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Beth carvalho

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ElizaBETH Santos Leal de CARVALHO (nascida em 5 de maio de 1946, no bairro da Gamboa, cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro) passou por diversas fases em seus mais de trinta anos de carreira, mas sempre manteve um compromisso: a qualidade daquilo que grava - e que tem sido, pra nossa sorte, quase sempre o samba. Desde o início da carreira, como cantora de bossa-nova, até hoje em dia, quando o samba de qualidade volta às paradas de sucesso, Beth gravou e cantou o que de melhor se produziu de samba no Brasil.

Cartola e Nelson Cavaquinho foram presenças constantes em seus discos dos anos 70 até meados dos 80, sendo que o último ainda tocou seu violão tosco e único em muitos deles. Outra presença constante nos discos de Beth é a Velha Guarda da Portela, apesar de Beth ser mangueirense roxa, verde e rosa. Além disso, Beth nunca se contentou apenas em gravar (com) os grandes nomes do samba de todos os tempos, mas também tem o costume de dedicar seus discos a eles: o primeiro foi dedicado a Clementina e o segundo a Elizeth, sem dúvida as duas cantoras que mais a influenciaram. Dedicou outros ainda a Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito; ao grande Dino 7 Cordas; ao mestre Cartola; às pioneiras do “samba de pagode”, dentre elas Dona Ivone Lara (que teve várias músicas gravadas por Beth e participou nos vocais de muitos discos seus), Tia Ciata, Tia Vicentina (a do feijão do Paulinho da Viola), Dona Zica e Dona Neuma da Mangueira, as tias Doca e Eunice da Portela; a Martinho da Vila e muitos outros, como músicos que a acompanham. Dedicou discos ainda à sua mãe, Dona Nair; à sua única filha, Luana; ao técnico de gravação de quase todos os seus discos, Luiz Carlos T. Reis; isso dá a idéia da grandeza do ser humano Beth Carvalho e do seu altruísmo, para além das suas indiscutíveis qualidades como intérprete maior do samba.

A carreira discográfica individual de Beth Carvalho começou na Odeon (hoje EMI), em 1969, onde gravou um LP e alguns compactos, cujas faixas hoje são encontradas apenas em coletâneas. Nestes discos, Beth já mostra a grande cantora que é. Os compositores que ela grava são de qualidade indiscutível: Baden Powell, Paulo César Pinheiro, Vinícius de Moraes, Carlos Lyra e Chico Buarque de Hollanda, Milton Nascimento, Lupicínio Rodrigues, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Marino Pinto e Paulo Soledade, Billy Blanco. O grande sucesso vem com “Andança” (Edmundo Souto / Paulinho Tapajós / Danilo Caymmi), terceiro lugar no 3º Festival Internacional da Canção, de 1968. A música foi gravada e deu nome ao seu primeiro disco e se tornaria imediatamente um clássico da Música Popular Brasileira, vindo a ser gravada por quase todas as grandes cantoras da época, como Maria Bethânia, Elis Regina e Nana Caymmi. A descoberta do samba – ou pelo menos de que é aquilo que Beth quer fazer pra sempre – vem com a gravação de “Só Quero Ver” (Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, de novo) em 1971. Segundo Vinícius de Moraes, no encarte do LP “Mundo Melhor”, de 1976: “O samba [“Só Quero Ver”] emplacou pra valer e ao vê-lo cantado nas rodas-de-samba de Salgueiro e Mangueira – Beth é mangueirense doente – sentiu ela mais do que nunca ser aquele o seu verdadeiro gênero: o samba tal como é praticado nas Escolas, sem apelações nem muita frescura nos arranjos. Sem subterfúgios. Aquele que entra pelos ouvidos e sai pelos pés, com trânsito em alta-voltagem nas cadeiras, tal uma corrente elétrica que vai aumentando de intensidade até que se descarrega.”

Em 1973 ela muda de gravadora, e na Tapecar começará a trajetória de Beth como o grande nome do samba brasileiro desde então. Serão três discos, todos excelentes. O primeiro, Canto Por Um Novo Dia, tem texto de apresentação de Sérgio Cabral, que diz:

"Se eu tivesse que inventar uma cantora, ela haveria (naturalmente) de ter uma voz muito bonita. Depois, eu a treinaria bastante para cantar bem, aprendendo os segredos da colocação da voz, das divisões, da respiração, da empostação, da naturalidade, essas coisas que se aprende na escola.
Mais tarde, diria a ela que isso tudo não basta. Uma cantora não é um instrumento musical. É uma pessoa, um ser humano e é fundamental que isso fique claro quando canta. As emoções, a tristeza, a alegria, a depressão, a angústia, tudo isso que uma música popular propõe tem que ser transmitido na hora de cantar. Depende muito dela que a música não seja raspada de suas sensações quando é transmitida.
E diria finalmente para cantar as coisas que vêm do povo. As músicas feitas pelos gênios do povo, impregnadas de talento e limpas das ambições comerciais e da neurose da novidade, tão próprias dos compositores de classe média. Sugeriria que ela servisse de ponte entre a cultura popular e o consumo, não deixando que o objetivo prejudicasse a origem. Teria que ser, portanto, uma cantora de muito talento.
Beth Carvalho me poupou este trabalho. Ela já existe."

