagabundo. Hoje é tudo misturado, tenho mais alunos brancos que
negros. Antes, tinha amigos brancos que queriam aprender e o pai falava que era instrumento de preto. Hoje há muito branco que toca melhor que negro. O Royce do Cavaco é branco e é grande. O Beto Carioca, daqui, teve aula comigo e toca muito. A música
começou a quebrar essa separação de raça.

- E a Vila Costa e Silva?

- Foi aqui que eu comecei a escolinha. Mudei para cá em 1970 e ficamos dez meses sem água e sem luz. O bairro estava se formando; acho que fui o segundo morador da rua.

- Participava das escolas de samba?

- Primeiro tinha a "Voz do Morro" e a "Estácio de Sá". Aí surgiu a "Princesa do Oeste", no São Bernardo. Um pouquinho antes haviam os cordões: "Marujos", "Leões da Várzea" e "Patos", que se reuniam onde hoje é o Posto de Gasolina Três Avenidas ( Orozimbo
Maia, Brasil e Dona Libânia ). Ali havia um chafariz com três cabeças de leão, a água saía da boca do leão e a gente descia a
escada para beber no chafariz. Acabaram com aquela beleza. A escola que eu mais me envolvi e durou pouco foi a "Mocidade
Independente de Campinas". Uma grande escola.

- Como foi seu encontro com a "Estrela D'alva", aqui na Vila Costa e Silva?

- Pra mim é a rainha das escolas de samba. Ela começou no Taquaral, é uma das escolas mais antigas de Campinas. Mas, me entrosei na "Estrela" aqui na Vila Costa e Silva. Quando me mudei ninguém morava aqui. Então os cabeças da escola, o Beiçola, que era bugrino, mas boa pessoa, mudou pra cá. Eu sou pontepretano, ele era bugrino roxo. Nós enchíamos ele, que era barrigudo, que ele era um negão "barriga verde". Então comecei a musicar muitos sambas deles. Sou muito ligado com a compositora, a Pepa, ela canta muito bem e até toca um pouco de cavaquinho. Diversos sambas da escola fui quem musicou. A "Estrela D'alva" este ganhou pela quinta ou sexta vez consecutiva. A Tia Iná, a Claudinéia, filha do Beiçola, depois que pegou a escola nunca mais perdeu. Agora eu só assisto e colaboro com a escola.

- O sr. é o Cartola de Campinas?

- Eles falam, né... Eu fiz muita coisa na vida, mas não posso falar que sou... Me formei junto com Campinas que se desenvolveu
muito. Sou fruto desse crescimento.

- Como era o tempo das rádios?

- No começo participei da orquestra da Rádio Clube de Americana. Naquele tempo a televisão estava nascendo. Em Campinas me apresentei muito no auditório da Rádio Brasil, na Rua Barão de Jaguara, na Galeria Trabulsi, e na PRC-9, Educadora de Campinas, na Regente Feijó com Barreto Leme. Toquei também no alto-falante do Largo do Rosário. A gente ficava no terraço e o pessoal assistia lá embaixo. Aos domingos, a gente acompnhava os cantores, os calouros... Era a Rádio Janela, que começava às 18h30 e ia até as 22 horas. Bem em cima do Giovanetti. Outro lugar que se fazia um bom samba de rua era no Mercadão. A Rua Álvares Machado vinha até a Rua Barão de Itapura, só depois fizeram as pontes e os viadutos. Existiam bares bons de tocar. Era como hoje, bar só enchia quando tinha música. Era um monte de bar, um do lado do outro.


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