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João Donato

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BRUNO RIBEIRO

Quando se fala em bossa nova, qual é o primeiro nome que lhe vem à cabeça? Depois de João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, na certa a enorme maioria vai pensar em Carlos Lyra, Johny Alf, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli. Poucos se lembrarão de João Donato. No entanto, seja ele, talvez, o grande precursor do movimento.

Quando João Gilberto surge no divisor de águas Chega de Saudade, muitos especialistas viram naquela nova batida de violão os ecos do acordeão de Donato. Embora soasse mais organizada e compacta que os sons que se ouviam nas jam
sessions da boate Plaza (na qual Donato era a atração maior), a nova musicalidade estava impregnada de referências sonoras que evocavam o estilo do João menos conhecido.

Nas palavras do irmão e parceiro Lysias Ênio, Donato sequer chegou a fazer parte da bossa nova. Foi, no máximo, o responsável pela "inseminação artificial". Sempre dentro de tudo o que estivesse relacionado ao movimento bossanovista, esteve ao mesmo tempo fora dele. Não importava o que estivesse tocando: acordeão, piano ou trombone, qualquer que fosse o instrumento ou o gênero musical, Donato sempre tocava para si próprio, o que levava à loucura os contrabaixistas e bateristas que se esforçavam para acompanhá-lo.

Quando conheceu pessoalmente João Gilberto, no início dos anos 50, Donato era um músico mais evoluído e já possuía a fama de excêntrico. Tornaram-se amigos inseparáveis, já que as afinidades não ficavam apenas no plano musical; tinham também o mesmo comportamento imprevisível e anti-social. Juntos, faziam visitas periódicas ao Instituto Pinel, em Botafogo, só para observarem os loucos. Sabe-se lá por que faziam programas do tipo, mas a verdade é que por estarem sempre juntos acabaram acentuando suas esquisitices e, mais importante, suas experiências musicais.

Pode-se dizer que o encontro dos dois Joões foi de extrema importância para os rumos que a música brasileira tomaria nos anos subseqüentes.

João Donato de Oliveira Neto nasceu no Acre, em 17 de agosto de 1934, mas passou a infância e a adolescência nas praias do Rio de Janeiro. Tinha uma relação sufocante com o pai, um rigoroso major da aeronáutica sempre pronto a castigar o garoto a cada nota baixa na escola. Aluno relapso e indisciplinado, Donato repetiu quatro vezes o ginásio, até decidir abandonar de vez os estudos, em 1949. Para ficar o maior tempo possível longe de casa, passou a andar com os amigos músicos, que freqüentavam diariamente os bares cariocas onde se tocava violão e conversava sobre música. Nessa época o menino já tocava muito bem o acordeão.

Seu refúgio era o lendário Sinatra-Farney Fan Club, localizado no porão da casa de uma amiga cantora, na Tijuca. O espaço teve apenas 17 meses de vida, - de fevereiro de 49 à julho de 50 - mas nesse tempo
comportou músicos extraordinários, todos eles meninos que não ultrapassavam os dezesseis anos de idade. A lenda que se criou ao redor do Fan Club compara-o ao Minton´s, na rua 118, em Nova York - onde todos os gênios do be-bop se formariam. Mas o Sinatra-Farney não era um clube noturno, de ambiente enfumaçado e tilintar de copos. A polícia e a vizinhança não deixavam que o som passasse das dez da noite e, embora já fossem pequenos aspirantes à boêmios profissionais, os garotos estavam apenas começando a conhecer o mundo. Romantismo à parte, o clube foi sim uma verdadeira escola para aquela geração que mais tarde viria a criar a bossa nova.

Passaram por lá gente como Johny Alf, Paulo Moura, Nora Ney, Doris Monteiro e o próprio João Donato. Além de serem músicos e/ou cantores (requisito básico para serem aceitos no clube), eram fãs de carteirinha dos crooners Dick Farney e Frank Sinatra, que eram reverenciados durante as sessões de música. No porão havia um velho piano (a primeira paixão de Johny Alf) que acompanhava o acordeão de Donato. Inspirado no acordeonista americano Ernie Felicce, aos quinze anos de idade Donato já tocava melhor que seu ídolo.
O primeiro grupo que integrou chamava-se Os Modernistas, do qual ele era o arranjador. Muitos shows acabaram não acontecendo por causa de seus súbitos desaparecimentos. Como ele era o líder do grupo, sem a presença do acordeão os shows e bailes tinham de ser cancelados. Começava aí sua fama de indisciplinado; no fundo, era um músico tão
auto-suficiente que se dava o luxo de cometer pequenas irresponsabilidades, como ficar conversando sobre jazz com o primeiro que lhe desse corda - e varar a noite, deixando de lado os compromissos "profissionais". O grupo não teve vida longa.

