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Adoniran Barbosa

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(Valinhos, SP, 6 de agosto de 10 - São Paulo, 23 de novembro de 82)

Nem mesmo pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração são capazes de passar incólumes pela voz rouca que conta, quase consolada, a terrível história da noiva atropelada 20 dias antes do casamento: - O chofer não teve culpa, Iracema/ Paciência. Mais brilhante compositor paulista de todos os tempos, Adoniran Barbosa - pobre e mal-letrado -, sabia ser mais denso que muito catedrático quando definia: "pra escrever uma boa letra de samba, a gente tem que ser, em primeiro lugar, anarfabeto". Como poucos, Adoniran foi gênio. Como Lupicínio ou Nick Cave, daqueles raros gênios que extraem de uma quase patética simplicidade uma montanha de significados sutis. É aquela estória: você ouve Saudosa Maloca 300 vezes, sem prestar muita atenção. Aí, um dia, dá um estalo: "então era isso?".

Filho dileto do Bexiga, o bairro italiano de São Paulo, Adoniran foi um fotógrafo lambe-lambe da canção. Cada uma delas é um pequeno retrato de seu bairro, de sua cidade, de sua gente humilde. Por extensão, retratos que poderiam ser de qualquer grande cidade que ainda tenha, em algum canto, um resquício daquela pobreza gentil que é tão diferente da miséria definitiva. A São Paulo de Adoniran é falsamente conformada com as agruras de ser grande - enorme - e faminta de seus filhos. Afinal, os homi tão com a razão/ nóis arranja outro lugar. E: Não reclama/ porque o temporal/ destruiu teu barracão./ Não reclama,/ güenta a mão, João./ Com o Cebídi aconteceu coisa pior./ Não reclama,/ pois a chuva só levou a tua cama. Era só o que João tinha. Já a casa do Cebídi tava completa e foi toda levada pela enxurrada morro abaixo. Logo, João não tem tanto motivo pra reclamar da sorte.


Numa noite em que seu amigo carioca Johnny Alf se apresentava para uma ruidosa platéia num bar paulista, o poeta e letrista Vinícius de Morais cunhou a célebre frase: - São Paulo é o túmulo do samba. O azar dele - e de Sampa - é que a frase pegou. Só que é bom explicar. Se, por um lado, a cidade nunca teve uma grande quantidade em sambistas de primeira linha, por outro, só os nomes de Adoniran e Paulo Vanzolini - aquele de Ronda - já serviriam pra desmentir a frase do velho Vinícius, se ele a tivesse dito a sério, claro (situação parecida tem Porto Alegre: a cidade pariu para o samba quase que só dois nomes, Lupicínio Rodrigues e Túlio Piva, mas são tão bons que já chega).
Como se não bastasse, o também paulista Júlio Medaglia - maestro e arranjador -, é definitivo quando lembra: "Dostoievski dizia que a melhor maneira de ser universal é narrar bem a sua aldeia. E ninguém melhor que Adoniran narrou a aldeia paulista".

Além disso, Adoniran foi uma das raríssimas coisas boas surgidas na MPB daquela desgraça abolerada que foi a década de 50 (a bossa-nova e seus precursores não vale, que foi bem no finzinho). Uma rara chama de lucidez e assepssia no meio de uma enxurrada de mau gosto, baixo-astral, dor-de-cotovelo, mortes e assassinatos por amor espalhados pela quase totalidade das canções...

Bem antes de se tornar conhecido como compositor, Adoniran tinha nome como radioator - numa época em que o rádio tinha o controle absoluto da mídia nacional e a TV nem sonhava em se implantar no Brasil. Muito antes de Chico Anysio ou Jô Soares, em 1946 o cara já encarnava nada menos que 16 personagens em seus programas na Rádio Record. Antes ainda, tinha feito muito picadeiro de circo. E ainda estavam por vir a telinha da TV e a telona do cinema - como ator elogiadíssimo em O Cangaceiro, de Lima Barreto, melhor filme em Cannes em 53 e um dos maiores clássicos do cinema brasileiro.


Evidentemente filho de imigrantes italianos, o radioator João Rubinato na verdade não nasceu em São Paulo capital, mas sim em Valinhos, no interior do Estado. Foi pra Sampa ver se conseguia de alguma forma seguir a carreira de ator que - de 1941 a 51 - foi o que lhe deu toda aquela base antropológico-botequinesca que seria desenvolvida em seus anos de compositor. Muitos dos personagens criados pelo ator João Rubinato seriam mais tarde os personagens das suas canções. Um deles, Adoniran Barbosa, acabaria inclusive por tomar conta da persona de seu criador.

