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Alvaro Carrilho

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Este depoimento foi concedido para um artigo sobre Acari Records que saiu em inglês na revista norte-americana Brazzil em abril de 2000.


Minha família é de Santo Antônio de Pádua, Estado do Rio de Janeiro. É comum, nestas cidades do interior, famílias numerosas como a minha. Meu pai era Octacilio Gonçalves Carrilho e minha mãe, Lyra de Aquino Carrilho. Tiveram oito filhos que por ordem de nascimento são: Marina (1918), Ondina (1920), Carlos Augusto (1922), Altamiro (1924), Leda (1927), eu, Alvaro (1930), José Luiz (1932) e Renato (1935). Meu pai era cirurgião dentista e gostava de ajudar as pessoas menos favorecidas. Quando prestava serviços dentários a estas pessoas não cobrava ou recebia em troca mercadorias como arroz, feijão, galinha, etc. Por isso, para aumentar a renda familiar, minha mãe e minhas irmãs mais velhas trabalhavam fazendo crochê, bordado e costura. Com as dificuldades normais, a minha infância foi vivida com muita alegria e cercada de muito carinho, mas também com muitas restrições em roupas caras, brinquedos etc. Mas em compensação, usávamos a criatividade fazendo os nossos próprios brinquedos, que eram admirados pela criançada da vizinhança.

Nesta época os sucessos musicais eram apresentados em programas de rádio com os cantores Orlando Silva, Carlos Galhardo, Silvio Caldas, etc., mas havia também programas com música instrumental: choro, maxixe, tango, fox, polca e valsas. Como não tínhamos rádio, que era raro, ouvíamos os programas no rádio da vizinha. Foi aí que me interessei pela música instrumental.

Na nossa cidade tinha uma banda de música fundada por meu avô materno, Carlos Manso de Aquino, que era tão apaixonado por música que ao nascer sua primeira filha deu o nome de Lyra. A banda também se chamava ?Lyra de Orion? e tocava no coreto da praça onde as famílias da cidade se reuniam para ouvir e aplaudir.

Depois da morte de meu avô, a regência passou para o meu tio mais velho, o ?tio Messias?. Os outros quatro irmãos da minha mãe, também músicos, tocavam: Dario, sax tenor; Homero, tuba; Rodolfo, clarinete; Raul, trompete. O Altamiro, ainda garoto, tocava caixa de guerra nesta banda, de 1938 até a nossa vinda para São Gonçalo em 1941. Nessa ocasião, meu irmão mais velho, o Carlos, servia ao Exército e com o soldo recebido comprou uma flauta de bambu para o Altamiro. Mais tarde, o Altamiro, já trabalhando, conseguiu comprar uma flauta de ébano e a de bambu ficou abandonada. Foi aí que eu me apossei dela e comecei a tocar as primeiras músicas.

Em 1943 mudamos para o Rio de Janeiro no bairro de Bonsucesso. Já no Rio o Altamiro foi trabalhar em uma farmácia no centro da cidade e estudava música à noite. Foi quando formou seu primeiro conjunto regional. Em Bonsucesso eu já estava tocando músicas na minha flautinha. Defronte a nossa casa morava o Wellington, que tocava violão, e eu gostava muito de ouvi-lo tocar. Um dia tomei coragem e levei a flautinha para tocarmos juntos. Ele gostou e formamos um conjunto. Neste conjunto tocaram conosco Baden Powell, começando a estudar violão com o Meira, Manoel da Conceição e Paulo Nunes. Tocamos na Rádio Guanabara no ?Programa do Guri?. Acompanhamos neste programa Claudete Soares e Helen de Lima, ainda meninas. A minha primeira composição foi em 1948, um choro. Resultado das minhas tocatas com o Wellington.

Em 1949 fui prestar serviço militar na Aeronáutica no Rio e seis meses depois fui transferido para Barbacena. Nesta cidade conheci o Sr. Roldão que tocava banjo, solava muito bem e tinha um regional. Fui convidado por ele para participar de uma roda de choro com a flauta de bambu. E daí, passei, sempre que podia, a tocar com este conjunto. Em 1950 fiz um choro que batizei ?Chorando em Barbacena?. Em 1951, terminei o serviço militar e voltei para o Rio. Fui trabalhar em laboratório de produtos farmacêuticos e não sobrava tempo para tocar flauta.

Em 5 de maio de 1956 me casei com Zélia Lana e fomos morar em Copacabana. No dia 26 de abril de 1957 nasceu o Mauricio e em 13 de outubro de 1958 nasceu o Cesar. Em 1965 mudamos para a Penha. Em 1967 o Mauricio começou a estudar violão com o Meira e eu já não tocava mais. Em 1971 o Altamiro convidou o Mauricio para tocar com ele (só flauta e violão) em um programa na TV Globo. Com o cachê que Mauricio recebeu ele me convidou para comprar para mim uma ?flauta de verdade?. Compramos o instrumento dos meus sonhos de criança. Mesmo com o grande presente eu não tinha tempo para praticar, e a flauta ficou guardada. Em 1978 o Mauricio fez a sua primeira viagem ao Japão e me trouxe dois presentes: uma outra flauta e um flautim, novinhos em folha. Diante dos presentes passei a arranjar um tempinho para exercitar. Em 1981 me aposentei e consegui tempo maior para a flauta. Sempre agulhado pelo Mauricio. Comecei então a tocar em bares, teatros, praças, casas de família, etc.

Atualmente formamos um grupo de bons músicos; são eles: Índio do Cavaquinho, Valter 7 Cordas, Caçula no violão, Valdir Mandarino no pandeiro e eu na flauta. O ponto máximo da minha trajetória foi a gravação do meu CD, com músicas minhas e algumas em parceria com Altamiro, Carlinhos, Gerson Mesquita e Wellington Santos. Este trabalho de gravação foi feito com a orientação e ajuda do Mauricio. Tive muito incentivo dos amigos que participaram das gravações do CD, como músicos, do Altamiro e principalmente dos meus filhos. Este CD foi gravado na Acari Records, sonho idealizado e realizado por Mauricio e Luciana Rabello.


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