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Ary Barroso

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Ary Evangelista Barroso , nascido em Ubá, Minas Gerais, sete de novembro de 1903, falecido em Rio de Janeiro, RJ, nove de fevereiro de 1968.

Qualquer lista dos dez maiores compositores da nossa música popular - os caras que moldaram o que hoje se entende por MPB - tem de ter o nome de Ary. Isso, se não começar por ele. É que tanto pela ordem alfabética quanto cronológica, o cara é o primeiro grande nome - a menos que se inclua Sinhô, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga ou Zequinha de Abreu, o que é discutível numa lista de apenas dez. Além disso, Ary bate ponto duas vezes no ainda mais seleto time dos que fizeram as 20 músicas mais gravadas no Planeta. Bahia (Na Baixa do Sapateiro) e Brazil (Aquarela do Brasil) são hits em qualquer elevador ou sala de concerto do mundo todo até hoje. E você lembra de algum show de artista estrangeiro onde no momento alôu Brazil! a escolhida pra ser executada (literalmente) não tenha sido a pobre da Aquarela? (Se bem que eu vi um inesquecível espetáculo do Centro de Difusão Cultural da Comunidade Chinesa de Miami - JURO! EU VI!!! -, onde o hit foi Ssi-dá-dji Maravirôuza... - não me pergunte o que que eu tava fazendo lá...)

Mas não é só pela unanimidade em torno de seu trabalho como compositor que Ary é história. Não fosse Ary Barroso, seu nome seria Legião. Pianista, cunhou um estilo econômico que teve eco em figuras do peso de seu amigo Tom Jobim. Como compositor de trilhas ou autor de revistas teatrais, só trabalhou menos que o já citado Sinhô. Vereador, foi um dos principais responsáveis pela construção de um estádio de sonho chamado Maracanã - que, na época, provocava risos quando alguém dizia que um dia ia lotar. Além disso, tentou (inutilmente) implantar no Rio de Janeiro de seu tempo uma idéia completamente estrambótica: coleta seletiva de lixo.

Também como cronista de jornal, se não chegou ao nível de seu inimigo-público-número-um Antônio Maria, saiu-se muito bem, em acaloradas discussões impressas, coloquiais e corrosivamente ferinas, geralmente contra o próprio Maria. Isso, aliás, sempre foi outra característica marcante de Ary: patrolava sem o menor dó ou piedade qualquer convicção diferente da sua. Com a mesma paixão com que lutou a vida toda pela moralização da arrecadação do Direito Autoral.

Pensa que acabou? Tem mais! Como homem de rádio e TV, apresentou vários programas, de invariável sucesso. No mais lendário deles, Calouros em Desfile, aterrorizava os candidatos ao estrelato, mas era uma garantia de sucesso pra quem realmente tivesse café no bule. Elza Soares, pobre de marré, foi se apresentar lá. Magérrima, desgrenhada, com um vestido emprestado muito maior que ela, provocou o comentário imediato de Ary: - Mas de que planeta você veio? E ela, na chincha: - Planeta Fome, seu Ary (bã). Cantou, arrasou e ainda conseguiu uma inédita ganhada do temível apresentador. Já outro candidato disse que ia interpretar um sambinha do dono do programa. Quase foi esbofeteado. Afinal, sambinha é a mãe. Um terceiro estava prestes a interpretar uma página de Tom e Vinícius. O poeta e diplomata era então muito mais famoso que o jovem compositor, e o candidato lascou: - Se Todos Fossem Iguais a Você, de Vinícius de Morais. Ary, velho batalhador pela causa do direito autoral, intercedeu já furioso: - Mas como Vinícius?!? E o Tom?

- Mi maior, seu Ary.

Entre essas e outras, foram lançados pelo programa um menino prodígio chamado Lúcio Alves, um exímio tocador de chorinhos ao acordeon chamado Luiz Gonzaga e por aí vai. Sem falar na importância da força de Ary na consodolidação de carreiras que custaram a engrenar, como a da eterna Divina Elizeth Cardoso.