Sérgio Cabral

Como se sabe, Beth respeitou rigorosamente, nestes 27 anos, tudo aquilo que o Sérgio Cabral afirmou tão cedo, naquele que pode ser considerado o debut; de Beth no samba. Aliás, num ponto Beth ousou – para o nosso bem - fugir daquilo pregado por Sérgio: Beth lançou, particularmente a partir do final dos anos 70, inúmeros compositores novos, que viriam a formar as novas gerações do samba e do pagode. Entre aqueles que consideram Beth sua madrinha estão Zeca Pagodinho, Luiz Carlos da Vila, Almir Guineto, Jorge Aragão, o grupo Fundo de Quintal, Arlindo Cruz e Sombrinha, e os mais recentes, "descobertos" neste ano, mas já com algumas músicas gravadas por Beth e fazendo shows com bambas como Dona Ivone Lara e Nei Lopes: o Quinteto em Branco e Preto.

Mas voltando ao Canto Por Um Novo Dia, nele estão canções como Se É Pecado Sambar (Manuel Santana), a Homenagem a Nelson Cavaquinho (Carlos Elias, portelense!), o frevo em louvor ao Recife Evocação Nº 1 de Nelson Ferreira, a pungente Velhice da Porta Bandeira (Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro), um dos grandes clássicos da dupla Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito: Folhas Secas, mais músicas de Mário Lago, Martinho da Vila, João Nogueira, Gisa Nogueira (Clementina de Jesus, homenagem à própria), Darcy da Mangueira e Mano Décio, além de outro Nelson Cavaquinho, menos conhecido (São Jorge Meu Protetor, com Noel Silva e Jorge Silva) e do folclore baiano Sereia, adaptado pela própria Beth, em um pot-pourri. Músicos? Tem Dino 7 Cordas, José Menezes, Luís Cláudio, Geraldo Vespar, Nelson Cavaquinho (no violão inconfundível em Folhas Secas), Luizão, César Camargo Mariano, Marçal, Chico Batera, Luna, Eliseu, Martinho da Vila e o conjunto Nosso Samba.

No ano seguinte (1974), é a vez de Pra Seu Governo. Mais Nelson Cavaquinho & Guilherme de Brito (Miragem e Falência, a primeira com o próprio Nelson tocando violão e nos dando o prazer de sua voz cantarolando no final); o sucesso 1800 Colinas; (Gracia do Salgueiro, compositor constantemente gravado por Beth na fase Tapecar); Maior é Deus (outro clássico, de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro). Canções também de César Costa Filho e Walter Queiroz, Monarco, Norival Reis e Vicente Mattos, Gisa Nogueira, Jurandir da Mangueira, Paulo César Pinheiro (em mais duas parcerias, com Maurício Tapajós e Edmundo Souto) e outro clássico, o que dá título ao disco, de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira. Arranjos de Paulo Moura e Orlando Silveira, que contam com quase todos do disco anterior e mais Alceu Maia, Déo Rian, César Farias, Wilson das Neves e Copinha.

Em 1975, Beth grava pela última vez na Tapecar. O disco se chama Pandeiro e Viola, mesmo título do sucesso de Gracia do Salgueiro. O disco é dedicado a Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, que contribuem com O Dia de Amanhã. O disco vem cheio de belos sambas, seja de compositores de gerações anteriores à de Beth (Noel Rosa, tão pouco gravado por ela, com Onde Está a Honestidade?; Monarco com o sucesso de Amor Fiel; Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, com Amor Sem Esperança; Walter Rosa com O Pior é Saber), seja da sua geração (a bela gravação de Gota d'Água, de Chico Buarque de Hollanda; Martinho da Vila, com Enamorada do Sambão; Gisa Nogueira e seu De Novo Desamor; os sempre presentes Edmundo Souto e Paulo César Pinheiro, não com um samba, mas com o bolero Cansaço). Outro sucesso é o samba Só Queria Ser Feliz, de Ruy Quaresma.

O primeiro disco pela RCA (onde Beth gravaria 12 discos anuais, todos já relançados no formato CD) sai no ano seguinte e se chama Mundo Melhor, título de uma parceria entre Pixinguinha e Vinícius de Moraes; e é este último quem escreve o texto de apresentação do disco. Beth é acompanhada - como se isso fosse novidade - por feras do quilate de Alceu Maia, Rosinha de Valença, Dino 7 Cordas e Zé da Velha (esse, segundo texto de Vinícius no encarte, pisando pela primeira vez um estúdio de gravação!). Eu poderia dizer que é um dos melhores discos de Beth, mas praticamente tudo que ela gravou na RCA é excepcional. Neste disco estão clássicos do repertório de Beth - e do samba brasileiro, o que talvez venha a ser o mesmo - como a divina As Rosas Não Falam, de Cartola, e Antes Ele do que Eu, de Paulinho Soares. Depois da crítica à corrupção no disco anterior (Onde Está a Honestidade?, de Noel Rosa), Beth, que sempre foi ligada ao brizolismo e ao PDT, tece críticas ao governo. Essa faceta marcará o seu trabalho daí pra frente e estréia neste disco, com duas pérolas do bom-humor: a divertida “Salário Mínimo”, de Alvarenga “O Samba Falado” e a deliciosa “Te Segura” (primeira vez que Beth grava uma das maiores duplas do samba: Wilson Moreira e “Neizinho” Lopes – a música foi recentemente regravada por Beth com o grupo Farofa Carioca, no CD “Casa de Samba 3”). As outras músicas de “Mundo Melhor” não ficam devendo nada em qualidade a essas: “Quero Alegria” (a sempre presente parceria Nelson Cavaquinho – Guilherme de Brito), “Volta pro Morro” (Martinho da Vila), “Se Você Quiser” (Gracia do Salgueiro), a homenagem de Ruy Quaresma ao choro e ao cavaco “Cavaquinho Camarada” (tendo como música incidental “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo), “Meu Escudo” (Delcio Carvalho e Noca) e “Com a Vida Que Pediste a Deus” (Ismael Silva, outro bamba a quem Beth presta homenagem).