Mais tarde, funda um outro grupo, com quase a mesma formação. Com o nome de Os Namorados, gravaram em 1953 uma nova versão para Eu Quero um Samba, sucesso na voz de Lúcio Alves. Devido ao arranjo de Donato, a nova versão conseguiu ficar ainda melhor do que a original. Foi o seu primeiro cartão de visitas. Neste novo registro, os baixos de seu acordeão quebravam o ritmo com uma avalanche de síncopes, produzindo uma batida de efeito desconcertante, que antecipava a do violão de João Gilberto, cinco anos antes de Chega de Saudade. Era tão "moderno" que na época ninguém entendeu nada. E eles não emplacaram de novo.

Só a partir de 1954 começou a ter empregos mais ou menos fixos. Tocou na Cantina do César junto com Johny Alf. A casa começou a ser freqüentada por um público fiel interessado em jazz. O modesto prestígio entre os fregueses da cantina fez com que fosse convidado, em 1957, para tocar na boate do Hotel Plaza. Quando Donato chega, ele se torna o responsável por fazer do local um reduto de músicos. Tocava-se de tudo na boate do Plaza, de jazz à baião. Só que Donato transfigurava o baião a tal ponto que, se Luiz Gonzaga entrasse lá por acaso, não seria capaz de reconhecer o ritmo que ajudou a criar.

Foi uma época de efervescência musical que durou até 1958, quando ele se tornou o músico mais respeitado do Rio. E, infelizmente, o menos confiável. Apesar de estar frequentemente sendo chamado para todo o tipo de eventos envolvendo música, ele continua faltando quando não estava disposto a ir.

Diziam que João Donato era indeciso e dispersivo porque ainda não havia decidido qual instrumento queria tocar. Oscilava entre o acordeão, o piano e o trombone. Um dia ele tomou todas no final de um baile e alguém roubou seu acordeão. Só então que, desmotivado a comprar outro, ele optou pelo piano.

Em 59, ninguém mais queria saber de chamar João Donato para nada. Passou a ter dificuldades até para tocar de graça. A medida que evoluía como instrumentista e arranjador, ampliava sua fama de maluco e irresponsável. Faltas, atrasos e excesso de aditivos acabaram tornando-o persona non grata nas casas de show do Rio de Janeiro.

Sem emprego, se mandou para os Estados Unidos a convite do músico Nanai, que o chamou para uma temporada. Acabou ficando treze anos.

Sua estadia na Califórnia marca o início de uma pequena revolução jazzística da qual ele foi participante ativo. Donato simplesmente conseguiu o que nunca pode fazer no Brasil: reincorporar a musicalidade afro-cubana ao jazz. Adotado por "cobras" do gênero latino como os cubanos Tito Puente, Mongo Santamaria e Johny Rodrigues e os
americanos Herbbie Mann e Eddie Palmieri, João Donato abriu caminho para que, mais tarde, João Gilberto e Tom Jobim fizessem o enorme sucesso que até hoje perdura no exterior.

No meio de todas aquelas congas, timbales e bongôs característicos do latin jazz, Donato encontrou finalmente o que procurara a vida toda no Rio: a possibilidade de rachar os sopros e incluir harmonias mais herméticas ao piano. Em breve, aqueles que um dia foram seus ídolos estavam incluindo em seus repertórios Amazonas, A Rã e Cadê Jodel?, composições de Donato que se tornariam standards do que viria a ser chamado de funky. Logo faria seus discos na Pacific Records e teria seu songbook gravado por outros jazzistas. Seu grande disco na fase americana foi A Bad Donato, uma infernal cacofonia free-jazzística com poderosa percussão afro-cubana. A melhor faixa: The Frog.

Ao voltar para o Brasil, João Donato reencontrou-se com a música brasileira, mas não abandonou sua paixão pela fusão entre jazz e ritmos caribenhos. Estabeleceu-se como arranjador, participou de discos de Gal Costa, Giberto Gil e uma infinidade de outros grandes nomes, compôs com eles e continuou a se apresentar em casas de jazz no circuito
Rio-São Paulo.

Um músico que sempre pairou sobre tudo o que se fez em música brasileira a partir dos anos 50 e que, devido à sua mania de reclusão, ainda não se deixou (ou não deixaram, quem sabe) conhecer devidamente.

Correio Popular (Campinas, outubro de 2000)


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