No rádio, carregando a linguagem típica do Bexiga - uma espécie de sotaque oficial da cidade - ele contava sem dramas as pequenas tragédias cotidianas da favela e dos suburbanos em geral. Tragédias miúdas, de moradores de velhos casarões abandonados por uma cidade que os demolia pra construir mais e mais arranha-céus... Enfim, a vida dos depreciativamente chamados de maloqueiros - porque viviam em malocas. Cada vez menos João Rubinato, cada vez mais Adoniran, o ator ia apresentando seu programa justamente intitulado História das Malocas, e seu alter-ego Charutinho lá ia se indo, ser gauche na vida e travestindo em conformação risível tristes constatações que poderiam - por alguém menos avisado - ser chamadas de denúncias sociais.

História das Malocas foi o grande sucesso, entre muitos programas feitos em parceria com o também radialista e compositor Osvaldo Moles: Escolinha Risonha e Franca - matriz de infinitas cópias reproduzidas até hoje nas rádios e Tvs brasileiras -, A Casa da Sogra e muitos outros. Diretamente do fictício Morro do Piolho, Charutinho e sua turma começaram a contar suas estórias em 1955. Poucos meses antes, os então jovens Demônios da Garoa tinham gravado uma canção do desconhecido compositor Adoniran Barbosa, chamada Saudosa Maloca. Sucesso absoluto. O primeiro sucesso de ambos - autor e grupo -, numa parceria que duraria até hoje, mais de década depois da morte do primeiro. E foi inspirado nesse hino da anti-malandragem, da submissão tão absoluta que chega a ser subversiva, que surgiu a idéia do programa que ficaria mais de dez anos em cartaz, chegando ao primeiro lugar na audiência.

A marca especial era aquele humor amargo, doído - o típico seria-trágico-se-não-fosse-cômico - encarnado em anti-heróis devorados pela cidade amada que crescia. Atropelados, despejados, arrastados por temporais, tentando reencontrar num canto de concreto a poesia perdida em alguma volta da vida. Venha ver,/ Venha ver, Eugênia:/ Como ficou bonito/ o Viaduto Santa Efigênia!. O humor que sabia tirar partido da desgraça. Porque lá no morro,/ quando a luz da Light pifa,/ a gente acende uma vela/ que alumia também/ se não tem/ não faz mar/ a gente samba no escuro/ que é muito mais legar. Afinal, o morro não quer protestar contra o progressio, quer é fazer parte dele. O problema é que o danado fica lá embaixo. Progréssio,/ Progréssio,/ eu sempre escuitei falar.

Adoniran foi uma exceção na chamada velha guarda. Como Caymmi, sua inacreditável modernidade não o deixou cair no esquecimento que enterrou em vida gente como Lamartine Babo, Herivelto Martins, ou mesmo Braguinha - que segue vivinho da silva. Adoniran nunca deixou de ser ouvido. Claro que teve momentos em que lembrou com saudade que o rádio que hoje toca iê-iê-iê o dia inteiro,/ tocava Saudosa Maloca. Mas não tinha nenhuma mágoa. Nenhuma mesmo: eu gosto dos meninos desse tal de iê-iê-iê,/ porque com eles canta a voz do povo./ E eu,/ que já fui uma brasa,/ se assoprarem posso acender de novo.

Até porque, de quando em quando, davam uma assopradinha. Pobre, sim: morreu pobre. Ou melhor: remediado. Mas ainda cantava em shows e gravava esporadicamente - míseros três Lps em 40 anos de carreira, todos lançados entre 73 e 80 e relançados confusamente em CD. Sempre que quis, teve no estúdio os melhores músicos e cantores da música brasileira lhe pagando tributo - muitos deles com idade para serem seus netos. Como Elis Regina, sua tiete assumida, com quem Adoniran emplacou seu maior sucesso como intérprete: Tiro ao Álvaro.

Sua única mágoa nos tempos de velhice era ter sido apartado de seu público. Cantava com sucesso para universitários, era adorado pela intelectualidade. Mas justamente ele, que tinha sido povo como poucos, não passava mais pela grande mídia nem tocava nas rádios populares. Quando, em novembro de 82, foi-se pro pagode lá de cima por causa de uma parada cardíaca, teve um enterro modesto. 500 pessoas amigas e nenhuma otoridade. Bom, pelo menos isso: seu enterro só tinha gente respeitável.


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