Como se isso fosse uma coisa comum, o disco de 1977 é ainda melhor. Aliás, isso vai acontecer com naturalidade pelo menos nos próximos 5 anos. Nos Botequins da Vida é aberto por mais um sucesso da “crítica econômica” de Beth: “Saco de Feijão” (Francisco Santana, bamba portelense). Outro grande sucesso é “Olho por Olho” (Zé do Maranhão e Daniel Santos). Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito não só contribuem com a pérola “Se Você Me Ouvisse”, como também ganham singela homenagem de Edmundo Souto e Joaquim Vaz de Carvalho, repleta de alusões a músicas da dupla (“Sempre Só”). Se não bastasse, é o disco em que Beth grava mais um “top hit” de Cartola: “O Mundo é um Moinho”. A moça não se contenta em imortalizar Nelson Cavaquinho e passa a fazer o mesmo e com igual freqüência com o mestre Cartola! Outra delícia que faz parte do disco, com a participação especialíssima da Velha Guarda da Portela, é “Carro de Boi” (Manacéa). Quer mais? Então tome: esse disco tem também mais Alvarenga, o “Samba Falado” (“Lá Vem Ela Chorando (Dinheiro Não Há)”, parceria com Benedito Lacerda e primeiro samba-enredo da Portela, como esclarece Beth no início da gravação). Tem também Paulinho Soares (a dolente e ao mesmo tempo alegre “Deus Não Castiga Ninguém” e a pungente “As Moças”, esta última parceria com Paulo César Pinheiro); a belíssima “Vingança” (Carlos Cachaça, completando a divina trindade mangueirense); “Cuidado com a Minha Viola” (Gracia do Salgueiro); “Desengano” (Aniceto). Um dos melhores discos de samba de todos os tempos, pra ser ouvido e amado por todos aqueles que prezam o samba.

No disco seguinte - De Pé no Chão, 1978 - as pérolas continuam a se suceder. Pra começar, é o disco em que Beth grava pela primeira vez Jorge Aragão (o sucesso “Vou Festejar”, parceria com Neoci Dias e Dida). O Cacique de Ramos participa da cozinha e Jorge Aragão toca violão. É a descoberta do Cacique, que será gravado ainda mais no disco seguinte, e daí por diante, até hoje. Além disso, o disco é recheado de clássicos, desde os Cartola (“Que Sejam Bem-Vindos”) e Nelson Cavaquinho – Guilherme de Brito (“Meu Caminho”) de praxe, até bambas mangueirenses (Nelson Sargento e seu cartão de visitas “Agoniza Mas Não Morre”, fechando o disco; “Ô Isaura”, de Rubens da Mangueira) e portelenses ( “Você, Eu e a Orgia”, deliciosa parceria de Candeia e Martinho da Vila, seguido por três da Velha Guarda: “Lenço”, parceria Monarco – Francisco Santana; “Passarinho”, música de Chatim; e “Linda Borboleta”, parceria Monarco – Paulo da Portela). Completam o disco a crítica à descaraterização do carnaval de Nenem e Pintado (“Visual”) e um dos primeiros “hits” de Wilson Moreira e Nei Lopes: “Goiabada Cascão”.

Os LPs de Beth vão ficando cada vez mais soltos, com a gravação das faixas como se os músicos estivessem num verdadeiro “pagode”, e isso vai desembocar no histórico Beth Carvalho No Pagode, obra-prima de 1979. Como explica Beth no encarte, após dedicar o disco às pioneiras do samba de pagode, “Pagode é, para poucos brasileiros que não sabem, não só a reunião onde se brinca de samba, se canta de tudo, se bebe, se come, como também é a própria música cantada pelo sambista. Em vez de dizer: ‘Ô fulano, canta um samba aí’, o sambista diz: ‘Leva um pagode aí meu cumpadre...’”. A primeira faixa é aquela que viria a ser o maior sucesso de Beth, obra dos novos bambas do Cacique de Ramos (Jorge Aragão, Almir Guineto e Luiz Carlos). “Coisinha do Pai” fez tanto sucesso que se tornou, quase vinte anos depois, o primeiro samba espacial, ao ser utilizado, por indicação de uma brasileira funcionária da NASA, para “acordar” um robô em... Marte! O disco tem mais dois pagodes do pessoal do Cacique, também sucessos (o disco todo foi um sucesso!): “Pedi ao Céu” e “Tem Nada Não” (ambos de Almir Guineto e Luverci Ernesto, o segundo com mais Jorge Aragão). Além disso, eles participam mais uma vez da cozinha e Jorge Aragão toca violão. É nesta mesma época que o Cacique introduz novos instrumentos no samba através dos discos de Beth, como o banjo de Almir Guineto, o tam-tam e o repique de mão. Outros músicos que participam: Dino 7 Cordas e Rafael Rabello, violões de 7 cordas; Luiz Gonzaga, sanfona; Wilson das Neves, bateria... O coro conta com Dona Ivone Lara, a irmã-cantora Vânia Carvalho, as pastoras Eunice e Doca da Portela, Nadinho da Ilha, Arlindo Cruz e outros.
Cartola não é gravado neste disco, mas Nelson Cavaquinho sim - excepcionalmente sem Guilherme de Brito, com “Beija-Flor”, parceria com Noel Silva e Augusto Tomaz Jr. Bambas da Velha Guarda da Portela (Manacéa e Monarco na singela “Obrigada Pelas Flores”, com a participação da própria; Dida e Dedé da Portela com o sucesso “Senhora Rezadeira”) e da Mangueira (Rubens da Mangueira, com Ivan e Luiz Grande em “Xô, Gafanhoto”), além da maravilhosa Dona Ivone Lara de “Não Chora Neném”. Tem também um belo “pagode-rural” de João Rios e do baiano Walmir Lima (“Dindinha Lua”); “Meu Sexto Sentido”, outro grande sucesso do repertório de Beth (Talismã / Raymundo Prates) e uma regravação de “Andança” fechando o disco.