Mas o maior Ary, o mais apaixonado, a face sua em que depositava maior energia, era o flamenguista. Mais até que compositor, Ary era rubro-negro. Em cada fibra de seu coração. A paixão esportiva não arrefecia nem quando, microfone em campo, ele transmitia futebol pelas rádios do Rio. Aliás, como narrador ele transformou uma função até então enfadonha e burocrática num torvelinho de emoções, inda mais se em algum dos lados do tapetão estavam as cores do seu amado Mengo. Torcia desavergonhadamente. E dê-lhe a gaitinha de boca, que era sua marca registrada para registrar os gols. Gol adversário merecia uma passadinha rápida de boca no instrumentinho. Gol do Mengo incorporava o Edu da Gaita.

E se essa manha da gaita-de-boca não emplacou, outras invenções radialísticas suas acabaram incorporadas às tranmissões de jogos de futebol até hoje - e ninguém mais lembra que foi dele a idéia original. Comentarista, por exemplo, Ary foi o primeiro. Essa estória de repórter de campo, microfone em punho em busca da primeira declaração do goleador, também foi coisa dele. Sem falar que nada detinha o implacável narrador. Transmitiu jogos até de cima de telhados. A todas essas, sendo antes de qualquer outra coisa flamenguista doente. Por isso, quando transmitia jogos de seu time, os ouvintes já nem estranhavam se a figura invadia o campo pra xingar o juiz, abandonava o microfone pra incentivar os jogadores ou mesmo emprestava sua gravata pra servir de tala pra um jogador chamado Jaú, que machucou a clavícula num lance contra um time inimigo.


Ary foi o primogênito da família Evangelista, nascido numa Ubá que, em 1903, era um ermo perdido nos interiores do Planeta Minas. Mas isso não impedia que seu pai, João Evangelista, fosse um típico bon-vivant da belle époque mineira: poeta, tocador de violão, cantor de modinhas, boêmio e advogado. Tal pai, tal filho. Vinte e poucos anos depois, Aryzinho - o único filho a se criar -, era já um aclamado letrista, tocador de piano, compositor de sambinhas, boêmio e... bacharel em direito. Só não chegou a advogar.

(In) felizmente o doutor João não chegou a ver a consagração do filho, já que ele e a esposa morreram quando Ary tinha apenas sete anos. Órfão de pai e mãe, o menino passou a ser criado pela tia e pela avó. E Tia Ritinha queria porque queria que o sobrinho fosse um concertista famoso. A partir de seus dez anos de idade, o pobre garoto era submetido a três obrigatórias horas diárias sentadas à frente do teclado do piano. Até morrer, sempre se lembrou daquelas horas como as piores da sua vida. Mas deu em ganha-pão: ele levava tanto jeito pra coisa que aos 12 anos, em 1915, já trabalhava no cinema de Ubá, acompanhando os filmes mudos que passaram na telinha. Este resto de infância órfã e pobre, seguida de uma adolescência idem, justificariam plenamente todas as extravagâncias que cometeria anos mais tarde, como o piano vermelho decorado com motivos chineses em alpaca amarela que tinha no centro da sala de sua casa (que, por sua vez, dava para piscina imitando lagoa tropical forrada de azulejos desenhados com... a partitura de Aquarela do Brasil!!!).

Mas a sorte lhe sorriu pela primeira vez bem antes disso. Tinha 17 anos quando morreu um tio muito querido que o nomeara herdeiro de uma pequena fortuna de 40 contos de réis. Claro que não era o momento de receber uma bolada dessas. Com o pretexto do curso de direito, o rapaz se mandou pro Rio de Janeiro e caiu na farra. Em dois anos tinha torrado meticulosamente cada níquel. No que dependeu dele, não teve puta pobre nem garçom de cara feia na Capital Federal do comecinho dos anos 20.

Acabada a grana, a única solução foi relembrar as aulas da tia e, tocando piano, tentar levantar algum pra pagar a faculdade e a pensão. Tocou em cinemas, cabarés, grandes e pequenas orquestras, excursionou e, aos poucos, afamou-se. Nesse meio tempo, abriram-se para o jovem duas novas frentes de interesse: a primeira era o teatro de revista, então vivendo sua época áurea. Entrou na parada em grande estilo, levado por dois cobras do gênero - Olegário Mariano e Luís Peixoto. Participaria de mais de 60 montagens, em várias delas escrevendo roteiro, argumento e trilha. A partir de então, Luís Peixoto - com idade quase para ser seu pai - se tornaria o parceiro mais constante, escrevendo as letras de maravilhas do calibre de Na Batucada da Vida ou Camisa Amarela. Com a junção desses dois talentos, a música popular teria de esperar até Chico Buarque para que um compositor (ou uma dupla deles) atingisse novamente tanta sutileza no trato de sua porção mulher - Assis Valente não conta, que nesse até a porção homem era porção mulher.