Sentimento Brasileiro é seu disco de 1980, que abre com o grande sucesso “A Chuva Cai” de Argemiro e Casquinha. Recentemente, em entrevista na MTV, "Seo" Argemiro explica com a simplicidade que lhe é peculiar: “...Eu estava no barraco e comecei a brigar com a minha nega. Ela queria porque queria me abandonar e eu implorando pra ela ficar. Pra minha sorte começou a chover forte. Na mesma hora comecei a cantarolar "A chuva cai lá fora, você vai se molhar". No dia seguinte levei a idéia pro compadre Casquinha que terminou de fazer o resto. O samba foi sucesso e a nega ficou comigo...”.
Outros compositores da Velha Guarda marcam presença: “Você pensa que eu me apaixonei” é de Monarco e Alcides “Malandro Histórico” e a belíssima “Silêncio” é do saudoso Chico Santana. O mestre Delcio Carvalho assina juntamente com Otacílio o samba “Sentimento do Povo”. Jorge Aragão, presença constante nos discos de Beth, comparece com “Herança”, em parceria com Adilson Victor e Luiz Carlos da Vila. Outro compositor muito querido por Beth é o grande Noca da Portela, autor do samba “Rochedo” em parceira com Zé do Maranhão: “Amigo essa vida num tá boa / O sufoco vem da proa / Desse barco que é a vida / E nessa briga / Da maré contra o rochedo / Sou marisco e tenho medo / De não ter uma saída.”

“Chorando Pela Natureza” é de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, uma dupla de bambas que dispensa qualquer comentário. Beth Carvalho compositora? Pois é de sua autoria, em parceria com Paulinho Tapajós, a faixa “Canção de Esperar Neném”. Como não poderia deixar de ser, Nelson Cavaquinho e Cartola comparecem, respectivamente, com as faixas “Voltei” e “Consideração”, esta última uma pérola única do Cartola com Heitor dos Prazeres. Mas, sem sombra de dúvida, é Luiz Carlos da Vila o responsável por um dos momentos mais emocionantes deste álbum antológico. É dele o samba “O Sonho Não Acabou”, uma belíssima, emocionante e merecida homenagem ao grande Mestre Candeia: “A chama não se apagou / Nem se apagará / És luz de eterno fulgor / Candeia”. Em suma, pra quem gosta de samba, ouvir “Sentimento Brasileiro” é simplesmente obrigatório.

Na Fonte (1981) já seria um disco histórico mesmo que não tivesse música. Isso mesmo, ainda que fosse um LP (ou CD) mudo, já entraria pra história do samba! Explico: o encarte é um verdadeiro “Quem é Quem” do mundo do samba. Numa foto num pagode, podem ser vistos de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito a Edmundo Souto e Ubirany, de Manacéa e Noca da Portela a Luiz Carlos da Vila e Mauro Diniz, de Wilson Moreira e João Pacífico (que nem de samba é!) à tia Doca e Rildo Hora, dos “Velha Guarda da Portela” Argemiro e Casquinha aos “Cacique de Ramos” Jorge Aragão e Arlindo Cruz. Além destes bambas, Luana (a filha recém nascida de Beth, a quem é dedicado o disco) no colo de Dona Zica.

Mas o disco tem músicas, sim. E que músicas! Mais uma vez, uma crítica social abre o disco (“Virada”, de Noca da Portela e Gilper), seguida do samba-filósofico “Escasseia” (Zé do Maranhão / Beto Sem Braço / Aluísio Machado), ambos incorporados definitivamente ao repertório de Beth. Cartola (“Motivação”, parceria com Dalmo Castello), Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito (“Deus Me Fez Assim”) pela Mangueira e Argemiro e Casquinha (“Gorjear da Passarada”) pela Portela (com participação da sua Velha Guarda) são acompanhados por gemas como “Dança da Solidão” (Paulinho da Viola) e “Tendência” (Dona Ivone Lara e Jorge Aragão). Os compositores originários do Cacique de Ramos (muitos então já fazendo sucesso com o grupo Fundo de Quintal) contribuem também com “É, Pois É” (Almir, Luverci e Luiz Carlos), “Pedaço de Ilusão” (Jorge Aragão, Sombrinha e Jotabe) e “Grande Erro” (Adilson Victor, Marquinho e Arlindo). A dupla (in)fiel Nei Lopes e Wilson Moreira vem de “Morrendo de Saudade” e Padeirinho e Quincas do Cavaco com “Salve a Mangueira (A Mangueira Não Pode Parar)”. Fechando o disco, excepcionalmente um não-samba, a lírica sertaneja “Alpendre da Saudade”, de João Pacífico e Edmundo Souto. Os músicos que participam desta folia são as feras de sempre, com a participação de ninguém menos que Nana Caymmi no coro.