Mas estávamos falando de duas frentes de interesse. Pois a segunda tinha treze anos de idade, se chamava Ivone e era filha da dona da pensão. Já viu... A família fez o que pôde pra evitar o infanticídio, mas os dois não desgrudaram até casar. O que aconteceu em 29, o mesmo ano em que Ary finalmente terminou a faculdade de Direito e emplacou seus primeiros sucessos. Vamos Deixar de Intimidade era um samba ainda completamente maxixado, fortemente infuenciado por Sinhô, que ainda era O Rei do Samba. Pois a gravação original de Vamos Deixar de Intimidade foi feita justamente pelo maior intérprete de Sinhô, o bacharel, formado na mesma turma de Ary, Mário Reis. O outro sucesso foi Dá Nela, uma marchinha que - esta sim - apresentava alguma novidade. Tanto que ganhou o primeiro prêmio num concurso de músicas para o Carnaval de 1930. Foi com a grana desses primeiros acertos que o jovem casal de noivos criou coragem para o audacioso enlace matrimonial. E também para a não menos audaciosa decisão de engavetar o diploma do chefe do lar, pra desespero das famílias de ambos os nubentes.

No curto espaço entre 1931 e 34 Ary provaria que estava mais do que certo: definindo rapidamente seu estilo tremendamente inovador para a época, ele assina sua primeira dúzia de obras-primas. Com elas, se firma, ao lado de Noel Rosa, como o maior gênio dessa nova geração que vinha pintando. Enquanto Noel era um genial inovador do conceito de letra na canção popular, Ary incorporava as lições do amigo e ainda fazia sua própria revolução na parte musical. Entre outras coisas, essa safra de músicas paridas neste curto espaço de quatro anos é a principal fonte de referência pra definir o que seria o samba pelos próximos séculos. São dessa época diamantes do quilate de Rancho Fundo, Maria, Caco Velho, Tu e a nunca por demais lembrada Na Batucada da Vida. Pra não falar em Faceira, que Ary classificava de primeiro samba com telecoteco. Ou seja: o primeiro samba puro, totalmente livre das influências do maxixe e da batucada dos morros cariocas (não deixe de procurar a gravação original, com Sílvio Caldas ainda broto e os breques do baterista Luciano Perrone - o mesmo cara que sugeriu a Radamés Gnatalli o arranjo original de Aquarela do Brasil ).

Esse citado amadurecimento musical de Ary como compositor foi um negócio vertiginoso. Poucos meses separam os três acordes de Vamos Deixar de Intimidade (arrá: pensaram que os três acordes eram propriedade do rock'n'roll?!?) dos encadeamentos complexos, com melodias cheias de volteios, de suas composições seguintes. A partir dessas primeiras canções de maturidade, só Custódio Mesquita e, bem mais tarde, Tom Jobim, seriam páreo para ele.


A sua entrada no rádio se dá em 33, como mero figurante. Em pouco tempo era redator, humorista, apresentador, repórter, produtor, pianista, mestre-de-cerimônias, entrevistador, comentarista de futebol e narrador. Mais fodão que ele, só o lendário Almirante. Ary inventou a mais não poder, emplacando um programa de sucesso atrás do outro. Calouros em Desfile e Encontro com Ary foram popularézimos anos a fio.


Reza a lenda que numa noite chuvosa de agosto de 39, Ary estava na sua sala sala, jogando conversa fora com a patroa e um casal de cunhados. De repente, levantou do sofá e disse, indo pro piano (aquele mesmo, vermelho com detalhes amarelos): vou fazer um samba cheio de inovações. Começou imitando no teclado a batida de um tamborim e, meia hora depois, música e letra estavam prontas. O cunhado foi o primeiro a esboçar um protesto que acompanharia a canção até hoje: coqueiro que dá côco, Ary? E você queria que ele desse o quê?!? Ary não deu bola, como faria sempre que voltassem com piadinhas sobre essa mesma frase. Ele, esperto como sempre foi, sabia que estava inventando um gênero, o samba-exaltação. Com sua letra que cantava o bom e o belo dessa terra, estava inaugurando uma nova era, numa época onde marchas e sambas, como diria Noel Rosa, só falavam de mulher, malandragem e prontidão (falta de grana).
Pra comemorar, bebeu sozinho uma garrafa de vinho. Aí sentou de novo no piano e pariu, prontinha, a igualmente lapidar Três Lágrimas.

Podia ter se aposentado ali.

Ou...

Dois anos antes, em 37, Getúlio Vargas resolveu que tinha gostado tanto desse negócio de ser presidente que ia ficar no cargo o quanto desse. Numa época em que ditaduras populistas estavam na moda - vide Hitler e Mussolini -, ele não fugiu à regra e, como seus pares da Alemanha e da Itália, resolveu pegar pesado no nacionalismo como base de governo. Como armas principais, um grande investimento na cultura - e suas indústrias culturais - e na censura. Uma patrulhando a outra. Getúlio sedimentou o rádio, através da liberação dos reclames. Mais tarde, através de uma complicada transação, compraria a Rádio Nacional, emissora que seria anos a fio a maior do País, quase hegemônica.

O rádio, que surgira amador e erudito na década anterior, passa a crescer vertiginosamente a partir de 32, quando Getúlio libera a publicidade no meio. Foi para não haver perigo de desvios de sua meta nacionalizante e unificadora, que Gegê fundou o DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda. Tá lá na ata de fundação: fica a seu cargo não apenas superintender os serviços de radiodifusão no país, como também orientar o rádio brasileiro em suas atividades culturais, sociais e políticas.

E aí, tipo da coincidência, em fins de 39 a Aquarela do Brasil ganha o primeiro prêmio num concurso de música popular promovido - adivinhem? - pelo próprio DIP. E inaugura essa nova fase, fomentada e patrulhada, na música popular brasileira: ufanismo exaltado e caça à bruxa da malandragem, inimiga do pretendido desenvolvimento getulista.


O fato é que nunca se descobriu se a Aquarela foi mesmo composta ou não sob encomenda de Getúlio. Sempre é bom lembrar que Ary foi freguês assíduo dos cachês da Rádio Nacional, mas, por outro lado, alguns versos da música chegaram a ter problemas com a censura. Mas o que importava eram os outros, que cantavam as belezas do Brasil - e resgatavam o perdido termo merencória que, ao contrário do que já foi dito, não é invenção de Ary. Versos estes que acabaram caindo nas graças do maior cantor popular de então: Francisco Alves, o Rei da Voz. Ele ouviu a canção quando de sua estréia, no teatro de revista, pelas vozes de Aracy Côrtes e Cândido Botelho. Chico, que tinha um grande faro para o sucesso, vidrou. Em 18 de agosto de 1939, ainda quentinha do forno da sala de Ary, a Aquarela entra para o acetato pela primeira vez. E com pompa e circunstância: Além do Rei, o estúdio recebia uma imensa orquestra regida por um maestro gaúcho que estava fazendo sua fama na capital: Radamés Gnatalli. Era o começo da carreira daquela que seria a canção brasileira mais conhecida aqui e no exterior, ao lado umas quatro ou cinco canções de Jobim. Mas, mais do que qualquer canção carioca de Tom, a Aquarela se tranformou numa espécie de Hino Nacional Alternativo brasileiro.