Traço de União (1982) parte de uma idéia original: unir em parcerias inéditas nomes do samba e, digamos, periféricos ao mesmo. O resultado é um trabalho bastante irregular, em que os pontos fortes são as parcerias Dona Ivone Lara - Caetano Veloso (pela primeira vez gravado por Beth) em “Força da Imaginação”; Cartola – Hermínio Bello de Carvalho (já parceiros há muitos anos) com “Camarim”; Nelson Cavaquinho – Paulinho Tapajós em “Coração Poeta” e João Bosco – Martinho da Vila em “Traço de União”. As outras parcerias inusitadas são Noca da Portela e Edmundo Souto; Toquinho, Almir Guineto e Luverci Ernesto; Ivan Lins, Vítor Martins e Nei Lopes; Wilson Moreira e Sérgio Cabral; Guilherme de Brito e Gracia do Salgueiro; Luiz Carlos da Vila e Fátima Guedes; Monarco e Dalmo Castello e João Nogueira, Maurício Tapajós e Aldir Blanc.

Em 83, Beth grava Suor no Rosto. É a estréia daquele que nos próximos anos se tornará a referência do pagode: Zeca Pagodinho, que comparece com duas músicas de sua autoria (“Jiló com Pimenta”, parceria com Arlindo Cruz e “Camarão Que Dorme a Onda Leva”, parceria com Beto Sem Braço e Arlindo Cruz). Zeca ainda divide os vocais com Beth na segunda. Depois disso, Zeca seguirá sua carreira, gravando o primeiro disco em 1986. É Beth mais uma vez divulgando aquilo em que acredita. Beth presta também uma homenagem ao Cacique com a doce “Doce Refúgio”, de Luiz Carlos da Vila (um dos grandes nomes do samba hoje em dia); do pessoal do Cacique temos ainda “Caciqueando” (Noca da Portela), a música do bloco pro Carnaval de 84, “Coisas do Amor” (Jorge Aragão, Sombrinha e Gilberto de Andrade) e a faixa-título (Jorge Aragão, Dida e Niltn Barros); Beth grava também a bela “Nos Combates Desta Vida” (Ivone Lara e Delcio Carvalho). Há ainda uma seleção de jongos de autores diversos, como Darcy Monteiro, Candeia, Alvarenga e Vovó Maria Joana, que participa da faixa. Outras músicas são “Sedução”, de Luiz Bandeira; “Firme e Forte”, de Nei Lopes e Efson e “É Hora de Pintar”, de Martinho da Vila. Fecha o disco o Cartola melancólico de – quase – sempre em “Amargo Presente”, com Beth sendo acompanhada apenas pelo piano de Antonio Adolfo.

Em 1984 Beth lançou o disco Coração Feliz, que dedicou ao Grupo Fundo de Quintal. A abertura fica por conta do grande sucesso que foi “Toque de Malícia” de autoria do Jorge Aragão. A segunda faixa, intitulada “Carnaval de Salão” é um pout-pourri de 18 sucessos de Carnaval de todos os tempos, que inclui de “Ô Abre Alas” (Chiquinha Gonzaga) e “Linda Morena” (Lamartine Babo) até “Chuva, Suor e Cerveja” (Caetano Veloso) e “Cidade Maravilhosa” (André Filho), passando por marchinhas do repertório de Carmen Costa e “Yes, Nós Temos Banana” (Braguinha e Alberto Ribeiro). Outro momento marcante é “Não quero saber mais dela”, de Almir Guineto e Sombrinha (que ganharia em 1986 uma gravação histórica, no CD “Chico e Caetano”, originário do programa homônimo da Rede Globo: Beth divide os vocais com estas duas feras nesta música). O disco traz também uma preciosidade, que é uma homenagem do grande portelense Monarco à Mangueira através do samba “Mangueira e suas tradições”. “São José de Madureira” é cantada em dueto com Martinho da Vila. O disco conta também com a participação mais que especial de D. Ivone Lara, homenageada na faixa “Canto de Rainha”, de autoria da dupla Arlindo Cruz e Sombrinha, com vários sambas de D. Ivone cantados incidentalmente. O samba que dá nome ao disco, “Coração Feliz”, é uma parceria de Adilson Bispo, Marquinho PQD e Gerson do Vale com uma letra marcante: “Agradeço a Deus por saber / A diferença que existe / Entre o bem e o mal / Nada possa fazer / Se o mundo está / Chegando ao seu final / O ódio é uma chama / Que a mente humana / Insiste em alimentar / Mas eu não me deixo influenciar / Pois tenho amor pra dar.” Pra terminar, um medley de “Corra e olha o céu”, mais um clássico de Cartola, e “Notícia”, puro Nelson Cavaquinho. Outro destaque do disco fica por conta da cozinha. Tocam, entre outros, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Sombrinha, Wilson das Neves, Jorge Aragão e Gordinho.