Um negócio interessante dessa gravação primeira é que o arranjo era tão elaborado e cheio de orquestrações que ocupou os dois lados de um 78 rpm. Seis minutos da melhor música que se produzia então, dominados em grande parte pela genial célula rítmica criada por Radamés e seu baterista Luciano Perrone: o célebre tchan-tchan-tchan, tchan-tchan-tchan-TCHÃ!. Uma música tão bela, criativa, épica e, ao mesmo tempo, tão útil aos interesses da época, que só podia dar em sucesso. Deu. E internacional.
Walt Disney, em visita de cortesia ao Brasil - parte da ignominiosa Política da Boa Vizinhança do Roosevelt na época da Segunda Guerra -, ouviu a canção, muito mal tocada, num hotel da Bahia. Ele estava procurando inspiração pra seus futuros personagens brasileiros e vidrou: aquilo era exatamente o que faltava. Poucos meses depois, Ary embarcava para os Estados Unidos. Brazil, a canção, tinha sido incluída na trilha do filme Alô Amigos, de Disney, e foi o maior sucesso. Tanto que a Republic Pictures resolveu chamá-lo pra passar uma temporada em Hollywood, pra escrever a trilha de um novo filme que seria chamado justamente Brazil. Foi, fez a trilha, e ainda conferiu o sucesso que a música Brazil estava fazendo por lá. De quebra, assistiu a pré-estréia de Bahia (Na Baixa do Sapateiro) e Os Quindins de Iaiá, cantadas por Aurora Miranda em Você Já Foi à Bahia? (The Three Caballeros), o clássico desenho da Disney... Também passeou tanto com Carmen Miranda que as agências de notícias chegaram a noticiar o casamento dos dois - o que deixaria Ary na posição de bígamo internacional. De quebra, ficou amigo de Benny Goodman, com quem ouvia discos do saxofonista brasileiro Luís Americano - que Goodmann jurava ser um dos maiores do mundo. Até assistir a cerimônia do Oscar ele assistiu, se solidarizando com a humilhante derrota de Humphrey Bogart - que era o favorito a Melhor Ator por Casablanca.

No final do ano, Ary voltaria novamente a Hollywood, desta vez para escrever a trilha de Three Little Girls in Blue, uma estapafúrdia estória passada num Brasil que só existia na cabeça dos produtores de Hollywood. Felizmente para os brasileiros, infelizmente para Ary, o filme acabou não saindo do papel. Mas, pra não dizer que ele voltou de mãos abanando, ainda teve a honra de ser homenageado por esta mesma Hollywood. Dia 31 de dezembro de 1944, Ary Barroso recebia o Prêmio de Mérito da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas pelo samba Rio de Janeiro, da trilha do filme Brazil. Teve gente ufanista que até se confundiu e achou que ele tinha ganho era o Oscar...

O fato é que Ary poderia ter se dado muito bem tanto em Hollywood quanto na Broadway. Não deu porque não quis se mudar pros Isteites - e olha que Disney pediu.
- Don't have Flamengo era a invariável resposta. Pra sua mulher Mariúza, confidenciava: - Jamais conseguiria viver num lugar onde todos os botões funcionam. E ponto. Não adiantaram nem as intercessões da amiga e mega-star Carmen Miranda ou de Aloysio de Oliveira, líder do Bando da Lua e consultor de Disney para assuntos de música latina.

Neste mais de meio século, a Aquarela teve várias centenas de regravações, em lugares que nunca viram um trovador, que o dirá cantando de novo. Só nas Filipinas já pintaram três versões. A canção está entre as 10 mais gravadas da história, junto com Something, do George Harrison, e Garota de Ipanema, de Tom Jobim. Aliás, não só Aquarela do Brasil/Brazil. Na Baixa do Sapateiro/ Bahia já em 1945 entrava no seletíssimo clube das canções com mais de dois milhões de execuções só nos Estados Unidos. Clube onde também estão a já citada Garota de Ipanema, mais Meditação e Desafinado, também de Jobim. Afinal, só no Brasil, foram mais de uma centena de versões. Não dá pra não lembrar, além da original de Chico Alves, da afro de Elis Regina - no disco Saudades do Brasil - e da pop de Gal - no seu songbook de Ary chamado Aquarela. E, é claro, da bossa reinventada pelo trieto João Gilberto, Caetano & Gil, no monumental disco Brazil.