Em tempos de Diretas Já, Das Bençãos que Virão com os Novos Amanhãs (1985) traz na capa um busto nu de uma mulher negra carregando um camafeu com a foto de Beth, e a letra “E” do nome dela vem na forma de uma estrela vermelha. O título é tirado de “Talismãs”, parceria de Ivor Lancellotti e Paulo César Pinheiro. Homenagens a Mãe Menininha do Gantois (“O Encanto do Gantois”, dos baianos Edil Pacheco e Moraes Moreira), ao cinema nacional (“Cinelândia”, da dupla-xarope Claudio Cartier e Paulo Cesar Feital, com participação de Grande Otelo) e ao “Zicartola” (Carlos Dafé e Toninho Lemos), lendário bar de Dona Zica e mestre Cartola. “Não Dá Pra Guardar” (Martinho da Vila e Cabana) fala da falta da grana no bolso do pobre. Beth grava - pela primeira vez - a dupla já desfeita João Bosco – Aldir Blanc (“Droba a Língua”) e várias músicas dos compositores do Cacique: “Da Melhor Qualidade” (Arlindo Cruz e Almir Guineto, um dos sucessos do disco), “Mais que um Sorriso” (Jorge Aragão e Edmundo Souto), “Arco Íris” (Sombrinha e Luiz Carlos da Vila) e os também sucessos “Pintando o Sete” e “Malandro Sou Eu” (ambos da dupla Arlindo Cruz e Sombrinha, o primeiro com Luiz Carlos da Vila e o segundo com Franco).

Em 1986 é lançado um trabalho intitulado simplesmente Beth. “Corda no Pescoço”, de Almir Guineto e Adalto Magalha, é sucesso imediato. Este samba político contesta as mudanças do País com a transição de uma ditadura militar para uma democracia, processo iniciado no ano anterior, proclamando que “a grande virada não passa de esboço”, caindo rapidamente na boca do povo: “E o povo como está? / Está com a corda no pescoço...” Estoura nas rádios também a faixa “Fogo de Saudade”, da dupla Sombrinha / Adilson Victor. Neste disco Beth gravou aquele que muita gente considera ser o samba mais bonito do Jorge Aragão, que é “Coisa de Pele”, em que ele diz que é o povo quem deve “produzir o show e assinar a direção”. As participações ficam por conta de outro afilhado, Zeca Pagodinho, e de Mercedes Sosa. Com Zeca, Beth canta “Dor de Amor”, do próprio Zeca em parceria com Arlindo Cruz e Acyr Marques. Com Mercedes Sosa, Beth interpreta “Eu Só Peço a Deus”. Beth declara que “Eu acho importante enaltecer o sentimento de latinidade. Acredito numa América Latina unida contra a exploração econômica e os atentados à nossa liberdade e auto-determinação. Nós, da América Latina temos que nos unir, pois lutamos contra o mesmo inimigo”. O disco traz ainda, entre outras, o clássico da bossa nova “Chega de Saudade”, gravado em ritmo de samba; “Nas Veias do Brasil” do poeta Luiz Carlos da Vila; e “Partido Alto Mora no Meu Coração”, de Arlindo Cruz e Sombrinha. Outro destaque importante é “Espero por Ti”, música até então inédita de Cartola, que a assina em parceria com Regina Werneck.

O último trabalho pela RCA é o Beth Carvalho Ao Vivo no Festival de Montreux, de 1987. Beth desfila sucessos (“Andança”, “Carro de Boi”, “Vou Festejar”, “Firme e Forte”), clássicos da música brasileira (“Samba do Avião” de Tom Jobim; “Tristeza” de Haroldo Lobo e Niltinho Tristeza; “Barracão” de Luiz Antonio e Oldemar Magalhães, imortalizado na voz de Elizeth Cardoso) e sambas inéditos de seus compositores de coração (“Nas Rimas do Amor”, de Sombrinha e Adilson Victor; “Pé de Vento”, de Jorge Aragão, entre outros). Algumas músicas dos últimos discos completam o repertório (“Da Melhor Qualidade”, “O Encanto do Gantois”, “Nas Veias do Brasil”), além de mais uma homenagem ao “Cacique de Ramos” (Sereno e Noca da Portela).

88 é ano de casa nova pra Beth. Sai Alma do Brasil pela Polygram, onde ela gravará mais dois discos. Infelizmente nenhum deles jamais foi lançado no formato CD, sendo disponíveis suas faixas apenas em coletâneas. Os sucessos são “A Sete Chaves” (Arlindo Cruz, Franco e Marquinho PQD), “Saigon” (Cláudio Cartier, Paulo Feital e Carlão) “Vestida de Samba” (Jotabê e Marquinhos China), a bela – apesar dos teclados, que por sinal abundam em diversas faixas do disco – “Rosa Vermelha” (Sueli Costa e Paulinho Pinheiro). Mas talvez o clássico surgido neste disco seja “Além da Razão” (Sombrinha, Sombra e Luiz Carlos da Vila). Outra faixa excepcional é o pot-pourri que casa Cartola (“Tive Sim”) a Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito (“Pranto de Poeta”). Como música incidental, “Exaltação à Mangueira” (Enéas Brites e Aloísio Augusto da Costa). Há também uma seleção de sambas da antiga, que passa por Manacéa (“Sempre Teu Amor”), Candeia (“Gamação” e “Olha a Hora, Maria”), Alcides “Malandro Histórico da Portela” (a mais que clássica “Vivo Isolado do Mundo”), Rufino (“Vai Mesmo”), Alberto Lonato (“Esqueça”) e Aniceto do Império (“Beberrão”, parceria com Mulequinho). Martinho da Vila compõe a política “Meu Homem – Carta a Nelson Mandela”, então preso na África do Sul.

O segundo disco pela Polygram, Saudades da Guanabara, de 89, começa (e recebe o título) daquele que é hoje, segundo alguns, o hino extra-oficial do Rio de Janeiro, parceria histórica de Moacyr Luz (mais um afilhado de Beth, um dos maiores compositores brasileiros hoje em atividade) com dois grandes letristas da MPB, Aldir Blanc e Paulinho Pinheiro. Mas os compositores que Beth sempre gravou não são deixados de lado. Os bambas do Cacique de Ramos comparecem com os sucessos “Sonhando Eu Sou Feliz” (Arlindo Cruz, Marquinho PQD e Franco), “Não Me Faz de Ioiô” (Arlindo Cruz e Franco) e “Meu Samba Diz” (Sombra, Sombrinha e Adilson Victor), mais “Sem Ataque, Sem Defesa” (Sombra e Adilson Victor) e “Bota Lenha na Fogueira” (Arlindo Cruz, Cláudio Azevedo e Franco). Outro canto contra a discriminação na África do Sul vem de Serginho Meriti, Arlindo Cruz e Franco (“Apartheid Não”). Beth grava também a belíssima “Sorriso de Criança”, de Dona Ivone e Delcio Carvalho, com a participação mais que especial da Divina Elizeth e fecha o disco com uma homenagem ao Botafogo (“Botafogo Campeão” e “Esse é o Botafogo Que Eu Gosto”).

Em 1990, pela primeira vez em 16 anos Beth fica sem lançar disco novo. Em 91, em compensação, Beth lança dois trabalhos: a saideira pela Polygram, Intérprete, e um disco ao vivo gravado no Olympia, já pela nova casa, a Som Livre. Intérprete, apesar do teclados sempre mais presentes, tem uma gravação emocionante de “Meu Guri”, linda canção-marginal de Chico Buarque. Outros clássicos incorporados por Beth são “Cordas de Aço” de Cartola, “Último Desejo” de Noel Rosa e “Minha Mágoa” de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Moacyr Luz, em parceria com Aldir Blanc, é gravado de novo (“Feito o Mar”), assim como Paulo César Pinheiro, em três facetas (“Velho Marujo”, parceria com Sombra; “Cabrocha da Mangueira”, com Márcio Proença; e “Traz a Vida Pro Sereno”, com Edil Pacheco). As compositoras mulheres também comparecem: Sueli Costa (“Agradecer”, com poema de Cacaso) e Fátima Guedes (a bela “Santa Bárbara”). Sombra, do Cacique, tem mais duas músicas interpretadas por Beth neste disco: “Olhos da Paixão” (com Sombrinha / Marquinho PQD) e “Tanto Querer”.

Ao Vivo no Olympia é uma seleção de sucessos de Beth (“Goiabada Cascão”, “A Sete Chaves”, “Malandro Sou Eu”, “Da Melhor Qualidade”, “Camarão Que Dorme a Onda Leva”, “Saco de Feijão”, “Corda no Pescoço”, “Sonhando Eu Sou Feliz”, “Nas Veias do Brasil”, “Saigon” e “Vou Festejar”, dentre muitos outros) e do samba de maneira geral (“Dança da Solidão”, “Último Desejo”, “Folhas Secas”, “Cordas de Aço”, “As Rosas Não Falam” e “Meu Guri”). Tem também mais uma gravação de “Andança”, abrindo o disco-show, e algumas inéditas na voz de Beth, como “O Que É O Que É”, de Gonzaguinha.

O segundo e último trabalho na Som Livre se chama Pérolas (92) e o título já diz do que se trata. Comemorando os 25 anos de Samba de Beth, uma verdadeira seleção de pérolas inéditas em sua voz, como “Mas Quem Disse Que Eu Te Esqueço” (Dona Ivone e Hermínio Bello de Carvalho), “Minha Festa” (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito), “Pra Jogar no Oceano” (Paulinho da Viola), “Samba do Grande Amor” (Chico Buarque), a comovente “Iracema” (Adoniran Barbosa), uma homenagem à Mangueira com a participação da Velha Guarda da Escola (“Exaltação à Mangueira”, de Aloísio Augusto da Costa e Enéas Brites, com “A Mangueira Não Morreu”, de Jorge Zagaia, como música incidental), o sucesso de Aracy de Almeida “Tenha Pena de Mim (Ai, Ai, Meu Deus)” (de Babahú e Ciro de Souza) e um dos mais belos samba-canções da história, a histórica parceria Cartola – Carlos Cachaça – Zé da Zilda em “Não Quero Mais Amar a Ninguém”. Outras participações especiais são as de Martinho da Vila em seu samba-enredo “Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade” e de Mestre Marçal na clementiniana “Yaô” (Pixinguinha e Gastão Viana). Se você ainda não se convenceu da qualidade deste trabalho, fique sabendo que as outras duas faixas são o clássico imediato “Quem É de Sambar” (Sombrinha e Marquinho PQD) e a irresistível “Se Você Jurar” (Ismael Silva e Nilton Bastos, com o “peru” na parceria Francisco Alves).