Em 1946, no auge de sua popularidade, Ary arriscou e foi o vereador mais votado naquela que foi a primeira eleição direta para vereador na Câmara Municipal do Rio, na época Capital Federal. O partido era a UDN, a União Democrática Nacional, oposição ao PTB de Getúlio Vargas. Foi implacável em discursos notáveis e em tudo o mais de que a gente já falou na abertura deste texto. Paralelamente a seu desempenho por assim dizer camarístico, ele passou a excursionar pelo exterior com o grande sonho de sua vida: a Orquestra de Ritmos Brasileiros. Novos convites para ficar, desta vez vindos no México e na Argentina. Pero todavia no hubiera Mengo.

Em 1955, ganha a Ordem Nacional do Mérito, a maior honraria dada pelo Governo Brasileiro. A seu lado, também levando o mesmo prêmio, Villa-Lobos - que, dizem as más línguas, ficou puto de ter de dividir a homenagem com um compositor de sambas e marchinhas. Por essa mesma época, além de continuar a mil no rádio, começa a fuçar na TV. Amplia sua atividades políticas para a diretoria do Flamengo. Dorme pouquíssimo, fazendo uma ronda noturna obrigatória de dar inveja a qualquer boêmio de cepa. Em função disso tudo, compõe menos que nas décadas anteriores, mas com qualidade inalterada. Risque é de 52, É Luxo Só, de 57.

Em 58, Jobim, João Gilberto e Vinícius de Morais fundam a Bossa-Nova. De Tom ele já era fã - "Esse Tom Jobim é um gênio", costumava proclamar aos quatro ventos, pra quem quisesse ouvir. Vinícius ele conhecia desde o tempo em que tomavam uns drinques na mansão de Carmen Miranda em Beverly Hills - talvez até de antes. E João Gilberto... Bem, João passaria toda sua vida gravando canções de Ary. Não tinha como ele não gostar dos garotos dessa turma, ainda que alguns deles fossem meio iconoclastas. Mas mesmo os mais ferrenhos críticos do que passaram então a chamar de Velha Guarda eram unânimes em salvar Ary e Caymmi desse balaio. Aí, pra completar, seu velho amigo Aloysio de Oliveira voltou pro Brasil e se transformou no produtor número um dos discos dessa turma.

Aí, ao invés de ficar mordido com o fato de perder a vanguarda da música brasileira, Ary resolveu apadrinhar o movimento. Tem uma foto clássica que reúne Tom, Ronaldo Bôscoli e Carlinhos Lyra em posição de tótem, Ary acima de todos. E ele não cansava de louvar os meninos. Até porque o que eles estavam fazendo não deixava de ser samba. Um samba novo e sofisticado, mas samba. Nada a ver com aquela maré de boleros grudentos e guarânias melequentas em que a música da época estava imersa e que desesperavam o já quase velho compositor.

Mas o fato de apadrinhar o nascente movimento não o ajudou a voltar às paradas de sucesso. Em função de sua furiosa luta pelos direitos autorais, os programadores das rádios estavam cada vez mais boicotando suas canções. Quando via que isso estava acontecendo, Ary metia a boca sem papas na língua. Aí, em contrapartida, o boicote aumentava. Mas isso não o derrotava. Continua trabalhando muito e bebendo hectolitros de uísque em suas jornadas noturnas. Sem falar que baixou sua média para quatro horas de sono por noite. O doutor me disse para beber uísque com soda, e moderadamente. Bebo puro. E quase sem moderação. Aos poucos, a saúde foi baqueando. Um dia, no banheiro de uma boate, chegou à triste conclusão: quando eu cheguei ao Rio, escrevia meu nome completo - Ary Evangelista Barroso - com uma mijada só na areia de Copacabana. Agora não balanço nem a bolinha de naftalina.

Uma caixa de Black and White pra quem visualizou a palavra cirrose se aproximando em velocidade galopante. A partir de 1961, foram três longos anos de sofridas crises e demoradas convalescenças. Mas Ary ainda teria uma imensa alegria. Era a noite de nove de fevereiro de 1964, vésperas de golpe militar, e a Império Serrano entrava na avenida com o enredo Aquarela do Brasil, em homenagem ao maior compositor brasileiro pré-Jobim. Só que desfilaram de luto e atrasados. Entrariam às dez. Às nove e cinqüenta um telefonema avisava que Ary acabava de ser fulminado por um ataque cardíaco. A homenagem tinha sido muita emoção prum corpo já muito abalado. Tipo da ironia besta.

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