O trabalho seguinte, um LP duplo (CD simples, com 73 minutos de sambas belíssimos) vem pela gravadora Velas no ano seguinte (93) e se intitula Beth Carvalho canta o samba de São Paulo. É um trabalho belíssimo, gravado ao vivo no SESC Pompéia (em Sampa) e que faz um mapeamento do samba de qualidade produzido em São Paulo, desde Adoniran Barbosa (“Iracema” de novo, abrindo o disco, e “Despejo na Favela”, “Saudosa Maloca” e “Trem das Onze”, praticamente fechando-o) e Paulo Vanzolini (“Praça Clóvis” e “Volta Por Cima”) até Geraldo Filme (“Tradição” e “Silêncio no Bexiga”) e Eduardo Gudin (“Velho Ateu”, parceria com Roberto Riberti e “Maior é Deus”, com Paulinho Pinheiro e participação vocal do próprio Gudin), passando também por “Feitio de Oração” (Noel Rosa e Vadico, este último paulista) e “Regra Três” (Toquinho “100% paulista” e Vinícius de Moraes). Osvaldinho da Cuíca contribui com a deliciosa “Sereno”, participando também com a sua voz, e Carlinhos Vergueiro e J. Petrolina com “Dia Seguinte”. Beth regrava “Sem Ataque, Sem Defesa” (de Sombra e Adilson Victor, este último paulista e autor também de “Fogo de Saudade”, esta com Sombrinha) e “Meu Sexto Sentido”, sucesso dela de 1979. Uma roda de pagode é armada em “Vem Pra Roda Pra Versar”, de Maurinho da Mazzei, com a participação do autor, de Geraldo Filme, Silvio Modesto e Osvaldinho da Cuíca. Engraçadíssima é “Mania da Gente” (Mario Sérgio, Carica e Luizinho SP), uma crítica aos grã-finos que trocam o samba pelo “hip-hope”, rock progressivo, Ravel e Pavarotti. Este belo trabalho foi idealizado e produzido por Eduardo Gudin, então na Velas, e contou basicamente com músicos paulistas.

Em meados da década de 90, Beth passou por sérios problemas na voz, que a deixaram (e a todos os fãs) sem saber se algum dia voltaria a ter a mesma jovialidade da voz. Neste período ela gravou apenas um disco, Brasileira da Gema, em 1996, pela Polygram de novo. Ainda que a voz dela não esteja com o vigor de sempre, o disco é de uma sensibilidade imensa, com um repertório irretocável e um trabalho gráfico excelente. Na apresentação do disco, Zuza Homem de Mello coloca Beth na posição de diva (“a diva do samba”), comparando-a a Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira e Edith Piaf. Praticamente metade dos sambas são de autoria de Sombra, Sombrinha e parceiros egressos do Fundo de Quintal e do Cacique de Ramos. A faixa que abre o disco, “Salve São Sebastião” (Sombra, Carlos Caetano e Moisés Santiago), uma louvação ao Rio de Janeiro e a romântica “Se Você Soubesse” (Fernando de Lima) são boas surpresas, assim como “Carioca da Gema” (outra homenagem ao Rio e, mais que isso, ao orgulho de ser carioca), do trio Sombrinha, Arlindo Cruz e Franco, e “Perfume no Ar” (Marquinho PQD, Santana e Celinho da Guaxa). Beth regrava ainda “Sempre Mangueira” (Nelson Cavaquinho e Geraldo Queiroz), “Linguagem do Morro” (Padeirinho e Ferreira dos Santos) e uma pérola de Moacyr Luz e Aldir Blanc em homenagem a Nelson Sargento, “Flores em Vida”. Mas talvez o momento mais bonito do disco seja a inédita “Quando Essa Paixão Me Dominar”, belíssima parceria de Ivor Lancelotti e Delcio Carvalho.

Em 98, Beth já completamente refeita dos problemas vocais pelos quais passara, grava o excepcional Pérolas do Pagode (Globo/Polydor). Neste CD, até mesmo os quase sempre insuportáveis pot-pourris são legais. O primeiro é uma seleção de sucessos de Beth: “Olho por Olho”, “Senhora Rezadeira” e “Ô Isaura”; um outro faz uma seleção de pagodes (“Segure Tudo”, de Martinho, “A Flor e o Samba” de Candeia e “No Pagode do Vavá”, de Paulinho), com Beth sendo acompanhada pelo afilhado Zeca Pagodinho. Por falar em afilhados, o coro no disco é feito por um grupo de amadrinhados da Beth, o grupo vocal Arranco (ex de Varsóvia). Ela regrava também o antigo sucesso de Almir Guineto (“Mel na Boca”, de David Correa), o lindo samba “Não É Assim”, de Paulinho da Viola, as novas “Geografia Popular” (Marquinhos de Oswaldo Cruz, Edinho Oliveira e Arlindo Cruz) e “Não Sou Mais Disso” (Zeca Pagodinho e Jorge Aragão), além de um samba de Arlindo Cruz, Almir Guineto, Sombrinha e Mazinho Xerife (“Samba de Marte”), fazendo alusão ao samba espacial “Coisinha do Pai”. A destacar ainda “Seu Bernardo Sapateiro” (Monarco e Ratinho) e “O Show Tem Que Continuar” (Sombrinha, Arlindo Cruz e Luiz Carlos da Vila).

Como se vê, Beth sempre manteve em todos os aspectos de sua carreira o respeito e a admiração pelo samba de qualidade, verdadeira música do Brasil, quer ele tenha sido criado no princípio do século, nas rodas das tias baianas, quer tenha acabado de ser composto por jovens da periferia de São Paulo. Ave, Beth, e que você continue a nos presentear com sua voz e sua grandeza de caráter por muitos e muitos anos ainda!

Observações:
1) Quero agradecer imensamente a ajuda de outro apaixonado pelo trabalho da Beth, o Eduardo Martins, que contribuiu nesta homenagem;
2) Este texto ainda não está completo. Visite-nos novamente dentro de alguns dias e veja a versão definitiva da homenagem da Agenda do Samba & Choro à Beth!


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